Opinião

Criação, política cultural e a comunidade que aí está

Com esta governação assistimos a um reforço do arcaico centralismo, por um lado, e pior, uma total determinação dos aspectos diversos da governação pelo financeiro.

Uma política cultural não é uma política criativa. Esta beneficia da implementação daquela como produção de formas de estímulo situando-se sempre a jusante e montante do seu epicentro, já que, a política cultural, invenção europeia do pós-guerra, resultado das democracias emergentes e das lógicas de reconstrução (como agora na crise/destruição seriam necessárias) é uma política alternativa – cria a possibilidade de existência de comunidades autónomas de criação e fruição – à do mercado e puro fermento, ambiente propício à emergência do que é criativo.

O mercado, sendo o espectáculo absoluto e constante das mercadorias como um ar publicitário que se respira, mescla-se inevitavelmente com o que seja uma criação, resultado dessa política cultural, enquanto o mercado for - tal como é - a forma dominante das relações sociais: criando indistinção, homogeneidade, formas siamesas, onde existe combate pela distinção e singularidade, tornando consumível de modo relâmpago e descartável o que deve ser fruído com tempo e processo, introduzindo um tempo que não é nem vivencial nem reflexivo mas mecânico, determinado por regras de outra esfera que são as da oferta e da procura – nesta totalidade que nos tolhe e tem, o objecto/mercadoria é feito de aspectos fetichistas de sedução que atraem na relação compra/venda, produzindo um brilho fulgurante que logo se extingue e criando condições ao sucesso da próxima mercadoria. O que nada tem a ver com um objecto artístico, que é único, exige um tempo de fruir sem tempo predeterminado, mesmo aquele que se frua sob uma forma regular – é interessante pensar no texto de Althusser (em Pour Marx) acerca de El Nost Milan de Bertolazzi/Strehler e na reflexão que faz sobre o modo como o espectáculo perdurou na sua memória, acendendo a espaços novos modos de ver o que tinha visto e pensamentos diversos do reagir apenas ao que tinha fruído como espectador. Um objecto artístico terá uma relação com o seu tempo tendendo para uma presença que o transcende, dando-se a ler de uma forma que não termina: este é um dos sentidos do que se diz ser um clássico: material que nunca acaba de se ler e que cada época lê de forma diversa conferindo-lhe um estatuto de constante contemporaneidade. O mesmo se poderá dizer de um contemporâneo, inesperado absoluto que seja, o que é também a qualidade do que vive nos clássicos.

O falso debate em torno da rendibilidade da criação e dos objectos produzidos, radica numa perspectiva deslocada da natureza da criação que vê rendibilidade onde deveria ler apenas modo de escrita, ficção sob as mais diversas formas do seu concreto: esta rege-se por leis próprias que lhe determinam processos, tempos heterogéneos não uniformizáveis, formas que resultam sempre do trabalho da forma e até modelos de sociabilização não mecânicos, sejam indirectos, isto é, que sobre a criação incidam não a sendo mas dizendo algo sobre ela, informando de um modo que não a contamine com um discurso que se lhe sobreponha, sejam o acontecimento artístico em si, momento que em condições de excepção da representação – falando das artes cénicas - se evita, na forma da relação cena/sala, a pobreza da relação de consumo como modo de ler, ou melhor, se evita o mimeticamente correcto reconhecer de um dado standard qualificador, como aquele das estrelas de um a cinco.

Quando se fala de política cultural e de responsabilidade governativa reconhece-se a relevância da função representativa. Quem é eleito para governar o país tem a responsabilidade de o olhar como todo e como partes e tem, se pugnar pela igualdade de condições de existência entre os cidadãos que diz representar, de o afirmar concretamente através de medidas que libertem um caminho de futuro no interior do que realmente compõe o real: a ignorância, a violência sexista, o racismo, o centralismo, o provincianismo, a arrogância hegemónica do massivo através das suas formas de eliminação das diversidades autênticas, a incapacidade de ler os universos que implicam essa capacidade e que pressupõem modos de leitura específicos pois são modos de escrita específicos. Esta é a questão decisiva no plano do que seja uma política cultural na medida em que ela pode ser o ambiente da democracia, a sua civilidade concreta e vivencial: o que se frui lê-se e o que se cria escreve-se. A capacidade de ler é não só condição da criação como potencialidade no ambiente que se respira, fermento do olhar crítico. O contrário é, em si, sinal de totalitarismo emergindo. Estaremos sempre a falar de formas de estímulo, de consciência da escala das coisas, de um mapa de diversidades e territorial, de gerações, de referências e de formas emergentes numa articulação dinâmica, de estruturação de agilidades de fazer em cada ofício artístico, de artesanato e tecnologias.

Claro que tudo isto seria relativamente diferente se existissem regiões autónomas. O que não é o caso, embora importe perceber-se que a relação local/global, ou mesmo inter-local/ global, se desenvolverá por uma libertação maior do local relativamente aos aspectos imperialistas do global e por uma penetração maior do que criativamente do local venha a ser global.

O que é claro para já é que com esta governação assistimos a um reforço do arcaico centralismo, por um lado, e pior, uma total determinação dos aspectos diversos da governação pelo financeiro, ao ponto de só se falar economês e de se erigir o orçamento no capítulo único de uma bíblia monetária. O orçamento é o guião que relança a omnipresença constante no dia-a-dia deste rico vocabulário. A política financeira, a sua força colonizadora de todos os outros sectores de governação, fá-los falar a sua língua estrangeira e é determinante do todo ao ponto da extinção de aspectos da política como a política cultural.

Os meios financeiros são meios, instrumento, já o disseram, não são ídolos de altar bolsista nem finalidade, não podem ser propriedade de um ministério das finanças como meio político que, no fundo, se substitui ao que ao centro deveria ser a orientação de um governo, a acção do primeiro-ministro – o Dr. Vitor Gaspar - o seu fantasma - continua a governar.

Só mesmo a caminho de um feudalismo condómino, com senhores de helicóptero negociando entre heliportos nos céus do negócio imparável as suas taxas de lucro e poker bolsista, e escravos de pronto vestidos a olhar para montras de pronto a vestir. Esta é, para já, a comunidade que aí está.

Encenador

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