O reflexo do Brasil no festival de dança da Bahia

Na abertura do IC - Interação e Conectividade, três coreografias dialogam com a possibilidade de vivermos tempos de desaparecimento do movimento

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Pindorama Sammi Landweer
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Fole Caroline Moraes
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Buraco Renato Mangolin

Por vezes os espectáculos ganham uma camada de significados que é externa ao discurso dos próprios artistas. Quando em Junho passado Pindorama, de Lia Rodrigues, foi apresentado em Lisboa (Alkantara Festival/Culturgest) e no Porto (Serralves em Festa/Museu de Serralves), o modo como o bailarino Leonardo Nunes carregava o plástico que antes tinha servido de chicote para cinco bailarinos não era mais do que uma gestão da presença dos bailarinos em cena que decorria da sua fisicalidade.

Mas, em Salvador da Bahia, no Brasil, esse momento foi visto como um símbolo directo de uma história complexa sobre o lugar do negro, do seu corpo e da sua identidade, no interior de uma geografia corpórea e identitária complexa como é aquela que procura definir a Bahia. 

Numa cidade que na noite de quinta-feira foi ocupada por uma manifestação que lembrava os recentes assassinatos de jovens negros, lembrando o modo como nas imagens típicas da Bahia o corpo do negro é muitas vezes um corpo secundarizado, e sendo Pindorama a última parte de um tríptico sobre a identidade do Brasil (antes houve Pororoca e Piracema, ambos com apresentações em Portugal), o corpo do único bailarino negro tornou-se na imagem do escravo.


Esse jogo de espelhos permanente, que reenvia o movimento para um caudal referencial que muitas vezes escapa ao próprio coreógrafo transformou o espectáculo de abertura do IC - Interação e Conectividade numa reflexão sobre o espaço político para a construção da identidade social de um país. O que, à escala do potencial de transformação que a dança contemporânea pode oferecer, é um discurso sobre o lugar do corpo no espaço social, geográfico e emocional.


((( Fole ))) teaser from Michelle Moura on Vimeo.


Nesse sentido, Fole, de Michelle Moura (1979, Curitiba) usa o corpo para discutir o modo como o movimento que o corpo pode produzir é, muitas vezes, responsável por um anacronismo do qual se procura libertar.

Será possível pensar que a relação criada em Fole entre o corpo e o movimento, se sustenta num discurso atento à dificuldade de representação e interpretação de uma imagem unívoca. O mais interessante deste solo é o modo como Michelle Moura dialoga com os discursos de Cláudia Dias (One Woman Show, 2003), Vera Mantero (Comer o coração, 2004), Marcela Levi (In-Organic, 2007 – que se apresenta dias 6 e 7 Setembro em Lisboa, no programa Próximo Futuro), Aydin Teker (harS, 2008), Eszter Salamon (Dance for nothing, 2010) e Kaori Ito (Solos, apresentado em 2013 no Centro Cultural Vila Flor), criando mais um ponto num mapa de espectáculos – e discursos no feminino - que, nos últimos anos, pensaram no corpo como objecto e, através dele, procuraram perceber os seus limites.

O interesse principal de Fole está no modo como Michelle Moura usa a respiração e a voz para induzir um movimento (à semelhança do que acontece, por exemplo, em Um gesto que não passa de uma ameaça, de Sofia Dias e Vítor Roriz, 2011) e, a partir daquilo que são vibrações a desenhar um movimento instável, capaz de preencher o espaço como se o conquistasse. O movimento deixa, assim, de se limitar ao corpo e torna-se num elemento de ruptura e de reacção. Do mesmo modo, essa tensão auto-provocada torna-se num discurso de reorganização do próprio corpo face aos seus limites.

Fole explora, desse modo, sensações e vibrações que induzem a um estado de transe que poderia sugerir um abandono mas, na verdade, luta contra o desaparecimento do próprio movimento.



Buraco, de Elisabeth Finger (1980, Foz do Iguaçu), não anda longe desta reflexão, trazendo para o debate as percepções cognitivas numa escala ainda mais abstracta, uma vez que a coreografia é dirigida, essencialmente, a um público infantil. Apesar da dificuldade na relação entre o tempo e o movimento, o uso dos materiais é o ponto de partida para um movimento que se esconde nos plásticos, caixas, mantas e panos, explorando as implicações desse desaparecimento. Nem sempre o que é proposto consegue lidar com as consequências desse desaparecimento, não sendo claro se a fragmentação de Buraco decorre de uma estratégia de abandono do movimento e da forma ou uma dificuldade em organizar essa mesma estratégia. O que fica depois desse desaparecimento é, tal como na leitura subjectiva do corpo negro em Piracema ou na resistência ao transe em Fole, promove uma discussão sobre o palco como lugar de transformação da imagem em algo imaterial.

Crítico de teatro e dança