Reportagem

O bairro que faz esquina

Faz um longo caminho, esta parte de Lisboa: dos pátios do povo às escadas do poder, das ruas estreitas onde viveu e morreu uma geração de imigrantes cabo-verdianos aos condomínios fechados da nova gentrificação. Pelo terceiro ano consecutivo, o Festival TODOS – Caminhada de Culturas aventura-se Rua de São Bento abaixo, exibindo uma cidade que ainda não está totalmente no mapa.

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Vera Mantero vai subir a escadaria da Assembleia da República para fazer uma conferência performativa: Salário Máximo NUNO FERREIRA SANTOS
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Filipe Alves e Rute Machado fotografaram os habitantes do bairro recorrendo a um processo do século XIX: o colódio húmido NUNO FERREIRA SANTOS
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O Teatro do Vestido vai repor na Escola Superior de Dança o seu espectáculo sobre a descolonização: Retornos, Exílios e Alguns que Ficaram, a partir de depoimentos recolhidos por Joana Craveiro NUNO FERREIRA SANTOS
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Pedro Salvador, músico, e Ricardo Machado, bailarino, são os autores de Como Pedras Fora do Chão, que se apresentará na discoteca A Lontra NUNO FERREIRA SANTOS
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A performer Vânia Rovisco desenvolveu uma peça com 12 sem-abrigo, Silos de Carros e Estradas Giratórias NUNO FERREIRA SANTOS

Vê-se de lado, a Assembleia da República, do número 66 da Rua Nova da Piedade, o sítio a que Osvaldo, Betino, Ângelo e Carlos chamam casa – não o tipo de casa a que se regressa para dormir depois de um dia inteiro na rua, como o Albergue Nocturno da Rua da Cruz dos Poiais onde todos passam a noite, mas o tipo de casa onde há fotografias de família na parede, um pátio com sol onde pousar as canadianas e tarefas práticas, do género de dobrar a esquina para ir a correr buscar o que quer que faça falta nestas últimas horas antes da abertura, hoje (às 15h, na Casa dos Mundos) da sexta edição do Festival TODOS – Caminhada de Culturas.

Tem havido outras tarefas práticas para Osvaldo, Betino, Ângelo e Carlos. Tarefas como atravessar a Rua de São Bento, passar à porta da Assembleia da República e descer a Avenida D. Carlos I com a antecedência suficiente para não atrasar os ensaios. Continuam a ser sem-abrigo com horas para entrar e para sair no albergue onde dormem, mas hoje e amanhã chegam mais tarde: vão à estreia de Silos de Carros e Estradas Giratórias (às 22h, Sociedade de Instrução Guilherme Cossul), e não como espectadores. “Estou na expectativa de fazer alguma coisa importante”, diz Osvaldo quando o encontramos no pátio da Casa dos Mundos, onde entrou pela primeira vez há um ano para ser fotografado por Luís Pavão para a exposição itinerante da última edição do TODOS. Em 2013 só teve de se sentar e de esperar que o fotógrafo dissesse que o trabalho estava feito; este ano, ele próprio faz parte do trabalho que a performer Vânia Rovisco aceitou desenvolver com 12 dos sem-abrigo que Madalena Victorino, programadora do festival, encontrou quando o TODOS decidiu pôr no mapa outras esquinas de Lisboa e se mudou do eixo Martim Moniz-Intendente, então a abrir-se irreversivelmente, para o eixo São Bento-Poço dos Negros, um bairro onde as velhas casas multifamiliares da classe operária coexistem com os novos condomínios fechados.

Ao contrário de outros sem-abrigo que deram a cara para as fotografias de Luís Pavão, estes continuam com o festival. Madalena Victorino não quis desligar-se deles e concorreu ao programa PARTIS – Práticas Artísticas para a Inclusão Social, da Fundação Calouste Gulbenkian, com um projecto-satélite de oficinas para um grupo de homens sem prática artística prévia, o MARGENS. Dez deles vão chegar ao fim dos nove meses do projecto, que termina agora em Setembro (houve desistências por boas e más razões: um arranjou emprego, outro emigrou para a Holanda, muitos simplesmente desapareceram). Osvaldo, que se sente um maratonista prestes “a cortar a meta”, acha que “isto devia continuar para sempre” – isto de estarem ocupados das oito da manhã às seis da tarde, o período em que têm de estar fora do albergue. E isto de “aprender a representar, a estar em frente ao público, a articular os movimentos”, acrescenta Ângelo.

Sim, foi uma questão de lhes ensinar algumas coisas, conta-nos mais tarde Vânia Rovisco no átrio da Sociedade de Instrução Guilherme Cossul – sobretudo no início, em que lhes impôs “muita prática”. Mas também foi uma questão de os deixar estar. Em Silos de Carros e Estradas Giratórias, explica, “não há personagens, há presenças” – “que é uma coisa brutal que todos os actores querem ter e eles têm naturalmente, porque a vida os obriga a deixarem-se estar, a estarem presentes; tu pedes-lhe para esperarem e eles esperam, ficam, aterram”. Em parte, a performance é sobre isso. Não é, seguramente, sobre a condição “deles”: “Expliquei-lhes isso desde o início: nessa condição estamos todos. Se fizéssemos uma coisa sobre ‘eles’, desresponsabilizaríamos o espectador: ‘ah isso acontece convosco, não comigo’. Aqui o espectador não fica resguardado – e nesse aspecto a sala é óptima porque o palco e a plateia estão muito nivelados e obrigam-nos a coexistir.”

 
Do povo ao poder

Também é isso – a coexistência entre as ruas de São Bento e do Poço dos Negros de muitos tipos de famílias (de sangue, de trabalho, de amigos) – que põe, preto no branco, a exposição Bastidores do Bairro, uma parceria de Luís Pavão com os dois fundadores do Silverbox Studio, Rute Magalhães e Filipe Alves. Passaram os últimos meses a entrar pelos pátios e pelas lojas do bairro com uma malinha para fotografar – em chapas de colódio húmido, como no século XIX – uma série de moradores, alguns dos quais conheciam de vista desde que se instalaram num rés-do-chão da Rua Nova da Piedade. Era espaço a mais para ficarem lá sozinhos, explica Filipe: “Temos este hobby de experimentar processos fotográficos. Começámos por imprimir em papel, depois começámos a usar químicos, às tantas eu enlouqueci e comecei a comprar lasers para fazer hologramas… E entretanto descobri o colódio húmido. Quando nos mudámos para Lisboa deixámos de ter espaço em casa para experimentar e então fomos à procura de uma salinha. Encontrámos este sítio por acaso e pensámos imediatamente que tínhamos de fazer alguma coisa por ele.”

Desde que há três anos abriram a porta do estúdio para “trazer de volta a tradição de fazer um retrato” (sendo que aqui, precisa Rute, isso implica “o ritual de escolher uma roupa, um cenário, uma pose” e sobretudo implica “deixar que outra pessoa assuma o controlo, coisa que se perdeu com as selfies e os telemóveis”), têm tido “os clientes suficientes”. Entretanto, o TODOS fez-lhes esta encomenda que é também um quem-é-quem do bairro, do casal de bears com fardas da GNR à senhora de idade que vive sozinha, da avó tradicional rodeada por filhos e netos às novas e velhas gerações de imigrantes cabo-verdianos e paquistaneses – um quem-é-quem que ocupará as janelas enormes da fachada da Casa dos Mundos, trazendo cá para fora os “mundos paralelos” que se escondem atrás das portas. “Os pátios de São Bento são espaços incríveis que ninguém imagina. Nós chegávamos, pedíamos às pessoas para estarem quietas três ou quatro segundos, guardávamos a chapa numa mala para não deixar entrar luz e vínhamos a correr revelar. É um processo muito falível – e de certo modo radical”, conta Filipe.

Madalena Victorino também vê metáfora onde ele vê técnica – ao escurecer as peles dos habitantes retratados, “africanizando os brancos ou tornando-os mais latino-americanos”, as imagens de Bastidores do Bairro reproduzem a própria transformação do bairro, que tem uma história recente com o Oriente e com o Brasil e outra bem mais antiga com África. Talvez essa história possa começar na discoteca A Lontra, onde Ricardo Machado e Pedro Salvador apresentam (domingo, às 12h, às 15h e às 16h30) Como Pedras Fora do Chão, um espectáculo para crianças a partir de um poema de Daniel Faria (Homens em lugares mal situados). Já o fizeram 14 vezes, nunca num espaço “tão exótico” como este, com estatuetas africanas de cada um dos lados do espelho gigante, zebras e gazelas pintadas nas paredes e uma grande lontra no chão de tijoleira. Para eles, de resto, parte da experiência é essa. “A questão aqui é em que lugar nos colocamos – até artisticamente. Sendo que os próprios lugares mudam: de certeza que esta discoteca não é assim quando as luzes se apagam e as pessoas começam a dançar quizomba”, nota Ricardo.

Mais acima, na Escola Superior de Dança, há outra história africana para contar no festival – a história de como Portugal perdeu as suas colónias, e dos portugueses que se perderam no processo. Será a primeira reposição de Retornos, Exílios e Alguns que Ficaram (hoje e amanhã, às 21h) desde a estreia da peça em Viseu, depois de meses de recolha de depoimentos de retornados da região. “Faz-me sentido apresentá-la num festival que tem como subtítulo a ideia de caminhada de culturas – também estamos aqui numa espécie de fronteira… Ao mesmo tempo é um objecto estranho no programa, porque aquilo com que trabalhámos é o ponto de vista dos portugueses. Intriga-me saber como é que o espectáculo será recebido numa cidade como Lisboa – mais do que me intriga saber se virão vê-la imigrantes africanos com memórias da colonização ou retornados portugueses com memórias da descolonização”, diz-nos Joana Craveiro, do Teatro do Vestido.

Intriga-a especialmente saber como é que os espectadores reagirão ao capítulo sobre o 25 de Abril – isto numa edição do TODOS que também comemora os 40 anos da Revolução com um programa especialmente dedicado ao povo (aos muitos povos) de Lisboa. Vera Mantero, que vai subir as escadas da Assembleia da República para defender a fixação de um Salário Máximo na Sala do Senado (amanhã às 17h; domingo às 16h), talvez seja a artista que levou a missão mais à letra. A entrada no Parlamento é já de si um statement do festival acerca deste bairro na esquina entre as escadas do poder e os pátios do povo – mas quando a encontramos em frente ao Parlamento, tem um cartaz debaixo do braço que a polícia a obriga a esconder atrás das costas para a fotografia. Diz “A desigualdade (é que) conduz à pobreza do nosso país” porque Vera andou a ler Prosperidade sem Crescimento, de Tim Jackson, e O Espírito da Igualdade, de Kate Pickett e Richard Wilkinson, e viu aquele gráfico “escandaloso” em que Portugal aparece quase no topo de um índice de desigualdade calculado em 2009 (“Logo atrás dos Estados Unidos, que honra!”).

Ficou a pensar no gráfico e na tese central de ambos os livros – a tese de que a desigualdade é má não só para os pobres mas também para os próprios ricos. “Como são os ricos que no fundo decidem, achei por bem ir lembrar isso à Assembleia da República. Não há quem defenda a desigualdade, mas também não há quem a ataque – pelo menos eficientemente”, argumenta. Ainda não sabe muito bem que tipo de conferência performativa vai fazer com essa tese – um discurso, uma entrevista… – mas admite que este seja apenas o princípio de uma relação com a Sala do Senado, que está disposta a aprofundar na próxima edição do TODOS. Se a polícia não voltar a apitar, quando ela subir as escadas.