Especialistas admitem que antidepressivos travaram aumento dos suicídios em Portugal

Organização Mundial de Saúde aponta para redução dos suicídios em Portugal na última década, mas o próprio revisor português do relatório alerta que “quando muito, poder-se-á falar de estabilização nos últimos cinco anos”

Os dados actualizados sobre o número de suicídios na região só serão divulgados no sábado
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Os portugueses são dos europeus que mais recorrem a antidepressivos David Clifford

O consumo de antidepressivos tem ajudado a estabilizar a taxa de suicídios em Portugal. A conclusão está contida num estudo do grego Nikolaos Antonanakis, da Universidade de Viena, na Áustria, segundo o qual, ao contrário do que se passou em países como a Grécia, Irlanda e Itália, onde a crise fez aumentar o número de suicídios, em Portugal e Espanha o fenómeno tem-se mantido estável nos últimos cinco anos.

"Isso deve-se ao efeito mitigador do uso de antidepressivos, ou seja, há uma série de suicídios que não se concretizaram, ao nível dos desempregados e de outros grupos de risco, por causa desse efeito mitigador”, sustentou ao PÚBLICO Ricardo Gusmão, o investigador do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto que está a colaborar na realização desse estudo.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou ontem o relatório “Prevenir o Suicídio – Um Imperativo Global”, segundo o qual a taxa de suicídio em Portugal baixou dos 8,8 suicídios por cada mil habitantes em 2000 para os 8,2 de 2012. Os números, porém, não coincidem com aqueles que são divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, segundo os quais houve 1066 suicídios em 2012 contra os 519 registados em 2000.

O coordenador do Programa Nacional para a Saúde Mental da Direcção-Geral de Saúde (DGS), Álvaro de Carvalho, alerta também para o facto de os números do relatório traduzirem uma estimativa que não coincide com os dados oficiais de Portugal. “Portugal continua com uma taxa de suicídios persistente e muitíssimo elevada nas pessoas com mais de 65 anos de idade. Como a população mais velha tem vindo a crescer, é preciso muito cuidado para que as taxas padronizadas não escondam o suicídio nesse grupo comparativamente com o resto da população”, alerta.

Em 2012, e segundo a DGS, a taxa de suicídio entre os menores de 65 anos de idade foi de 6.1 por cada 100 mil habitantes. Entre os maiores de 65 anos, e no mesmo período, a taxa foi de 21.1, subindo para os 25.1 suicídios por cada 100 mil habitantes entre os maiores de 75 anos de idade.

“Houve uma alteração muito grande na metodologia de registos entre 2000 e 2004, e penso que a OMS terá feito uma extrapolação dos números, ou seja, os números estavam tão enviesados que a OMS fez um ajuste”, admite Ricardo Gusmão, que foi um dos revisores deste relatório, e segundo o qual o máximo que se pode afirmar sem margem para dúvidas é que, nos últimos cinco anos, o fenómeno estabilizou.

“Haverá, em Portugal e em Espanha, determinantes sociais e até psicológicos que fazem com que, perante a adversidade social, a resiliência seja maior. Seria por isso interessante ir-se à procura das características dos portugueses e dos espanhóis e dos sistemas sociais portugueses espanhóis para perceber por que é que o suicídio não aumentou como nos outros países igualmente afectados pela crise”, preconiza o investigador.

Álvaro de Carvalho admite que “as estruturas familiares e de entreajuda social presentes nas sociedades portuguesa e espanhola” ajudem a atenuar os efeitos da crise, anulando o seu efeito de aumento do número de suicídios verificado noutros países. E, porque Portugal é dos países da União Europeia que apresentam consumos de antidepressivos mais elevados, Álvaro de Carvalho considera plausível que aqueles tenham ajudado a mitigar os suicídios. Mas mostra-se, ainda assim, cauteloso. “Não sabemos se quem consome mais antidepressivos são os jovens ou os adultos e enquanto não tivermos esses dados discriminados é arriscado fazer considerações”, ressalva.

Um suicídio a cada 40 segundos

O relatório da OMS estima que a cada 40 segundos uma pessoa suicida-se em todo o mundo. Em 2012, registaram-se 804 mil mortes por suicídio, o que representa uma taxa anual mundial de 11,4 por cada 100 mil habitantes (15,0 entre os homens e 8,0 entre as mulheres). Nos países ricos, os homens suicidam-se três vezes mais do que as mulheres. A nível mundial, os suicídios representam metade de todas as mortes violentas entre os homens. No caso das mulheres, a percentagem sobe para os 71%.

Apesar de serem mortes evitáveis, a OMS condena o facto de a prevenção do suicídio, classificada como uma questão de saúde pública, não surgir como prioridade para os decisores políticos dos diferentes países. Aliás, na maioria dos países o suicídio continua a surgir “escondido” nas estatísticas oficiais como morte acidental. As dificuldades de registo poderão ajudar a explicar a discrepância dos números: além de apontar para uma redução da taxa de suicídios que não é confirmada pelas estatísticas nacionais, o relatório da OMS aponta a ocorrência de 1324 suicídios em 2012 em Portugal, quando o Instituto Nacional de Estatística continua a falar de 1066. “O nosso país surge com uma taxa de mortes por causa indeterminada muito elevada, de cerca de 10%, e creio que a OMS fez uma extrapolação a partir daí”, aventa Álvaro de Carvalho.

Precisamente para responder a esta realidade, Portugal tem a funcionar desde o início do ano o Sistema de Informação dos Certificados de Óbito (Sico) que reúne os dados obtidos pelo Ministério Público, pelas forças policiais, pelos hospitais, centros de saúde e serviços de medicina legal. Nos primeiros quatro meses de 2014, o Sico registava 294 suicídios em Portugal, mas, conforme adiantou ao PÚBLICO o coordenador do Programa Nacional de Saúde Mental, Álvaro de Carvalho, “só ao fim de alguns anos haverá dados seguros” sobre a real evolução do suicídio em Portugal.

Para Ricardo Gusmão, porém, nem daqui a alguns anos o país disporá de uma radiografia precisa sobre os suicídios. “Tenho dúvidas que o Sico elimine a imprecisão do registo dos suicídios por causa das várias dificuldades na introdução dos dados no sistema electrónico e que vão desde a falta de formação dos médicos ao facto de os peritos do Instituto Nacional de Medicina Legal não terem acesso a todas as notas e descritivos que os agentes de segurança obtêm no local da morte”, sustenta, dizendo saber de casos de colegas que “em vez de registarem a morte por causa indeterminada, porque o sistema já não lhe permite, a registam como acidente, porque é mais fácil”. Dai que o investigador preveja “um aumento expressivo das mortes por acidente nos próximos anos”.