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Megafone

Como queijo numa ratoeira

As obras públicas em Portugal vão sempre gerar, no futuro, grande desenvolvimento, crescimento e riqueza. Teremos um final feliz de conto de fadas da Disney. A Fada Sininho não apenas sobreviverá, como poderá ir de avião de Beja até à Terra do Nunca

Em 1981, “Se Cá Nevasse”, dos Salada de Fruta, fez sucesso. É compreensível. Tem música apelativa e uma letra simples, que fica no ouvido. É difícil evitar trautear o refrão: “Se cá nevasse, fazia-se cá ski… Se cá nevasse, fazia-se cá ski… ” É daqueles que fica a tocar na nossa cabeça, recusando-se teimosamente a sair. Tem o ritmo certo e uma mensagem simples, quase tautológica. Se cá nevasse, pensamos, de facto, fazia-se cá ski.

Ouvimos ecos deste clássico no debate mediático acerca do crescimento económico. Personalidades várias apresentam-se ao grande público, com ar douto, afirmando a importância do crescimento económico. O que nós precisamos é que a economia cresça. Se a economia crescesse, estaria tudo bem. Se cá houvesse crescimento, fazia-se cá tudo. E eu, qual Dupont ou Dupond, diria mesmo mais: se cá nevasse, fazia-se cá ski.

A dada altura, em Peter Pan, de J.M. Barrie, a fada Sininho bebe veneno e parece condenada. Mas se todos nós acreditarmos, então a fada Sininho não morre. Se todos nós dissermos “I do believe in fairies” e batermos palmas, a fada Sininho sobrevive, e pode continuar a ajudar Peter Pan e os seus companheiros. Basta acreditar e o que parecia inevitável deixa de o ser. Por nossa vontade, faz-se magia.

Grandes figuras surgem-nos amiúde a dizer, com cara séria, que o que é preciso é vontade política. De punho erguido, lágrima no canto do olho e música épica implícita, essas grandes figuras garantem-nos que têm vontade política. Garantem-nos que se também nós tivermos vontade política, o que parecia inevitável deixa de o ser. Por nossa vontade, faz-se magia. E a Fada Sininho sobrevive. E a nossa economia renasce. E começa a nevar, para podermos fazer ski.

No final do século XIX, Luís II da Baviera, o Rei de Conto de Fadas, alheou-se de matérias de Estado e dedicou-se a mandar construir magníficos e opulentos palácios, verdadeiras obras-primas da arquitectura. Arruinou-se a si e à sua família, acumulando dívidas sobre dívidas. Hoje, mais de um século depois, os palácios são uma importante atracção turística, e mantém-se a reverência pelo seu esplendor arquitectónico.

As obras públicas em Portugal vão sempre gerar, no futuro, grande desenvolvimento, crescimento e riqueza. Eminentes personalidades asseguram-nos de que têm diversos estudos que apontam que choverá néctar e todos terão ambrósia se construirmos aquela auto-estrada. Munificentes vultos asseveram-nos que, no futuro, poderemos pagar, porque estaremos necessariamente mais ricos. Teremos um final feliz de conto de fadas da Disney. A Fada Sininho não apenas sobreviverá, como poderá ir de avião de Beja até à Terra do Nunca. E as pistas de ski serão as mais sumptuosas entre os países da OCDE.

Estas três ideias são traves-mestras de toda uma escola de política económica mediática em Portugal. São os princípios de quem promete muito pão e vinho. De quem fala como se fosse formado em falar demais. São como queijo numa ratoeira. Como Lena d’Água também canta.

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