Opinião

O triplo salto de António Costa

Ao dizer que Rio é o seu verdadeiro adversário, Costa desrespeita os eleitores do PS, os eleitores do PSD e, em última análise, o próprio processo democrático.

Em entrevista ao Expresso, António Costa afirmou que o seu verdadeiro adversário era Rui Rio. Poderia ter sido uma coisa que lhe saiu da boca para fora. Mas não foi. Há quatro perguntas sobre o tema e Costa insiste sempre na mesma tecla – é evidente que essa era uma das mensagens que queria fazer passar na entrevista, certamente para apoucar António José Seguro e, de caminho, Pedro Passos Coelho. É um erro crasso: José Sócrates já preencheu a quota do socialista arrogante para as próximas três gerações. Ninguém quer ver isso de novo em António Costa.

E, no entanto, aquela frase desastrada é um triplo salto de arrogância. Primeiro salto: Costa dá de barato que vai vencer António José Seguro nas primárias. Segundo salto: Costa dá de barato que vai vencer Pedro Passos Coelhos nas legislativas. Terceiro salto: Costa dá de barato que Rui Rio vai vencer as eleições internas para a liderança do PSD. Tanto barato pode sair-lhe caro. Dizer que Rui Rio é o seu verdadeiro adversário é um desrespeito pelos eleitores do PS, um desrespeito pelos eleitores do PSD e, em última análise, um desrespeito pelo próprio processo democrático.

Eu fiquei muito contente por ver António Costa avançar para a liderança do PS, e escrevi-o neste jornal. Votei nele para a Câmara de Lisboa, onde soube fazer compromissos e está a deixar obra, e a sua capacidade política parece-me a anos-luz da de António José Seguro. Mas se eu ainda o considero o melhor líder para o PS, e o melhor socialista disponível no mercado para chegar a primeiro-ministro, cada vez mais esta minha convicção existe apesar da sua campanha e daquilo que anda por aí a dizer. Ainda bem que António Costa já provou a sua competência – porque nestas primárias ele está a ser altamente incompetente.

Numa outra entrevista, desta vez à revista Visão, afirmou, com certa candura: “Estas primárias resultam de um truque para tentar desgastar-me”. Sem dúvida que resultam, mas as primárias só estão a desgastar António Costa porque ele está a ser obrigado a falar, e ao falar nada tem para dizer. As pessoas que por ele têm consideração intelectual, como é o meu caso, acham que ele não diz porque não quer. Só que isso ainda é pior do que não dizer porque não sabe. António Costa está convencido que consegue chegar a primeiro-ministro em 2015 apostando numa bateria de generalidades tipo “agenda para a década”, que espremidas dão coisa absolutamente nenhuma. Não há ali um pingo de novidade e as suas intenções piedosas já foram prometidas vezes sem conta por resmas de políticos, da direita à esquerda (qualificação, inovação, crescimento, coesão, nova estratégia europeia, blá, blá, blá). Sobre as malditas finanças públicas, nem uma palavra concreta. Claro que, diz Costa, é um problema que não se pode “desvalorizar”. Mas só em teoria. Na prática é desvalorizadíssimo, porque não há uma medida estrutural que a sua campanha apresente do lado da despesa.

Nesse sentido, afirmar que Rui Rio é o seu verdadeiro adversário político é apenas mais um degrau da estratégia cheque em branco: apresentem-me alguém que esteja à minha altura que depois a gente conversa. Só que se ele for com esta táctica para os debates com Seguro, talvez ganhe o PS, mas pode dizer adeus à esperança de uma maioria absoluta. O eleitorado flutuante já não passa cheques em branco a ninguém. Todos queremos uma resposta para o nosso presente. Gente que só fala do futuro é coisa do passado.