Metade dos cursos de engenharia civil sem alunos na 1.ª fase

Para os responsáveis das universidades e politécnicos, trata-se de um “problema nacional”. O presidente do CCISP apela ao Governo para melhorar a preparação dos alunos a Matemática e Físico-Química.

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Foram conhecidos neste fim-de-semana os resultados da 1.ª fase do concurso de acesso ao ensino superior público Nelson Garrido

Para o presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), trata-se de “um problema nacional”: “Não é só dos politécnicos, também é das universidades, é transversal a todo o país. E não corresponde às necessidades de desenvolvimento do país. Temos de ter mais alunos nesses cursos, sob pena de termos de vir a importar estudantes.” E apela ao Governo para que aposte mais na preparação dos alunos que se candidatam a estas áreas: “Alertamos o Governo para reforçar a preparação dos estudantes para os exames de Matemática e de Físico-Química. Se calhar, a preparação dos estudantes para estes exames não está a correr bem”, diz Joaquim Mourato, que já tinha alertado, em comunicado, para a necessidade de “olhar de forma particular para os cursos de engenharia”, considerando que é uma área “fundamental para a industrialização e desenvolvimento do país”.

O presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, António Rendas, reconhece que se trata de um “problema nacional” que “tem de ser analisado em detalhe nas universidades e escolas de engenharia”: “Vejo este problema com preocupação”, diz António Rendas, ressalvando, no entanto, que é preciso esperar ainda pelos resultados da 2.ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior, que serão conhecidos a 25 de Setembro. O número total de novas admissões só será conhecido após a conclusão das inscrições e incluirá não só os estudantes que virão a ser colocados na 2.ª e 3.ª fases do concurso, como os admitidos através de outras vias, entre as quais se encontram os regimes especiais de acesso.

De acordo com os dados divulgados pela Direcção-Geral do Ensino Superior (DGES), os cursos da área designada por “engenharia e técnicas afins” abriram 9022 vagas (o mesmo número do ano passado). Mas o número de colocados baixou dos 5596 em 2013 para os 5302 este ano, o que se traduz numa redução da taxa de ocupação dos 62% para os 59%, tendo sobrado, este ano e nesta primeira fase, 3724 vagas.

Analisando em detalhe os dados divulgados, curso a curso, há mais de 200 cursos de engenharia. Incluem licenciaturas e mestrados integrados de vários tipos de engenharia, de civil a informática, passando por mecânica, e ainda diferentes regimes, como pós-laboral ou nocturno. A média das vagas sobrantes é 62%. Entre estes cursos, há 46 sem qualquer aluno nesta 1.ª fase - 38 em politécnicos e oito em universidades.

No caso particular dos cursos de engenharia civil - e incluindo licenciaturas, mestrados integrados, um curso com regime nocturno e dois em que a engenheira civil surge combinada com outras áreas -, a média das vagas sobrantes ronda os 93%. São, no total, 21 cursos (22, se contarmos com o facto de o mesmo curso disponibilizar vagas para o regime nocturno). Cerca de metade não tem alunos (10, analisando cada instituição; 11, incluindo as vagas para o regime nocturno). As dez instituições são o Instituto Superior de Engenharia do Porto; Escola Superior de Tecnologias de Gestão de Viseu; Escola Superior de Tecnologia e de Gestão de Bragança; Instituto Superior de Engenharia de Coimbra; Escola de Ciências e Tecnologia (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro); Escola Superior de Tecnologias de Castelo Branco; Escola Superior de Tecnologia e Gestão (Instituto Politécnico da Guarda); Escola Superior de Tecnologia do Barreiro; Escola Superior de Tecnologia de Tomar; e Universidade de Aveiro. A instituição que tem a percentagem mais baixa de vagas sobrantes, no que se refere ao mestrado integrado de engenharia civil, é o Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa (45%) onde 82 candidatos foram colocados nas 150 vagas disponíveis.

Mas a análise dos dados divulgados pela DGES também permite perceber que, no que se refere às áreas de estudo preferidas pelos estudantes, o grupo da “engenharia e técnicas afins”, que inclui vários cursos, surge em 3.º lugar, depois da Saúde e das Ciências Empresariais. Este ano, 5503 estudantes escolheram um curso da área de “engenharia e técnicas afins” como 1.ª opção - um número, porém, inferior ao registado no ano passado – 5904.

Crato destaca programas
Apesar de neste domingo, em declarações à agência Lusa, o ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, ter admitido que "há ainda ajustamentos a fazer em áreas prioritárias", como as engenharias, de uma forma geral, quando questionado sobre os resultados desta 1.ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior, o ministro salientou o aumento do número de estudantes colocados. "Estamos muito contentes por ter nesta primeira fase mais estudantes a entrar no ensino superior tanto nas universidades como nos politécnicos", afirmou Nuno Crato, para quem estes resultados são "um bom sinal".

Este ano havia menos vagas e mais alunos a disputar um lugar no ensino superior. Nesta fase, abriram 50.820 vagas, menos 641 do que no ano passado. Menos vagas, mas mais candidatos: no ano passado, eram 40.419, este ano 42.408. Em 2013, 37.415 foram colocados (93%), este ano 37.778 (são mais em termos absolutos, mas menos em termos percentuais, 89%). Para a 2.ª fase, ainda há 13.168 lugares.

Nuno Crato destacou ainda, entre outros, alguns programas criados pela tutela que poderão também, defende, contribuir para aumentar o número de estudantes no ensino superior. Referiu-se ao “programa Retomar, para aqueles que abandonaram os estudos e que neste momento pretendem voltar e estão desempregados” e ainda ao “programa +Superior, para aqueles alunos que pretendam deslocar-se para instituições de ensino superior no interior do país".