Rave junto à barragem de Odivelas ocupou ilegalmente Reserva Ecológica Nacional

Depois de apedrejarem GNR festivaleiros abandonam pacificamente local em que estão interditas actividades ruidosas e circulação de viaturas.

De uma pequena elevação de terreno coberto de montado e sobranceiro à albufeira de Odivelas o panorama que se observava era confrangedor na manhã deste domingo. Centenas de autocaravanas, tendas grandes, médias e pequenas ocupavam as margens desta reserva de água para a agricultura do sistema de rega do Alqueva, bem no interior de um território que integra a Reserva Ecológica Nacional.

O local está “ interdito à prática de actividades ruidosas e ao uso de buzinas ou outros equipamentos sonoros”, diz uma resolução do Conselho de Ministros de 2007. O que não impediu, nos últimos dias, a circulação de viaturas todo-o-terreno, carros e camiões. Nem a realização de uma festa rave.

Os primeiros festivaleiros começaram a chegar à festa combinada pela Internet logo na quinta-feira. “Eram poucos”, recorda uma jovem que mora nesta freguesia alentejana, do concelho de Ferreira do Alentejo. Mas no dia seguinte começaram a ver passar “muitas caravanas e pessoas com rastas e um pouco sujos” na sua esmagadora maioria ingleses, franceses, belgas e espanhóis. Eram milhares, conta a empregada de um restaurante/estalagem das proximidades.

O alerta sobre a infracção à lei foi dado às autoridades pelos proprietários do parque de campismo da Markádia, instalado há cerca de três décadas junto à albufeira, depois de os campistas do recinto se terem queixado do ruído “ensurdecedor” projectado pelas potentes colunas da rave. “Temos clientes que nos procuram por causa do sossego e da beleza do local” explica um elemento da Markádia. “A maioria abandonou o local, só ficaram os mais resistentes”.

No sábado a cerca de meia centena de militares da GNR que se deslocaram ao local foram recebidos por alguns dos festivaleiros à pedrada. Também alvo de arremesso de paus, cinco dos guardas ainda tiveram que receber tratamento no Hospital de Beja. “Apareceram na freguesia um bocado assustados”, relata outra residente em Odivelas. Por razões de segurança as autoridades deixaram o interior do acampamento montado para o festival, para se posicionarem no exterior.

Num balanço sobre o ocorrido feito já este domingo, o tenente-coronel Joaquim Figueiredo, do comando da GNR de Beja, destacou a “desmobilização” dos festivaleiros, que foram abandonando  lenta mas progressivamente o local. “Houve um disparo para o ar” da guarda quando a situação se apresentou mais tensa, admitiu. Mas uma das viaturas da GNR apresentava um impacto de bala de calibre 22, que não é o calibre usado pelas forças de segurança. Outras três ficaram igualmente com vidros partidos.

Não existe qualquer sinalética no local proibindo o campismo selvagem no interior da zona de protecção da albufeira, junto ao espelho de água. O plano de ordenamento da albufeira de Odivelas proíbe este tipo de actividades numa área com “largura de 500 metros contados a partir do nível de pleno armazenamento”.

Resta saber quem irá recolher as toneladas de lixo que se foram ali acumulando desde quinta-feira e que consequências teve, para o coberto vegetal, a presença de mais de 3000 pessoas e de várias de centenas de autocaravanas e outras viaturas.