Os melhores filmes da competição de Veneza segundo o nosso crítico

O crítico de cinema do PÚBLICO Vasco Câmara escolheu os cinco melhores filmes da competição do Festival de Veneza, antecipando o palmarés de sábado.

The Postman’s White Night
De Andrej Konchalovskki

Ninguém, nesta edição, estava à espera que o último filme em concurso pudesse ser responsável por uma emoção assim – porque, verdade seja dita, ninguém estava à espera do russo Konchalovski, que regressa a Veneza 12 anos depois de House of Fools, e que tem uma carreira repartida entre o seu país e os EUA, entre o cinema e a televisão. Mas é verdade: no final da 71 edição de Veneza, um filme depois do fim: depois do fim da URSS, depois do fim do “socialismo romântico”, um filme que se faz com o que restou das epopeias, como Siberiade (1979), do próprio Konchalovsky. E que se ergue dessas cinzas com um lirismo e um sorriso triste arrebatadores, que evocam Boris Barnet ou Aleksandr Medvedkin. É a vida de uma aldeia, e do carteiro que faz a sua ligação ao mundo, interpretada pelos seus habitantes.

Fires on the Plain
De Shinya Tsukamoto

É daqueles filmes que parecem querer dizer que o cinema foi inventado para a guerra e em estado de guerra – com luz e sombras Tsukamoto conseguiu inventar uma ilha no Pacífico, alimentando essa invenção com uma energia intensa, que o filme consome, pela qual o filme se deixa consumir. Adaptação de um livro de Shohei Ooka, de que Kon Ichikawa tirara uma versão cinematográfica em 1959, conta um episódio da II Guerra Mundial – um grupo de soldados isolados, vulneráveis, na ilha que tomaram – que Tsukamoto transforma numa experiência sensorial, apocalipse de uma humanidade em combustão.

Sivas
De Kaan Mudjeci

Combate de feras: não entre cães, sequências aliás polémicas que tem dado que falar, mas entre os homens. Primeira ficção de um realizador turco, rodada numa aldeia da Anatólia com não-profissionais para não alterar as características e os rituais de uma comunidade, deixando-se assim levar por eles como num documentário, é a história de um miúdo que se inicia no grupo de homens. Um miúdo e o seu cão de combate: não consegue ser a personagem que queria numa encenação da escola de Branca de Neve e os Sete Anões mas reclama o seu papel numa história da violência.

The Look of Silence
De Joshua Oppenheimer

É o filme do contraponto necessário a The Act of Killing (201). Depois de ter dado espaço aos esquadrões da morte que nos anos 60 assassinaram um milhão de indonésios “acusados” de serem comunistas, deixando-os que repetissem os seus gestos de assassinato como actores de “action movies” (na esperança talvez de que a performance colocasse o performer, que era o assassino, face a face consigo próprio), agora todas as palavras e gestos são interceptados pelo olhar da vítima. Não é uma sequela do filme anterior, por isso.

Tales
De Rakhshan Banietemad

A iraniana Rakhshan Banietemad filmou como se concretizasse uma espécie de música irreprimível do cinema: cruzar as vidas invisíveis, aquelas que não têm voz e acabam sempre por se encontrar, por se amarem e deixarem, por partilharem a dor: prostitutas, taxistas, desempregados ou reformados, cruzam-se no metro, na burocracia de um Ministério, num centro de apoio a suicidas, num táxi.