Torne-se perito

Em Veneza o presente olha para os perdidos & achados dos 70s

Abre com Birdman, de Iñarritu, encerra com The Golden Era, de Ann Hui. Entre um e outro, a competição e homenagens a Bogdanovich, Arthur Penn e Robert Altman, os 70s.

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Robert Altman (1925-2006) dizia que fazer filmes era construir “castelos na areia”
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Arthur Penn (1922-2010) foi um dos responsáveis pela releitura da mitologia americana do outlaw feita à luz da contra-cultura americana dos 60s e 70s e do fascínio pela nouvelle vague – revolução que se chamou "Bonnie e Clyde" (1967).
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Martin Scorsese e Thelma Schoonmaker na montagem de "Woodstock", documentário de Michael Wadleigh,
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"Birdman", de Alejandro González Iñarritu: filme de abertura e em competição
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Tahar Rahim no novo filme de Fatih Akin, "In the Cut", aventura épica de um homem pelo genocídeo arménio
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Willem Dafoe no "Pasolini" de Abel Ferrara
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Manglehorn, de David Gordon Green, com Al Pacino
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Larry Clark descobrindo uma nova "cena" de skaterborarders, agora em Paris: "The Smell of us"
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A encerrar o festival, "The Golden Era", de Ann Hui: a biografia de uma das mais importantes escritoras da China e uma figura dos 1930s chineses, Xiao Hong

Não é só com Peter Bogdanovich – e o seu novo filme, She’s so Funny, e o documentário One Day Since Yesterday: Peter Bogdanovich & The Lost American Film, de Bill Teck, sobre a sua carreira e sobre o malogrado They All Laughed (1981) – que a 71ª edição do Festival de Veneza convida a um perdidos & achados dos 70s.

Na mesma secção em que passa o documentário sobre Bogdanovich, Venice Classics, homenageiam-se Arthur Penn e Robert Altman, outros protagonistas de um dos momentos mais inquietos do mainstream cinematográfico americano – a Nova Hollywood.

Mise-en-scène with Arthur Penn (a conversation), de Amir Naderi, tem por base uma entrevista que o realizador de origem iraniana começou a fazer a Penn (1922-2010) em 2005 e é a base para mais de três horas de viagem pela obra de um cineasta que, depois da formação na TV durante os anos 50, amplificou, complexificou e violentou os géneros cinematográficos americanos. Por exemplo, foi um dos responsáveis pela releitura da mitologia americana do outlaw feita à luz da contra-cultura dos 1960 e dos 70s e do fascínio americano pelas práticas europeias da nouvelle vague – revolução que se chamou. evidentemente, Bonnie e Clyde (1967).

E há Altman, de Ron Mann. Utilizará o formato nunca excessivamente inventivo do bio-doc – material de arquivo, entrevistas (de Robin Williams, o seu Popeye, a Bruce Willis, Julianne Moore ou Elliot Gould, nome da “família” Altman, passando por Paul Thomas Anderson, que nos últimos anos serviu como cineasta de apoio, exigência das seguradoras para Altman filmar. Falará da obra de alguém que forçou o desgaste das convenções cinematográficas em termos do que se via e ouvia nos filmes. Altman (1925-2006) dizia que fazer filmes era construir “castelos na areia”. É verdade que os seus grandes momentos (A Noite Fez-se para Amar, de 1971, Nashville, de 1975, o mal amado Buffalo Bill e os Índios, de 1976) são dolorosas experiências sobre a erosão de uma nação. O documentário de Ron Mann foi feito com o apoio próximo da viúva do cineasta, Kathryn Reed Altman.

A que altura estará o presente em Veneza? Eis a actualidade: filme de abertura, e em competição, Birdman, de Alejandro González Iñarritu, a 27 de Agosto; filme de encerramento, a 6 de Setembro, The Golden Era, de Ann Hui, a veterana de Hong Kong que na edição de 2011 mostrou ainda delicadíssimo fôlego, com A Simple Life. O filme de Iñarritu, em que Michael Keaton interpreta uma estrela de filmes de super-heróis que tenta reanimar a sua carreira, começa a evidenciar a sua ambição de mostrar proeza: a ilusão de filme sem cortes, como se se tratasse de um único plano (como a ilusão de A Corda, de Hitchcock).

Entre Iñarritu e Hui, desenrola-se a programação. Em competição, sujeitos à apreciação de um júri presidido pelo compositor Alexandre Desplat: 3 Coeurs, de Benoît Jacquot; 99 Homes, de Ramin Bahrani; Anime Nere, de Francesco Munzi; The Cut, de Fatih Akin; Le Dernier Coup de Marteau, de Alix Delaporte; Tales, da iraniana Rakhshan Bani-E’temad; Il Giovane Favoloso, de Mario Martone; Good Kill, de Andrew Niccol; Hungry Hearts, de Saverio Costanzo; Loin des Hommes, de David Oelhoffen; Manglehorn, de David Gordon Green, com Al Pacino; Fires on the Plain, de Shinya Tsukamoto; A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence, de Roy Andersson; The Postman’s White Nights, de Andrei Konchalovsky; La Rancon de la Gloire, de Xavier Beauvois; Red Amnesia, de Wang Xiaoshuai; Sivas, de Kaan Müjdeci; o Pasolini, de Abel Ferrara (depois do Dominique Strauss-Kahn de Welcome in New York) e The Look of Silence, de Joshua Oppenheimer – que continua a experiência iniciada em The Act of Killing, filme que abria espaço aos carrascos do genocídio na Indonésia de 1965 para repetirem os gestos dos seus crimes: agora Oppenheimer abre espaço à memória e à história das vítimas.

Fora de competição, O Velho do Restelo, curta de Manoel de Oliveira, Burying the Ex, de Joe Dante, In the Basement, em que Ulrich Seidl, depois da trilogia Paraíso, entra pelos segredos das caves austríacas. Na secção Horizontes, Hong Sangsoo, Josh e Ben Safdie (Heaven Knows What, híbrido de ficção e documentário resultante do encontro no metro entre os irmãos cineastas e uma street kid).

Na secção Giornate degli Autori, os novos de Laurent Cantet (Retour a Ithaque, escrito com o romancista cubano Leonardo Padura) ou de Christophe Honoré. Em Venice Days, Larry Clark e The Smell of Us, história de um grupo de skateboarders em Paris, “cena” descoberta pelo realizador e pelo jovem argumentista Mathieu Landais, que já está a ser comparado com Harmony Korine, o argumentista e skateboarder dos tempos de Kids, filme de há 20 anos – The Smell of Us como “Kids em Paris”.

Receberão Leões de Ouro para as respectivas carreiras o documentarista Frederick Wiseman e Thelma Schoonmaker, montadora de Martin Scorsese, com quem colaborou pela primeira vez em 1967, em Who’s That Knocking at my Door, e que se manteve fiel à obra do cineasta a partir de 1980, com O Touro Enraivecido, filme que sendo de 1980 está cheio de uma pulsão autodestrutiva – é, talvez, o último de Scorsese assim – com que o cineasta fechou com estrondo a sua porta dos 70s.

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