Marilyn Monroe, uma tragédia galopante

Como irá Andrew Dominik sair-se na tarefa de adaptar Blonde, um romance psicológico sobre a figura de Marilyn Monroe? Joyce Carol Oates já leu o argumento: "É excelente."

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Norma Jean, ou Marilyn Monroe antes de ser loira: assim a vê Joyce Carol Oates sempre que pensa nela

“Li o argumento, que é excelente, mas não tenho de estar envolvida”, disse a escritora Joyce Carol Oates ao Ípsilon no momento em arrancavam as filmagens de Blonde, a adaptação ao cinema do seu romance com o mesmo nome sobre a vida de Marilyn Monroe. Publicado em 2000, o livro tornou-se um dos mais celebrados da carreira da escritora natural do estado de Nova Iorque, onde nasceu em 1938, e que muitos lêem como uma biografia. Não é. Ou não enquanto reprodução factual do que foi Norma Jean e seria Marilyn Monroe.

É romance, não se tem cansado de dizer a autora, que partiu para o livro com a intenção de fazer uma novela, pouco mais do que um conto extenso, mas que acabou por atingir as 700 páginas, cruzando os métodos da ficção com os da pesquisa jornalística para fazer o que chamou de “épico americano”. Foi assim que Joyce Carol Oates falou do livro, numa conversa onde começou por dizer, como salvaguarda para o que viesse, que é um romance muito especial. "Na minha imaginação é um épico americano, muito mais do que um romance sobre uma vida, e sobre ‘Marilyn Monroe’, a trágica personificação dessa vida. Quase uma espécie de sacrifício para um mercado de massas em que as mulheres fossem associadas a algo de desejável e de vendável. Ou seja, em que fossem ‘loiras’, no sentido pejorativo do termo”, precisa.

Adaptado pelo australiano Andrew Dominik, que também assina a realização, Blonde, o filme, tem à partida uma tarefa difícil, a de passar com eficácia o lado mais íntimo e perturbador do carácter de Marylin Monroe. A complexidade da personagem, na sua tragédia galopante, conseguida através de recursos poéticos e de uma linguagem que muitas vezes toca o delírio, é um dos trunfos do livro de Oates. Mas Dominik já conseguiu arrancar um “excelente” à autora com o guião, um benefício de que terá de saber tirar partido – como já tirou do nome de Brad Pitt. O actor será um dos produtores de Blonde, com Dede Gardner, com quem esteve na produção de 12 Anos Escravo, e terá sido argumento para convencer Jessica Chastain a ser o rosto de Marilyn. A actriz australiana entrou em O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford, filme de 2007, também de Andrew Dominik, com Brad Pitt – outra adaptação de um livro, nesse caso de Ron Hansen. Antes de Chastain, Dominik dava como certa Naomi Watts para interpretar Marilyn. Mas o arrastar do projecto, que já está a ser pensado há pelo mesmo sete anos, inviabilizou a escolha.

A guerra era um sonho

Narrado na primeira pessoa, o livro explora o que a autora chamou de “realismo psicológico: trata de alguém que olha para o que foi, e que tem conhecimento do seu destino a partir do momento em que conta o início da sua existência. Não há surrealismo, nem recurso ao fantástico. O resultado é um retrato íntimo que pretende ser metáfora de um tempo: "A não ser porque as pessoas morriam e eram feridas e o mundo se enchia de lixo e fumo, Norma Jean gostava da guerra. A guerra era tão estável e estava sempre presente. Podia-se falar da guerra com qualquer desconhecido. A guerra era um sonho sonhado por toda a gente. Nunca se estava só durante a guerra. A partir de sete de Dezembro de 1941, dia em que os japoneses bombardearam Pearl Harbor, não haveria solidão durante anos e anos.”

Norma Jean é uma personagem complexa, íntima, calcula um caminho para chegar a um êxito que sonhou, e está ciente da factura. Como o leitor, sabe o desfecho que irá apropriar-se de Marilyn Monroe, o mito.

Entre as muitas imagens de Marilyn que consultou para construir esta sua Marilyn, Joyce Carol Oates refere uma, a de Norma Jean, uma rapariga morena, com 17 anos, sem a sensualidade que viria a ter; bonita, sem ser uma beldade. Quando pensa em Marilyn, é essa a imagem que gosta de ter, a de Norma Jean, morena. “Não pensei em Norma Jean como um caso isolado, idiossincrático, que não tivesse outro significado a não ser ela própria, um espécime único sem pertencer a uma espécie; acabei por vê-la como uma figura universal”, disse numa entrevista a Greg Johnson publicada no livro A Fé de um Escritor. Nessa entrevista diz ainda não recomendar a “ninguém que se abalance a escrever um romance psicologicamente realista acerca de uma figura ‘histórica’ que se diz ter cometido suicídio": "É pura e simplesmente demasiado… doloroso.”  

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