Transportes públicos começam a travar fuga de passageiros

CP, Metro de Lisboa e Metro do Porto registaram um aumento do tráfego no primeiro semestre, invertendo quedas do passado. Mas procura ainda está longe dos níveis pré-crise.

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Metro de Lisboa teve maior aumento absoluto de passageiros, num total de 1,7 novas validações Enric Vives-Rubio

Dados cedidos pelas transportadoras do Estado mostram que, no primeiro semestre, houve 290,4 milhões de validações, o que significou uma redução de 1,1% face a igual período de 2013, correspondente a quase 3,4 milhões de passageiros, em termos absolutos. A queda foi, ainda assim, muito menor do que a verificada um ano antes. Entre o primeiro semestre de 2012 e de 2013, a redução tinha atingido 10,9%, o que significou menos 35,8 milhões de clientes.

Além disso, entre Janeiro e Junho houve já três empresas em que a tendência foi de crescimento. Foi o caso da CP, da Metro de Lisboa e da Metro do Porto, que já no ano passado tinha sido a única a apresentar uma subida no tráfego. No caso da transportadora ferroviária, verificou-se um aumento de 2,4% (quase mais 1,4 milhões de validações para um total de 54,1 milhões). No serviço metropolitano da capital, o incremento percentual foi o mesmo, mas o acréscimo em termos absolutos foi maior, com mais 1,7 milhões de passageiros e um total de 71 milhões. Na Metro do Porto, o crescimento situou-se em 0,3% (de 28,3 para 28,4 milhões de bilhetes vendidos).

As restantes três transportadoras continuaram a apresentar quebras, mas inferiores às verificadas anteriormente. Na Transtejo, por exemplo, a redução foi de 1,8%, quando tinha atingido 6,4% nos primeiros seis meses do ano passado. Na Carris, o número de validações caiu 4,4%, contra os 7,9% do ano anterior. E, finalmente, na STCP, o recuo foi de 5,3% – que compara com a diminuição significativa de 21% registada entre Janeiro e Junho de 2013.

Menos desemprego, menos greves e menos aumentos
Há vários factores que parecem estar a contribuir para esta melhoria na procura por transportes públicos. Fernando Nunes da Silva, especialista no sector, destaca o facto de “a diminuição do desemprego se repercutir no tráfego”, já que a redução da mobilidade das populações foi uma das causas apontadas para a fuga de passageiros. O professor do Instituto Superior Técnico referiu ainda que “as pessoas continuam a fazer a transferência do transporte privado para o colectivo, por questões económicas relacionadas com o custo do combustível, mas também do estacionamento e das portagens”.

A pacificação interna nas transportadoras públicas, que ao longo de 2011, 2012 e 2013 enfrentaram sucessivas greves, também tem impactos positivos. Assim como o facto de, este ano, o aumento de tarifas se ter limitado à inflação, ao contrário do que aconteceu no passado recente. Em 2012 e 2013, o Governo decidiu rever os preços, que aumentaram, em média, 20% num curto espaço de tempo. “É natural que já tenha havido uma acomodação às tarifas, depois das expressivas subidas que aconteceram”, um dos factores que era apontado para as quedas na procura, acrescentou Nunes da Silva.

Um dos argumentos que o Governo foi usando para justificar a perda de passageiros era o aumento da fraude nos transportes públicos. Um estudo pedido pelo Ministério da Economia concluía que as empresas de Lisboa perdiam anualmente oito milhões por causa deste fenómeno. Para diminuir a incidência de fraude, foi alterada a lei, atribuindo-se ao fisco a responsabilidade de cobrar multas para tornar o procedimento mais célere e eficaz e para dissuadir potenciais infractores. No entanto, se a medida estiver a ter algum efeito é mesmo só pelo anúncio, já que nunca chegou a ser implementada. Desde 1 de Janeiro que se esperava que a máquina fiscal estivesse a processar as infracções e a cobrar coimas, mas o sistema ainda não está operacional.

Outra causa apontada para a redução do tráfego foi o ajustamento da oferta, que levou à redução de serviços em praticamente todas as empresas. Neste ponto, nada mudou, mas há casos em que as transportadoras souberam reagir. A CP, por exemplo, mudou a estratégia comercial, aumentando o fretamento de comboios para eventos ou fazendo descontos para as compras antecipadas, por exemplo.

Prejuízos de 195 milhões no semestre
A redução das quedas na procura teve impactos positivos nas receitas do sector. Cinco das empresas (a Metro do Porto não disponibilizou dados) registaram proveitos de tráfego, excluindo indemnizações compensatórias, de 265,2 milhões de euros, o que significou uma subida de 4% face aos primeiros seis meses de 2013. Já os custos caíram 7,2% para 306,1 milhões. Ainda assim, a operação manteve-se deficitária em quase todas elas, à excepção da Carris, que apresentou um resultado positivo de 1,2 milhões no semestre.

O Governo tinha acordado com a troika o reequilíbrio das contas do sector, nomeadamente um resultado operacional positivo a partir de 2012. Estes dados não permitem, no entanto, perceber se a promessa está a ser cumprida, visto que, no compromisso firmado com os credores internacionais, há custos que são expurgados do resultado final, como é o caso dos valores pagos em indemnizações.

Em termos de resultado líquido (para o qual não há dados da Metro do Porto e da Transtejo), os prejuízos agravaram-se 15,7% entre Janeiro e Junho, com as perdas a fixarem-se em 194,9 milhões de euros. Um valor que compara com 166,1 milhões do ano passado. Foi a STCP que penalizou as contas, por causa do impacto negativo dos derivados de cobertura de risco (conhecidos por swaps). A transportadora passou de um lucro de 1,2 milhões no primeiro semestre de 2013 para perdas de 30,8 milhões nos primeiros seis meses deste ano.