Se Cavaco não soube tudo do BES foi porque não perguntou, diz Passos

Primeiro-ministro diz ter pedido ao governador do Banco de Portugal que reunisse com o Presidente e que este teve “plena ocasião para colocar todas as questões que entendia pertinentes”.

A AT instaurou processos de auditoria interna a quem acedeu a informações fiscais de Passos Coelho
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A AT instaurou processos de auditoria interna a quem acedeu a informações fiscais de Passos Coelho Dário Cruz

Pedro Passos Coelho foi tão directo quanto a diplomacia permite que seja e os dois recados críticos ao Presidente da República estavam nas suas declarações.

O primeiro-ministro garante que informou o Presidente da República sobre o que sabia acerca do caso que envolvia o BES e o GES, diz que o governador do Banco de Portugal se reuniu - a pedido do próprio Passos – com Cavaco Silva e que este teve “ocasião para colocar todas as questões que entendia pertinentes”.

Mais: o chefe do Governo não viu dúvidas nas declarações de domingo do Presidente da República, quando Cavaco Silva disse esperar que o Governo lhe tenha dado todas as informações relevantes sobre o assunto. Antes vê nelas uma tentativa do chefe de Estado “mostrar que não é uma parte directa, activa” no processo. Um dedo apontado duas vezes a Cavaco, minutos antes se de sentar ao seu lado na cerimónia de entrega do Prémio Champalimaud de Visão.

“Não sei se o sr. Presidente da República expressou alguma dúvida. Não foi assim que eu interpretei o que o sr. Presidente disse”, afirmou Passos Coelho à entrada da cerimónia de entrega do Prémio Champalimaud de Visão, quando questionado sobre como vê as dúvidas expressas por Cavaco Silva que no domingo disse esperar que o Governo lhe tenha fornecido todas as informações sobre o caso BES.

“Li as declarações [de domingo] e pareceu-me que elas evidenciavam a preocupação do sr. Presidente da República mostrar que não é uma parte directa, activa, em processos desta natureza porque o sr. Presidente, como sabemos, não tem poderes executivos”, realçou Passos Coelho.

O chefe do executivo acrescentou que o Presidente “está a par destas situações por dever de informação que o Governo tem para com” ele. Mas não só: além da informação que ele próprio forneceu a Cavaco, Passos diz que Belém recebeu igualmente informação através do supervisor, o governador do Banco de Portugal.

O primeiro-ministro garante que pediu, “pelo menos uma vez”, ao governador do BdP que reunisse com Cavaco. E diz que o chefe de Estado “teve plena ocasião para colocar todas as questões que entendia pertinentes para aclarar o que fosse necessário”. Passos acredita, por isso, “que nenhuma informação relevante foi ocultada, evidentemente, ao sr. Presidente da República”.

Passos diz que notícia do BES é falsa

Questionado sobre a notícia do PÚBLICO de que teria dado indicação à família Espírito Santo para a saída de Ricardo Salgado da liderança do BES, Passos Coelho afirmou: “Eu desmenti essa notícia, ela é falsa e não tenho mais nada a dizer.” E voltou costas quando confrontado com o facto de o seu comunicado negar intervenção “por via directa” na liderança do GES quando essa intervenção ocorreu na cúpula do BES.

Em comunicado, o gabinete negou “categoricamente” ter “dado qualquer tipo de indicação ou orientação, de forma directa, através do BdP ou por outra via, sobre a composição da equipa dirigente do GES. Por seu lado, o BdP afirma que “nos contactos” em São Bento não deu “indicações” ou fez “considerações sobre a composição dos órgãos dirigentes do GES”.

Aliás, nem Passos Coelho, nem Carlos Costa, do BdP, tinham competências para se pronunciar sobre a liderança de um grupo totalmente privado e cujas holdings de controlo têm sede fora de Portugal.

Mas o Governo e o BdP não esclarecem, todavia, se o fizeram no caso do BES (supervisionado pelo BdP), como ontem avançou o PÚBLICO, que refere que o primeiro-ministro enviou no final de Outubro de 2013 uma sugestão (não directa, nem via BdP) ao Conselho Superior do GES, para que Ricardo Salgado fosse substituído como presidente do banco, até porque  estava à beira de completar 70 anos e surgiu envolvido em várias polémicas. O recado chegou ao núcleo duro do GES através de um alto quadro da família Espírito Santo, mas os representantes da família não atenderam à mensagem de Passos Coelho.