Pediatra pede a todos os cidadãos que estejam atentos a sinais de maus tratos

Presidente da Comissão Nacional de Saúde Materna, da Criança e do Adolescente diz que “todos os cidadãos têm de constituir-se como provedores das crianças”.

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Estas situações acontecem em todas as classe sociais, “ao contrário do que se pensava antigamente" Foto: Manuel Roberto

Estar atento aos sinais e denunciar. É este o pedido do presidente da Comissão Nacional de Saúde Materna, da Criança e do Adolescente, que falou à Lusa na sequência do caso do bebé que morreu vítima das queimaduras provocadas por água a ferver e de uma menina de três anos que teve de ser internada devido a agressões físicas muito graves. Ambas as histórias foram conhecidas nos últimas dias.

Reconhecendo que, “às vezes, não é fácil detectar este tipo de casos”, o pediatra Júlio Bilhota Xavier sublinhou que nunca é demais alertar os profissionais de saúde e as famílias para “pequenos sinais” que podem indiciar situações de maus tratos. “Estes pequenos sinais podem pô-los de sobreaviso de que estas crianças têm de ser protegidas”, adiantou, defendendo que, para prevenir estas situações, “todos os cidadãos têm de constituir-se como provedores das crianças”.

Segundo o relatório anual das Comissões de Crianças e Jovens, foram registadas, em 2013, 4237 situações de maus tratos físicos em crianças. Além dos maus tratos físicos, foram comunicadas às comissões de protecção outras “situações de perigo”: 18.910 situações de negligência (que representam 25,3% do total das situações de perigo identificadas), 2898 de abuso sexual e 2627 de maus tratos psicológico.

Bilhota Xavier lembrou que os casos de maus tratos sempre existiram, mas hoje são mais falados porque “as pessoas estão mais despertas”. O médico nota que estas situações acontecem em todas as classe sociais, “ao contrário do que se pensava antigamente — que só as famílias mais carenciadas é que maltratavam os seus filhos”.

No caso dos maus tratos psicológicos, Bilhota Xavier admitiu que podem estar a aumentar “como consequência da crise”.

Os pais estão desempregados, têm “dificuldade em manter a alimentação dos filhos ou adquirir os livros escolares” e esta situação acaba “também por ter alguma repercussão em termos psicológicos nos filhos, que não são insensíveis” às dificuldades pelas quais os pais estão a passar.

O especialista salientou que os profissionais de saúde, os professores e os educadores estão hoje “muito mais despertos para este tipo de problemas e mais alertados para pequenos sinais que podem levar à suspeita de que aquela criança está a ser vítima de maus tratos físicos, já que os psicológicos são mais difíceis de detectar”.

Dores de barriga, dificuldade de adormecer ou sonos muito agitados podem ser “pequenos sinais que podem levar a pensar que a criança está a ser vítima de maus tratos”.

Há ainda outros sinais como equimoses, hematomas, escoriações, queimaduras, cortes e mordeduras em locais pouco comuns aos traumatismos de tipo acidental (face, orelhas, boca, pescoço genitais e nádegas).

“Quando pensamos com algum suporte, com uma pequena garantia de que aquela criança está a ser vítima de maus tratos, devemos sempre desencadear todos os mecanismos necessários para proteger essa criança, mas não é fácil”, admitiu.