Fábrica parada há mais de um ano à espera de autorização para exportar para os Estados Unidos

Primeiro fungicida orgânico concebido pela Converde a partir de proteínas está bloqueado à espera de autorizações dos reguladores dos EUA.

A vinha é um dos mercados potenciais do fungicida da Converde
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A vinha é um dos mercados potenciais do fungicida da Converde

Um produto português, único no mundo, está armazenado na fábrica há mais de um ano à espera das autorizações para entrar no mercado norte-americano. As dificuldades em obter luz verde por parte dos reguladores obrigaram à paragem de produção do fungicida orgânico, o primeiro no mundo a ser concebido a partir de sementes germinadas de tremoceiros e fruto de uma investigação do Instituto Superior de Agronomia (ISA), que começou em 1991. A intenção era começar a vender em 2014, mas o processo estagnou na burocracia.

“Temos um acordo de distribuição com uma empresa americana, a FMC. A Environmental Protection Agency (EPA) [Agência de Protecção Ambiental americana] tem o produto registado, mas bloqueou a entrada nos Estados Unidos até que se supere um problema levantado pela Food and Drug Administration (agência federal americana reguladora dos medicamentos), que pediu estudos que evidenciassem que o produto não causará alergias. Depois destes estudos, devemos proximamente ter o caminho livre de venda na América do Norte (Estados Unidos e Canadá)”, diz Mário Pinto, presidente executivo da Converde, a empresa portuguesa que criou o fungicida.

Com um investimento de mais de 31 milhões de euros, comparticipado por fundos comunitários, a Converde inaugurou a fábrica em Cantanhede em Janeiro de 2013 e empregava, na altura, 30 trabalhadores. A laboração propriamente dita arrancou em Fevereiro e foram produzidas 100 toneladas de fungicida, o equivalente à capacidade máxima de armazenamento disponível na unidade. “Como não tínhamos mais capacidade de armazenamento do produto, parámos a produção”, continua o presidente executivo. Dos 30 trabalhadores, apenas se mantêm os efectivos (14) e, já este ano, os colaboradores com salários mais elevados aceitaram uma redução de ordenado. Os accionistas (a maioria empresas de capitais de risco) “disponibilizaram três milhões de euros até ao fim do corrente ano” para manter a empresa no activo até que seja possível exportar, adianta Mário Pinto.

Além do processo de autorização para os Estados Unidos, estão também a correr negociações para a entrada na União Europa, Japão e China. Neste último caso, a expectativa é começar a vender no início de 2016. Na Europa “o processo é mais lento por não ser a mesma entidade a avaliar a parte técnica e a parte da eficácia (testes de campo)”, diz o responsável. Além disso, estes testes terão de ser feitos em três regiões europeias diferentes, o que atrasa ainda mais as autorizações de comercialização. Quanto ao Japão, Mário Pinto acredita que será um processo demorado. “Normalmente demora entre seis e oito anos, mas como não é um químico por ser que encurtem”, afirma.

A Converde - que detém o estatuto IAPMEI Inovação e recebeu o Prémio Startup Portugal PME - já reuniu com o Secretário de Estado da Alimentação e da Investigação Agroalimentar, Nuno Vieira e Brito, colocando, assim, o Governo a par do problema.

Demora nas autorizações
Tudo começou em 1991 com a investigação pioneira no ISA que identificou uma proteína multifuncional, produzida durante a germinação de uma variedade de tremoço. Há outros fungicidas orgânicos no mercado, mas este é o primeiro à base de proteínas.

Em 2011, foi estudada a sua viabilidade comercial, depois de uma participação no programa Cohitec (uma acção de formação em comercialização de tecnologias promovida pela Cotec, Associação Empresarial para a Inovação). Fundou-se a Converde, que tem como accionistas a CEV (com 80% do capital e que é detida por quatro investidores de capital de risco – Promotor, Change Partners, F. Ramada Investimentos e ES Ventures). Os professores do ISA Ricardo Ferreira, Virgílio Loureiro e Sara Monteiro têm, cada um, 10% de participação.

O Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional apoiou o projecto entre 2011 e 2013 “através da concessão de financiamento para os custos da investigação e do desenvolvimento do fungicida, o custo do novo edifício da Converde e a instalação do equipamento de fabrico”, lê-se numa informação da comissão europeia.

O produto poderá ser usado para proteger videiras, tomates, morangos e amêndoas contra fungos e chamou a atenção da FMC, gigante química norte-americana que, logo em 2012, no seu relatório de sustentabilidade, dava nota do potencial do “Fracture”, o nome comercial adoptado nos Estados Unidos (será Problad Plus na Europa). “Este produto protector, disponível em 2013, vai ajudar os agricultores da América do Norte a melhorar a qualidade da colheita”, lê-se no documento. As previsões acabaram por não se cumprir.

“Estávamos preparados para encontrar obstáculos. Mas aprendemos que lidar com os reguladores é muito demorado e complexo”, conclui Mário Pinto, quando questionado o sobre se a Converde esperava tantas dificuldades na exportação.