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A teoria do medo

O medo é uma espécie de “post-it” colado na testa que alguém nos lê de cada vez que se cruza connosco, de forma a não esquecermos o que lá está escrito: medo

Os tempos modernos são cruéis. Cheios de coisas novas e perigos, muitos perigos, ao virar de cada esquina. Mesmo o que parece ser um avanço, algo que facilite a vida dos comuns mortais, tem um constante lado negro que ameaça a vivência de cada um.

Seja um qualquer “meet” ultra moderno de objectivo tão moral como juntar os jovens que terá de descambar em confrontos de grupos rivais. Para não mencionar um universo de maldades que daí podem advir, quando na verdade se procura a troca de experiências entre jovens que curiosamente cada vez mais procuram a impessoalidade de todos os seus actos. Não faz sentido.

Seja uma simples viagem de avião, onde alguns regressam a casa para as suas famílias depois de umas férias, atingido por um míssil da guerra que nada tem a ver com aquelas pessoas. O mesmo conflito de poder, de terra, de espaço, automaticamente criador de instabilidade local e mundial. E mais uma forma de lançar o pânico sem que nada seja possível fazer contra todos os “lobbies” da guerra.

Há também o terrorismo que faz uso das possibilidades de comunicação actuais, da informação que chega rápido, do recrutamento dos mártires e seguidores através das modernas redes sociais. E juntam-lhes os mais irracionais e bárbaros actos de execução, escolhendo civis inocentes que nada fizeram para colocar em causa tal ideologia, a não ser existirem enquanto alvos fáceis.

Já a medicina avança, a ciência descobre os caminhos e as soluções para muitas das ameaças à saúde humana. Mas na mesma proporção crescem as ofensivas das doenças, as epidemias, os surtos, os mais improváveis cenários. O que acaba por ser também um negócio rentável em vacinas e medicamentos e muitas vezes vantajoso todo o alarido provocado pela comunicação social. Nunca estivemos tão perto das curas, mas desconhecemos a realidade chocante do que está na porta ao lado. E que muitas vezes serve para transformar numa brincadeira que envolve baldes e água gelada que mais não é do que auto-promoção para alguns.

Os tempos modernos são simultaneamente virtuosos e sinuosos. Antigamente, as crianças brincavam na rua, saíam de casa de manhã e chegavam à noite todas sujas e transpiradas de brincarem ao que mais lhes apetecesse. Sem os perigos dos assaltos, dos predadores sexuais, dos raptos, das drogas, de tudo e mais alguma coisa. Hoje vivemos lado a lado com o medo, desconfiados no mínimo passo dado.

É impossível a mais pequena tarefa sem o medo paralisante próprio do estado actual do mundo. O medo que uma doença chegue sem avisar e afecte um dos nossos filhos ou familiar próximo. O medo de estar à hora errada no sítio errado. O medo de ficar sem emprego e forma de sustento para a família. O medo de ver todas as poupanças de uma vida voarem às mãos de um gestor ou político menos sério, se é que os existem sérios. O medo é uma espécie de “post-it” colado na testa que alguém nos lê de cada vez que se cruza connosco, de forma a não esquecermos o que lá está escrito: medo.