Francisco, tende piedade de nós

O colectivo Etcétera… aproveita a abertura do Papa para regressar a uma proposta de León Ferrari (que Bergoglio conhecia bem): decretar o fim do Inferno. É uma conversa entre argentinos, que promete ser umas das obras mais debatidas da Bienal de São Paulo.

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A sala onde os visitantes podem conversar com deus na instalação Errar de Dios Leo Eloy/Fundação Bienal de São Paulo
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A sala onde os visitantes podem conversar com deus na instalação Errar de Dios Leo Eloy/Fundação Bienal de São Paulo
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Peça de León Ferarri: a polémica virgem da retrospectiva de 2004 Pedro Ivo Trasferetti/Fundação Bienal de São Paulo
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Peça do artista argentino León Ferarri (1920-2013) Pedro Ivo Trasferetti/Fundação Bienal de São Paulo

“Nós, cidadãos do mundo, reunidos em São Paulo, pedimos ao Papa Francisco que clarifique esta questão crucial e, mais precisamente, rezamos pela abolição final do Inferno, esse lugar de barbárie, uma fonte intelectual de ódio e de violência. Lembremo-nos da Letícia de Francisco de Assis, quando se achou perto da morte, e esperemos que todos os homens e mulheres do mundo possam ser libertados de encarar a morte com o mesmo espírito. Mais ainda, pedimos ao Papa Francisco que nos ajude a erradicar o Inferno terreno do capitalismo financeiro e da guerra que é uma experiência diária para milhões de seres, povos indígenas, trabalhadores, pobres, desempregados, vítimas da guerra e do colonialismo clerical.”

Este é o parágrafo central da petição que será entregue no Vaticano, com as assinaturas de todos os visitantes da Bienal de São Paulo que até 7 de Dezembro, data do final da mostra brasileira, decidirem juntar-se ao colectivo argentino Etcétera… na demanda pela abolição do Inferno. Será a terceira vez que um sumo pontífice recebe este apelo, mas desta será especial.

León Ferrari, artista argentino que morreu em Julho do ano passado aos 92 anos, foi o autor das primeiras duas tentativas, em 1997 e 2000. Nessa altura, com João Paulo II ainda ao leme da Igreja Católica, Ferrari argumentava que “a existência do Paraíso não justifica a do Inferno”, ao qual a maioria das pessoas é condenada. Como podem ser felizes os que entram no reino dos Céus, sabendo que as suas namoradas, irmãs, mães e amigos sofrem nas mãos do Diabo?

Na carta de 2000, Ferrari pede ao Papa que “acabe com o sofrimento de milhões, “apazigúe” os crentes e proceda à evacuação e a demolição do Inferno. Mas o que poderia João Paulo II responder? Reiterar os textos sagrados que citam Jesus Cristo sobre a “fornalha inflamável” onde os pecadores “prantearão e moerão os seus dentes”? O que aconteceria ao Apocalipse, livro essencial da Bíblia e profundo influenciador do imaginário religioso cristão?

As iniciativas eram assinadas pelo CIHABAPAI – Club de Impíos, Herejes, Apóstatas, Blasfemos, Ateos, Paganos, Agnósticos e Infieles, en formación, do qual faziam parte dois artistas então muito jovens, Federico Zukerfeld e Loreto Garín Guzmán. São os Etcétera…, que apresentam na Bienal de São Paulo Errar de Dios, instalação que desafia crenças absolutas e é já, com poucos dias decorridos desde a inauguração, umas das obras mais citadas da mostra.

É lá que se encontra a nova petição para acabar com o Inferno, uma das formas que a dupla encontrou para homenagear Ferrari e para responder ao tema da 31.ª Bienal, “coisas que não existem”. O artista argentino, que chegou a ser considerado pelo The New York Times um dos artistas plásticos mais provocadores e importantes no planeta, foi uma referência para uma geração de jovens artistas nos anos 1990, que por isso quiseram manter a sua obra bem viva.

“O León marcou uma tendência ética entre os artistas mais jovens”, diz Loreto ao PÚBLICO. “Não tínhamos muita gente com quem compartilhar uma arte que tivesse também um pendor ideológico, político, social, e o León era uma referência muito, muito importante para nós”, acrescenta Federico, numa conversa no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, onde decorre a Bienal.

Os elementos do colectivo, que nasceu precisamente em 1997, o ano de fundação do CIHABAPAI, conheceram Ferrari nas ruas de Buenos Aires, onde participavam em protestos contra a privatização da educação (era o tempo do Governo de Carlos Saúl Menem) e em manifestações pela preservação da memória histórica da ditadura militar e pela defesa dos direitos humanos. Os Etcétera… integravam gente do teatro, das artes visuais, da poesia, e da música, unida pela boémia e pelo espírito de resistência que se vivia na capital argentina.

“Nesse contexto conhecemos León Ferrari, que tinha um filho desaparecido durante a ditadura militar”, recorda Federico Zukerfeld. “Apesar de termos uma diferença de 50 anos, havia isso que nos ligava.” Como? As crianças que desapareceram durante a ditadura pertenciam à geração dos jovens de 20 anos que no final dos anos 1990 constituíam o colectivo. O que começaram por fazer com o experiente artista? Reunir assinaturas para a primeira petição.

“A ideia da carta era pedir à Igreja a anulação do Inferno como lugar de tortura eterna. Uma religião que prega a benevolência e o bem não pode tolerar a tortura como método de castigo eterno de pecadores e de quem não crê – estamos todos condenados a esse lugar. O que León pedia era a anulação do Inferno, algo tão simples e tão complexo”, conta Federico.

A decisão de reescrever a carta em 2014 não é só uma homenagem a Ferrari num espaço de consagração como a Bienal de São Paulo – aliás, nem seria necessário, visto que o argentino foi distinguido na Bienal de Veneza de 2007 com o Leão de Ouro, o mais importante galardão do sector, por La Civilización Occidental y Cristiana. Mas serve também para “aproveitar que o Papa é argentino e que é Bergoglio, que conhece León muito bem”, sublinha Federico Zukerfeld.

Bergoglio foi o mais relevante opositor à retrospectiva que o Centro Cultural Recoleta, em Buenos Aires, dedicou a León Ferrari há uma década. Loreto Garín Guzmán recorda a história: “Em 2004, quando se fez a grande retrospectiva de Ferrari em Buenos Aires, ocorreu o grande escândalo: uma das virgens que está aqui [na Bienal], a virgem com as lagostas [e as baratas a cobrir-lhe o corpo], que não foi exibida na retrospectiva, estava para ser colocada no espaço e uma senhora que trabalhava no museu, que estava a varrer, viu a figura, correu para a igreja mais próxima, a Igreja de Nuestra Señora del Pilar, a de mais ultradireita da cidade, fala com o bispo e o bispo chama o arcebispo, que era na altura Jorge Bergoglio, o actual Papa Francisco.”

O arcebispo qualificou as obras do seu compatriota como uma “afronta blasfema”. Ferrari respondeu-lhe em 2007, quando venceu o Leão de Ouro: “Tenho este prémio graças a ti, Bergoglio. Fizeste-me famoso.” Federico Zukerfeld conta-nos que perguntou à família de Ferrari como é que este reagiu, quando já estava muito debilitado e perto da morte, à eleição do actual Papa. “Pensámos: deu-lhe um enfarte, morreu! Mas não foi assim. Os grandes têm a grandeza como atitude. O que ele pediu foi um bom copo de vinho tinto e um charuto, um Havano, e festejou. Se o seu grande amigo-inimigo, o que o tornou famoso, agora é o Papa, quase a pessoa mais importante e mais reconhecida do mundo, o que é que isso faz dele?”

Tal como Ferrari, os Etcétera… estão tão ou mais preocupados em intervir na vida terrena do que nas possibilidades da vida etérea. E é por isso que esta reedição da carta pede “não só a anulação do Inferno litúrgico, mas também a anulação deste Inferno que os seres humanos vivem todos os dias nesta Terra”, destaca Federico. “O Inferno da pobreza, da desigualdade, da guerra, o inferno do capitalismo financeiro, o inferno que vivemos como sociedade mundial, que não nos permite conviver em paz. Essa é a petição que fazemos.”

É esse inferno real que a dupla recria em Errar de Dios, que nos convida a entrar num corredor vermelho, onde se encontra a petição e algumas peças de León Ferrari, e a ultrapassar uma cortina que abre caminho para uma grande sala, também vermelha, onde a ironia e o humor dissecam cada uma das labaredas que nos consomem no quotidiano finito de que dispomos. Aí podemos sentar-nos – em duas bancadas vermelhas – e falar com deus por telefone.

Cada conversa é gravada e é inserida no loop de diálogos que os Etcétera… escreveram em parceria com o filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi, partindo de Palabras Ajenas de Ferrari. O original reunia fragmentos de notícias, declarações e trechos bíblicos. Agora, foram criados diálogos de deus com o Papa, Merkel, Goldman Sachs ou Monsanto. Quando a mostra chegar ao fim, a rede de conversas terá aumentado substancialmente. O que pretendem é que as pessoas se permitam a errar nos rígidos sistemas de crenças que estas divindades mundanas – como os que criam as divindades religiosas – vêm incutindo às sociedades humanas, e que isso lhes permita imaginar outros sistemas. “Há uma crise muito profunda de imaginação. Repetimos, repetimos, repetimos e poucas vezes nos permitimos errar e ir para outro lado.”

“Errar” tem aqui um duplo sentido, o do erro e o de errar, vaguear. O que remete para outra importante ponte de ligação da instalação – a ligação dos artistas ao Movimento Internacional Errorista –, mas não a última referência. Essa é subtil, apesar do seu tamanho: o panorama que ocupa a parte superior da sala é uma sobreposição de imagens – que inclui a famosa performance errorista no Mar de la Plata – que evoca o trabalho artístico do pai de Ferrari.

Ele está em todo o lado. E por isso convém terminar com a nota que fecha a petição: “No caso de as negociações entre Sua Santidade e o Pai Eterno se concluírem com a impossibilidade de abolir o Inferno, pedimos-lhes que pelo menos permitam o resgate da alma do artista [León Ferrari] e a sua libertação da condenação eterna”. Para que Francisco não se esqueça.

O jornalista viajou a convite do Groupe Allard