A gaffe de Obama na busca de uma estratégia contra o Estado Islâmico

Para 54% dos americanos, o seu Presidente não é “suficientemente duro” em questões de política exterior e segurança nacional, mesmo depois de mandar bombardear o grupo jihadista no Iraque.

Obama quer envolver outros países do Médio Oriente na luta contra os jihadistas
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Obama quer envolver outros países do Médio Oriente na luta contra os jihadistas Saul LOEB/AFP

O Presidente Barack Obama cometeu uma gaffe, ao reconhecer que os Estados Unidos ainda não têm ainda uma estratégia para combater o Estado Islâmico. Esta afirmação confirmou as suspeitas da maioria dos americanos de que não é um líder suficientemente forte.

“Continuaremos a apoiar a oposição moderada [na Síria], pois temos de oferecer ao povo sírio uma alternativa ao Presidente Assad ou ao Estado Islâmico”, afirmou o Presidente dos Estados Unidos, numa conferência de imprensa na Casa Branca, na noite de quinta-feira. “Mas não quero pôr a carroça à frente dos bois. Ainda não temos uma estratégia.”

Enquanto o grupo jihadista divulgada mais um vídeo com uma decapitação, desta feita de um soldado curdo no Iraque, exigindo que os dirigentes do Curdistão deixem de os combater, com o auxílio americano, Obama reconhecia que os EUA ainda não têm uma estratégia para combater este grupo jihadista que controla uma vasta área na Síria e no Iraque e ao qual na semana passada chamou “um cancro” que é preciso eliminar.

O que prometeu é que não será uma operação unilateral. “Vamos trabalhar política e diplomaticamente com outros países da região. E vamos formar uma coligação para uma estratégia de longo prazo, logo que consigamos juntar os componentes militares, políticos e económicos dessa estratégia”, assegurou o Presidente.

A Casa Branca enfatizou que o que o Presidente quis dizer é que ainda não há decisões sobre como aumentar a acção militar contra os jihadistas na guerra da Síria que se derramou para o Iraque, e não que não exista uma estratégia em sentido mais amplo. “Mas o estrago já estava feito”, sublinhou o analista político Aaron Blake, do jornal The Washington Post.  

“As piores gaffes são as que confirmam as suspeições pré-existentes, ou que se encaixam numa narrativa fácil. É por isso que que ‘não temos uma estratégia’ é dão danosa para Obama”, explica Blake. “As sondagens têm mostrado que os norte-americanos vêem cada vez mais o Presidente como um comandante-em-chefe fraco, que não é capaz de dar peso ou direcção à sua política exterior.”

Líder fraco

No último estudo de opinião Pew, divulgado pouco antes destas declarações de Obama, 54% dos americanos considerava que o seu Presidente não era “suficientemente duro” em questões de política exterior e segurança nacional – mesmo depois de ter mandado bombardear áreas no Iraque controladas pelo Estado Islâmico, e de haver pouca apetência no país por uma nova intervenção militar dos EUA.

Políticos da oposição aproveitaram as palavras de Obama para o atacar. O speaker da Câmara dos Representantes, John Boehner, afirmou que “o facto de o Presidente ter admitido que não tem uma estratégia devia assustar todos os americanos.” O líder da minoria republicana no Senado, Mitch McConnell, disse por sua vez que Obama tem “de usar toda a sua autoridade para atacar esta força inimiga”.

Por ora, no entanto, ainda não é claro quais os países que poderão participar na ampla coligação internacional desejada por Obama – que estará marcada pela memória da invasão do Iraque pelos EUA, em 2003, sob o pretexto de que o país então governado por Saddam Hussein teria armas de destruição maciça, algo que não se veio a confirmar.

Obama pediu ao seu secretário da Defesa opções para confrontar o Estado Islâmico e vai enviar o seu secretário de Estado, John Kerry, num périplo pelo Médio Oriente para tentar criar uma coligação contra este grupo jihadista. Mas há muitas divergências entre os países do Golfo que parecem insanáveis – juntar a Arábia Saudita e o Irão, por exemplo, é uma divisão clássica. Mas também há uma crise diplomática aberta há seis meses entre o Qatar, de um lado, e a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein, de outro. Estes países acusam o Qatar de desestabilizar a região ao apoiar o movimento islamista e a Irmandade Muçulmana.

Outra dificuldade para Obama será encontrar forma de justificar perante um Congresso hostil uma acção militar na Síria, quando no ano passado resolveu que não atacaria o regime de Bashar Al-Assad sem ter luz verde do ramo legislativo, mesmo depois de sido dado como provado o Presidente sírio usou armas químicas contra o seu próprio povo.