Entrevista

Em bom brasuguês

Cícero, Wado e Momo andam a mudar a música brasileira. O que é que acontece quando se lhes juntam um compositor e um produtor portugueses e uma banda liderada por Bernardo Barata? Dá-se outra bossa nesse caldo. Bem-vindos a O Clube.

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O que um oceano faz a uma língua: atravessando o Atlântico, hospedeira de bordo passa a ser aeromoça; rebuçado torna-se bala; telemóvel devém celular; o comboio – em particular o das 11 horas – encurta para trem, o descapotável converte-se em conversível. Quanto ao frigorífico, esse faz uma mudança de sexo e acaba em geladeira.

Como será o gluglu dos peixinhos a nadar nesse grande mar atlântico? Talvez em brasuguês, quem sabe se em portusileiro. Há um clube que se dedica a estes estudos: não são biólogos marinhos nem linguistas, mas afundam nas culturas alheias e emergem para lançar discos que sobrevoam por cima dessa massa de azul e quando chegam ao país-irmão já não são carne nem peixe, antes um hermoso hermafrodita. Apropriadamente, chamam-se O Clube. São constituídos por quatro compositores, três brasileiros – Cícero, Wado e Momo – e um português, Diego Armés; o resto da equipa é portuguesa, do produtor, Fred, baterista dos Buraka Som Sistema, membro dos Orelha Negra e da Banda do Mar, à banda-suporte, liderada por Bernardo Barata, o ex-baixista dos Feromona (grupo do qual Armés era o guitarrista e vocalista) que actualmente integra a máquina de triturar géneros que são os Diabo na Cruz. 

O Clube fez um disco homónimo que não é nem daqui nem de lá. Cícero, Wado e Momo trouxeram canções que já haviam editado, a que a banda deu novos arranjos. Armés trouxe duas novas e a banda refez uma terceira, Canção sentimental. Não é uma miscigenação completa porque não houve composições partilhadas, mas aconteceu este compositor pôr uma guitarra na canção de um outro, ou alguém dar uma perninha a cantar no tema de um terceiro.

Wado é o mais velho de todos, com “sete discos lançados”, o último dos quais, Vazio Tropical, do ano passado, produzido por Marcelo Camelo e por Fred. “Eu já conhecia Buraka [Som Sistema], e um dia o Fred apareceu no Skype, ao lado do Camelo. Quieto e simpático. Minha relação com Portugal comeca aí."

“O Clube é um sonho do Fred. Só aconteceu pelo seu talento e obstinação”, continua. Foi Fred quem “inventou” o concerto que Cícero, Wado e Momo deram no ano passado no festival Vodafone Mexefest, já depois de co-produzir Vazio Tropical. Esse encontro é o momento seminal deste “disco doido”, como Wado lhe chama.

Ou, se calhar, o momento seminal é outro. Para Momo, “O Clube nasceu até antes do concerto no Mexefest. É filho do Vazio Tropical”. Na altura, Wado chamou Momo para as gravações, ainda no Brasil, onde este encontrou Cícero. “O Wado conheço há mais de 15 anos. Tivemos uma banda juntos, o Fino Colectivo. A gente sempre foi parceiro, fazemos música juntos. O Cícero, começou aí minha amizade com ele." Ainda por cima, “Marcelo Camelo coincidia nesses dias de estúdio”. Depois, Marcelo levou Vazio Tropical para Portugal, para concluir o disco em Lisboa com Fred. Pelo que, no fundo, tudo começa com a amizade entre Fred e Marcelo Camelo, que também dá origem à Banda do Mar. Marcelo apresentou Fred a Wado, que por sua vez trouxe Momo, que assim conheceu Cícero e Marcelo. E ali no meio surgiu O Clube.

Quando se deu o concerto no Mexefest em que Momo, Wado e Cícero dividiam o palco em alguns momentos, “já Fred dera a ideia de a gente gravar esse disco”, recorda Momo. Henrique Amaro e Fred conversaram entre si: era perfeito aproveitar os dias do Mexefest para esse efeito. Mas, conta Momo, “eles queriam um compositor português para dar mais uma bossa nesse caldo, para o intercâmbio acontecer de forma mais firme". E aí entra Armés, que Amaro e Fred consideraram a pessoa ideal, e que seria aprovado pelos compositores brasileiros depois de ouvirem as suas composições. Quando Fred ligou a Armés a convidá-lo para O Clube, este não queria acreditar. “Acho que nem sequer lhe tinha dado o meu número e a conversa ao telefone foi caótica: fiz uma série de perguntas, quase parecia que estava a interrogá-lo”.

Intromissões

Fizeram “tudo em dez dias”, num “trabalho que levou mais de oito horas por dia”, recorda Wado. “Foi como vomitar." Para Wado, “foram dias maravilhosos”: novos amigos, gente que se admirava reunida num estúdio e uma forma relaxada de trabalhar. “Tinha um restaurante, de um amigo do Fred, chamado Rubens – a gente ia lá todos os dias. Ensaiava, gravava, almoçava, sempre tinha um senhorzinho mais velho que contava uma piada, uma história. Maravilha."

Os brasileiros “estiveram pouco tempo em Portugal”, conta Diego, “pelo que tinham de deixar tudo pronto depressa”. Ele teve “um pouco mais de tempo". "Mas se formos a contar as horas todas em estúdio, não terei estado mais do que três dias lá dentro. Foi tudo muito rápido." Tão rápido que chega a ser um espanto “como o resultado final soa tão homogéneo, tão bem feito”, confessa Armés. O segredo dessa unidade, admitem todos, residiu “na condução”. “O disco foi conduzido pelo Fred e pelo Bernardo, e como aquilo é uma fotografia desses dias acaba por haver um diálogo entre todos. É um disco muito bem balanceado”, reflecte Momo, no que é acompanhado por Wado: “Acredito que o Bernardo Barata é que moldou tudo, junto com o Fred. É um disco bonito por ser minimalista."

Momo não sentiu grandes diferenças entre a composição de Armés e a dos seus congéneres brasileiros: “Já conhecia as canções deles todos, do Diego, das bandas do Bernardo...". Wado, sim, estranhou: “O Diego tem uma lógica de compor do avesso: as conclusões, a abordagem, o tema, tudo é lindamente alienígena." E Diego também notou que havia abordagens diferentes: “Eles ficavam um pouco surpreendidos com a forma como nós abordávamos a música em termos rítmicos. Nós somos mais quadrados; onde vemos quatro tempos certinhos eles encontram 16 cheios de adornos."

O Clube não chega à partilha total que, digamos, Caetano e Gilberto alcançaram em Tropicália 2, em que havia composições partilhadas e um escrevia cantigas para as letras do outro, mas tem sucesso em estabelecer as fundações de uma ponte que merece ser alimentada: o simples facto de haver uma banda residente de músicos portugueses transforma as canções dos brasileiros e encontra os pontos comuns entre várias linguagens diferentes. “Por mais que alguns arranjos já existissem”, explica Wado, “o Bernardo mudou montes de vocais, pôs guitarras diferentes. Eu adorei ouvir minhas músicas serem repensadas por músicos portugueses." E agora o vice-versa: “Como a banda já estava a trabalhar no som deles, eu deixei-me levar um pouco”, conta Diego, que acha que o seus temas “ganham outro brilho com os arranjos”.

Depois houve as intromissões, mesmo de gente que não estava combinado aparecer: “O Marcelo Camelo passou lá no estúdio, ouviu uma das minhas canções e perguntou se podia fazer um arranjo. Tocou guitarra sobre essa música e nós começámos a gravar a partir da base dele. E ficou”, conta Diego. Wado canta numa canção de Diego e houve mais umas trocas de bola deste género duante as gravações.

Aquela coisa do encontro

O Clube celebra a amizade, a melodia, a delicadeza e o minimalismo. Os últimos são os traços mais proeminentes destes temas. Mas também apresenta uma geração de músicos brasileiros a Portugal e é pertinente pensar nesta rapaziada como um clube que discreta e pacatamente vem alterando a canção brasileira. “Você fala em delicadeza”, diz Momo, “mas o que une todos é o amor pela canção. Agora, você tem razão numa coisa: há na nossa geração aquela coisa do encontro que havia na bossa e a liberdade do tropicalismo."

Confirmamos: estes brasileiros são muito diferentes entre si. Momo mora “no Nordeste do Brasil”, de onde é originário, e é “bastante filho da musica brasileira, dos sambas e dos ijexás”. Gosta de axê e de Ivette Sangalo, dá importância ao groove. Wado cresceu em África, passou pela Europa, vive nos EUA e a sua música reflecte-o. Cícero, autor de dois discos (Canções de Apartamento, de 2011, e Sábado, de 2013), é uma das grandes revelações da música brasileira desta década. E depois há Marcelo e Mallu, talvez os mais conhecidos de todos. Traçando o rasto às amizades: Marcelo é amigo de Wado há dez anos; Momo é amigo de Wado há 15; Cícero é amigo de Marcelo há muito, mas entretanto já trabalhou com Wado. Uns já trabalharam com os outros e Fred é amigo e já trabalhou com todos. E Diego? Diego tem em mãos uma proposta de fazer um disco como este.

Pode pegar-se em Marcelo, Mallu, Wado, Cícero e Momo e falar-se numa geração? Momo tem a mais completa resposta: “Talvez este seja dos momentos mais ricos em quantidade e qualidade de artistas no Brasil. Nos anos 80, os artistas do pop-rock brasileiro não podiam gravar sem editoras grandes por trás. A queda da indústria e a tecnologia da gravação em casa permitiram montar estúdios caseiros, divulgar na Internet, e isso trouxe a liberdade de fazer música sem precisar estar atrelado. É um dos motivos pelos quais a música brasileira está se reinventando." Dá o exemplo de Wado: “O primeiro disco dele, no final dos anos 90, já era uma coisa completamente inventiva, fora do padrão pasteurizado. A revolução fez com que a música fosse mais além dessa coisa mercadológica. Então esses encontros são mais genuínos, no quesito de ter realmente interesse por trocar uma música, por estabelecer uma estética. Isso é o pilar, a tónica do encontro: a admiração que um tem pelo trabalho do outro. Existe realmente um respeito pelo trabalho uns dos outros. Isso é que uniu O Clube."

Curiosamente, as primeiras reacções vieram do Brasil. “Não estava à espera”, diz Armés, “até porque lá eles já são conhecidos e só eu sou novidade. Aqui conhecem o Cícero, mas não o Wado ou o Momo. Mas isso prova que no Brasil há interesse pelo que fazemos cá."

Um dos membros de O Clube disse que o melhor de tudo neste processo foi “rolar uma amizade bacana entre todos”. Outro disse que para ele “isto é toda uma outra bossa”. Quem disse o quê? Pouco importa. Misturámos tudo, como eles.