No seu "livro-vingança", Valérie Trierweiler diz que Hollande trata os pobres por "desdentados"

A ex-primeira-dama francesa escreveu um livro amargo sobre a sua relação (e separação) com o Presidente de República

Valérie Trierweiler e Hollande no dia da eleição deste, em Maio de 2012
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Valérie Trierweiler e Hollande no dia da eleição deste, em Maio de 2012 AFP

A antiga primeira-dama francesa, Valérie Trierweiler, escreveu um livro sobre os anos em que viveu com o Presidente François Hollande, tentando dar à opinião pública a imagem correcta do homem com quem viveu e do político que governa a França. Os comentários não são bons nem para um lado nem para o outro e falam de uma "tragicomédia".

"Merci pour ce moment" (obrigada por este bocadinho, em tradução livre), tem 320 páginas e o jornal Le Monde escolheu um trecho para pré-publicação. É o mais danoso para Hollande, revelando que, na intimidade do lar, o Presidente trata os pobres por "desdentados".

"Ele apresenta-se como uma pessoa que não gosta dos ricos. Na realidade, o Presidente não gosta dos pobres. Ele, que é um homem de esquerda, diz em privado: ‘Os desdentados’, muito convencido do seu sentido de humor".

A Paris Match também citou partes do livro, que chegou esta quinta-feira às livrarias. Apesar de Valérie Trierweiler, que é jornalista, trabalhar nesta revista, deram-lhe capa e escolheram um trecho mais sentimental, a mostrar a ferida que Hollande provocou na companheira (não eram casados), quando esta foi confrontada com as notícias de que o Presidente tinha uma amante.

"Vou-me abaixo, não percebo isto, meto-me na casa de banho. Agarro no pequeno saco de plástico que tem os soporíferos (...) François seguiu-me. Tenta agarrar o saco. (...) Agarra-o e o saco cai. Os comprimidos espalham-se pelo chão. Tento recuperá-los. Agarro no que posso. Quero dormir. Não quero passar pelo que está para vir. (...) Quero fugir. Perco a consciência".

Valérie Trierweiler, que tem 49 anos, foi hospitalizada durante uma semana depois deste episódio. O fim da relação foi anunciada por Hollande no dia 25 de Janeiro. No trecho publicado pela Paris Match também se fica a saber que o Presidente confirmou a Valerie que mantinha um caso amoroso com a actriz Julie Gayet, mas primeiro disse que o caso durava há meses, finalmente admitiu que durava há um ano.

Valérie Trierweiler não foi a primeira ex-primeira-dama a escrever um livro sobre a separação de um Presidente francês. Em 2013 a ex-mulher de Nicolas Sarkozy, Cécilia Attias, publicou "Une envie de vérité" (um desejo de verdade), em que conta o divórcio. Attias desabafou, terá feito algum dinheiro com as vendas, mas não foi o que escreveu que feriu o político Sarkozy.

Não se sabe se as 320 páginas de Trierweiler (a editora espera um best-seller, anunciando que a primeira edição tem 200 mil exemplares) poderão afectar Hollande, que é um Presidente pouco popular e que continua a cair nas sondagens por motivos puramente políticos — o relato da ex-companheira, diz este jornal, tenta mostrá-lo como um homem "desumanizado" pelo poder e inconsequente na vida privada. Um amigo de Hollande disse, sob anonimato, ao Le Monde, que apesar de impopular o Presidente não é olhado pela opinião pública francesa como uma pessoa antipática ou má.

Já Trierweiler, que entrou no Eliseu em 2012 e saiu em Janeiro de 2014, nunca foi uma figura popular junto da opinião pública francesa. Nas legislativas de 2012 criou indignação em alguns sectores e grande irritação entre os socialistas ao apoiar, nas legislativas, o rival de Ségolène Royal, que também viveu com Hollande e é a mãe dos quatro filhos do Presidente (e ministra).

A relação de quase três décadas entre Royal e Hollande chegou ao fim em 2007, quando os media franceses expuseram uma relação entre o actual Presidente e Valerie Trierweiler. Esta considera que Hollande nunca quebrou um laço de dependência em relação a Royal.

O jornal El País chama a "Merci pour ce moment" um "livro-vingança" contra o homem que a traiu. E sugere que outro livro, que chegará às livrarias na semana que vem, fará mais danos na presidência Hollande — a atravessar uma fase de grande debilidade política — do que a memória amarga da antiga primeira-dama.

Este outro livro, "Moi, president" (eu, presidente), foi escrito pelo jornalista Valentin Spitz a partir de conversas com Arnaud Montebourg, que foi demitido recentemente do cargo de ministro da Economia depois de uma cisão com o Presidente sobre o rumo que este deu à política económica. "Hollande está sempre a mentir", diz no livro Montebourg, que lidera a facção mais à esquerda do PS francês e aspira a ser o próximo candidato do partido à presidência já nas próximas eleições.