Entrevista

“Isto é quem nós somos como família”

Autora de uma tese sobre rituais familiares, nomeadamente reuniões à mesa, a psicóloga Carla Crespo, investigadora da Universidade de Lisboa lembra que estar à mesa é também dizer “isto é o que significa ser um ‘Silva’ ou um ‘Ferreira’”.

Qual a importância das refeições em família?
É o mais comum dos rituais familiares, que cumpre importantes funções como a promoção do sentido de pertença, de sentimentos de segurança e de expressão de emoções. As reuniões familiares que incluem várias gerações, como netos, pais e avós, são momentos em que, simbolicamente, se liga o passado, o presente e o futuro e se dá continuidade à identidade única de cada família. Cada família vive este ritual de forma idiossincrática, mostrando “isto é quem nós somos como família”, e isto é o que significa ser um “Silva”, um “Ferreira”, ou um “Borges”.

É nestes momentos que a família também cumpre o seu papel de suporte emocional: as histórias trazidas do mundo exterior (por exemplo, os pais do trabalho, as crianças e adolescentes da escola) são contadas à família que comenta, tece opiniões, ensaia soluções, demonstra apoio. Para os pais é um momento importante de monitorização dos filhos.

Naturalmente, o reverso da medalha existe. As refeições, que são rituais pautados pela integração no grupo, podem ser também de exclusão; em famílias que atravessam dificuldades de cariz relacional, estes momentos podem ser de tensão e conflito. Os momentos estruturados das refeições são como “bolsas de ar” que permitem que a família se mantenha enquanto unidade, mantendo a estabilidade de que precisa para se reorganizar em períodos de maior stress.

Que dinâmicas se criam à volta da mesa?
Existem dinâmicas únicas, como, por exemplo, a questão da escolha dos lugares à mesa (quem distribuí os lugares à mesa, quem se senta perto ou longe de quem e porquê), o uso das inside jokes, piadas que só os membros da família sabem interpretar, e de nomes especiais para cada um dos elementos da família que lhe revelam - e moldam- a identidade. Estas dinâmicas desenvolvidas e repetidas ao longo do tempo permitem que a família construa uma história partilhada.

O que está a mudar neste ritual?
Um exemplo muito concreto é o decréscimo da importância da comunidade na vivência deste e de outros rituais, dando-se primazia à família mais próxima. O convívio inter-familiar, ou seja, entre famílias diferentes que já se conhecem há várias gerações, tem vindo a diminuir, sobretudo no contexto urbano.  Estas mudanças acarretam um risco, o de as famílias estarem cada vez mais “por sua conta”, não podendo beneficiar de outras fontes de apoio social. O tempo familiar tem-se tornado cada vez mais um bem escasso, e por isso, é cada vez mais valorizado e percebido como “precioso”.

Do ponto de vista dos estudos da família, a frequência e a regularidade são importantes, mas o mais relevante é o significado e o investimento afectivo com que se vivem estes momentos. Os rituais familiares, no seu conteúdo e simbolismo, não estão hoje ameaçados. As mudanças ocorrem ao nível da forma desses rituais, decorrentes da necessidade de flexibilização. As refeições preparadas com “amor e tempo” são substituídas por refeições mais práticas, confeccionadas em casa de modo mais simples e rápido ou recorrendo aos take-aways e a almoços e jantares fora de casa em famílias que os podem custear. O significado das refeições pode permanecer e é precisamente esse significado que traz benefícios às famílias como um todo e a cada um dos seus elementos individualmente.

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