Opinião

A fronda

A austeridade já não mata só governos. Daqui a uns tempos poderá matar regimes.

Não é todos os dias que estão de acordo o jornal francês Libération, fundado por Jean-Paul Sartre na sua fase pró-maoísta, e o Le Figaro, porta-estandarte da direita conservadora. Estiveram ontem. Nas suas capas de ontem, o título era o mesmo: crise de regime.

Talvez tenham mais razão do que pensam.

Abrindo as páginas dos jornais, lemos sobre uma crise governativa, motivada pela demissão de dois ministros socialistas e a não-recondução de uma terceira, e a constituição de um novo governo dirigido pelo primeiro-ministro Manuel Valls. Vemos fotografias do presidente François Hollande com os óculos cheios de chuva, enfiado numa cerimónia numa ilha bretã enquanto a sua maioria soçobra em Paris. Na Assembleia Nacional, os deputados rebeldes socialistas chamados de “frondeurs” exigem uma viragem expansionista da política económica. E o mais conhecido dos ministros recalcitrantes, Arnaud Montebourg, põe o dedo na ferida: “não temos de viver em acordo com as taras económicas da direita alemã”.

Enquanto o segundo governo de Manuel Valls é anunciado, isto não é ainda uma crise de regime, muito menos uma fronda daquelas que no século XVII levava a guerra em intinerância pelos campos e castelos de França. Mas o que está por detrás, sim. Basta uma dissolução do parlamento para que François Hollande tenha de governar em coabitação com a direita. Só a fraqueza relativa desta, e a sua vontade de esperar, fazem com que não haja novas eleições. Para já, veremos como corre o voto de confiança que o velho-e-novo primeiro-ministro decidiu pedir ao parlamento. Em pano de fundo, fala-se de acabar com a Vª República, que conta já com 55 anos, e voltar a um sistema parlamentar de governo como o que dominou a França na IIIª República, que durou 70 anos. Ora, qualquer mexida arrisca-se a deixar a extrema-direita da Frente Nacional com uma centena de deputados na Assembleia Nacional.

E, aí sim, teremos uma crise de regime.

O que se passa na Europa é por demais evidente: as economias não estão a crescer. Nem as da periferia, nem as do centro. Nem as endividadas, nem as superavitárias. A Alemanha entrou em recessão neste trimestre, e daqui até ao fim do ano as coisas só vão piorar no Leste da Europa. E, no entanto, os governos insistem na austeridade. Pior: como no caso de Hollande e Valls, os governos blindam-se contra a crítica à austeridade.

Vive-se um triste estado de coisas neste continente quando a luta contra a austeridade passa, em primeira linha, pela demissão apressada de um ministro de segunda linha. Isto deveria ser uma luta para chefes de estado e de governo. Mas, em França, Hollande foi uma desilusão até para quem nunca esteve iludido. Na Itália, Matteo Renzi aceita os termos da discussão e tenta redefinir-lhes o sentido. E, na Alemanha, com um regime mais bipartidário do que nunca, e os dois grandes partidos dentro do governo, Merkel pode dar-se ao luxo de não mexer grande coisa. No Conselho Europeu nenhum chefe de governo lhe faz frente. Em casa, não tem aquilo que vai atormentar os seus congéneres nos próximos anos: já não eleições perdidas, mas se isto continuar assim, frondas a sério.

Por isso o Libération e o Le Figaro têm ambos razão. A austeridade já não mata só governos. Daqui a uns tempos poderá matar regimes.