Crónica Urbana

Mira Douro II

Do miradouro da Capela de Santa Catarina o Douro já quase não é rio. É já o mar que se adivinha

Quando disse ao taxista para onde queria ir ele não pareceu hesitante, mas assim que lhe descrevi a localização — um ponto alto, com vista sobre o rio Douro — ele achou que podia estar a pensar noutra capela e achou melhor introduzir a morada que lhe indicara no GPS, para não se perder. Foi uma boa decisão. Ainda não tínhamos chegado ao destino e já ele admitia: “Olhe que eu sou do Porto e nunca ouvi falar deste sítio.”

Eu também não conhecia a Capela de Santa Catarina e da Senhora dos Anjos, em Lordelo do Ouro, embora ela figure, amiúde, na lista dos miradouros da cidade. Foi um amigo que me aconselhou a passar por lá, com a indicação que o acesso podia não ser muito claro, que era preciso seguir pela Rua das Condominhas. 

Há seis anos, um vereador da oposição lamentava o estado de degradação em que se encontrava o Largo de Santa Catarina, onde está situada a capela, bem como a falta de indicações para se conseguir aceder aquele miradouro da cidade. Hoje, o largo está impecavelmente renovado e no início da Rua de Luís Cruz há uma placa que indica o miradouro. Ainda assim, chegar lá cima não é preto no branco. Mais à frente há uma bifurcação e seguimos pelo lado errado (a esquerda), antes de conseguirmos chegar ao destino.

No largo está um único veículo, de onde saltam duas mulheres para se debruçarem sobre o muro que esconde parcialmente a vista. Uma delas solta palavras de espanto, perante o estuário do rio Douro, que se abre ali à frente. Está sol, céu limpo e uma brisa leve que sabe bem. O olhar é irremediavelmente apanhado pelo Douro, mas até lá baixo, até à Rua do Ouro e ao rio, há outras coisas para ver. 

Depois do muro está um quintal, com um castanheiro, um limoeiro e outras árvores. Uma galinha passa a correr enquanto um grupo de gansos se passeia, bamboleante e lento. À direita há uma casa grande, com uma bandeira portuguesa a oscilar sobre a entrada e uma piscina de águas claras a espreitar num canto. Ao lado, outro quintal com carreiros de diferentes vegetais e, no socalco seguinte, as instalações da manutenção militar, que escondem a rua, mas deixam ver o Douro. 

E o Douro ali já quase não é rio. Um pouco mais à frente cai no mar e mistura-se com a água salgada, despedindo-se, em definitivo. Do miradouro da Capela de Santa Catarina é já o mar que se adivinha se olharmos para a direita, enquanto à esquerda, a Ponte da Arrábida emoldura a paisagem. Em frente, a Douro Marina, na Afurada, está sossegada, com algumas embarcações ancoradas.

As duas mulheres não largam o muro, entusiasmadas com as possibilidades que aqueles terrenos em socalcos, num local perdido entre bairros sociais mas, aparentemente, tão longe da cidade, podem encerrar. Com dificuldade, volto as costas ao rio e concentro-me no pequeno edifício branco, com algumas mazelas na pintura, que dois homens munidos de baldes de tinta estão a reparar. 

Sobre o telhado há três cruzes em pedra e a ladear a porta de entrada, estão duas imagens em azulejo — Santa Catarina de um lado e a Senhor dos Anjos do outro. Lá dentro, o altar é decorado em madeira branca e dourada, sob um tecto de painéis de madeira. As obras recentes ainda não deixaram que se desenrolassem os tapetes e uma escada está deitada, no chão, à espera de destino. No exterior, os pintores explicam que a Festa da Nossa Senhora dos Anjos estava a chegar, pelo que a capela tinha de ficar pronta dentro de dias.

Antes de descer, em direcção ao emaranhado de casas de Lordelo do Ouro, absorvo de novo o silêncio daquele ponto de observação em que se pode ver a cidade passar sem ser visto. Venho embora com a promessa de que, quando cruzar a marginal, lá em baixo, junto ao Douro, tenho de me lembrar de olhar para cima e procurar a capela. 

Hoje, não será tão fácil de identificar como o era, no final do século XIV, quando foi construída naquela colina que era só um monte desocupado de casas, por iniciativa dos homens do mar de Lordelo do Ouro. Ali, junto à barra, construíam-se barcos, ia-se à pesca, acautelava-se para que as embarcações deixassem o mar e entrassem no rio sem problemas. A capela devia proteger os marinheiros e ser também uma espécie de farol que guiasse a entrada no rio. Ao longo dos séculos, a capela foi alterada, cresceu, modificou-se. Mas o local onde está instalada continua o mesmo. Há sete séculos. Escondida à vista de todos.