Pela cultura para todos, cerca de 70 pessoas transformaram-se em estátuas no MNAA

Performance "artivista" mobilizada pelo artista Rui Mourão reivindica a entrada livre nos museus aos domingos e a redução dos preços dos bilhetes, além de defender o acesso de todos à cultura.

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As operações urbanísticas no local ficam suspensas dois anos Nuno Ferreira Santos

Cerca de 70 pessoas concentraram-se na tarde deste domingo no 3.º piso do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, numa performance e manifestação pelo acesso universal e democrático à cultura. Os manifestantes vestiram-se de preto e ficaram estáticos nas salas dedicadas à pintura e escultura portuguesa imitando as poses das obras e repetindo a frase: “Somos arte, diante da arte de luto pela arte, em luta pela arte”. Já em Julho, o mesmo artista e um grupo ocupou o Museu do Chiado durante a noite.

O acto foi convocado pelo artista Rui Mourão, que lhe que lhe chama “performance artivista” e quis reunir 73 pessoas por todo o museu – referência ao artigo 73.º da Constituição sobre o papel do Estado na universalidade da educação e da cultura, lê-se no comunicado de imprensa. No final dos 20 minutos desta acção, as cerca de 70 pessoas dirigiram-se à recepção para pedir o livro de reclamações por terem pago bilhete para entrar num museu público num domingo (a partir de Junho as entradas gratuitas nos museus passaram a existir apenas no primeiro domingo de cada mês. Em 2011 Francisco José Viegas tinha tornado pública essa hipótese, que veio depois a ser posta em prática por Jorge Barreto Xavier). O livro foi disponibilizado imediatamente.

Os participantes do protesto foram entrando a pouco e pouco e às 17h espalharam-se pelo terceiro piso. A concentração de pessoas era maior na sala dos Painéis de São Vicente: iam recitando o “mantra” criado por Rui Mourão sempre com diferentes entoações – gritando, sussurrando, em jeito de conversa. Aos comentários dos turistas surpreendidos, os manifestantes responderam traduzindo aquela frase para francês e inglês.

O MNAA estava preparado para receber o protesto, como disse ao PÚBLICO António Filipe Pimentel, director do museu. “Estávamos ao corrente porque vimos nos meios de comunicação social. Não fizemos mais preparação que a habitual: aqui estávamos para receber toda a gente como sempre fazemos. A nossa preocupação era a da segurança do acervo e de haver algum risco para ela. Não houve, tudo se passou civilizadamente.”

Esta performance, que o artista diz ser uma manifestação e simultaneamente arte, quer a redução do preço dos bilhetes dos museus e o restabelecimento dos domingos gratuitos. “Este é um modelo que está a excluir pessoas. Tem havido muito pouca reivindicação, como se a cultura fosse um luxo”, diz Rui Morão ao PÚBLICO. “Numa perspectiva mais alargada, exigimos a reposição do Ministério da Cultura e que, conforme recomendação da Unesco, se estabeleça o mínimo de 1% do Orçamento de Estado para a Cultura”, lê-se ainda no comunicado de imprensa.

“Com estes motivos somos todos solidários. Imagino que não haja ninguém que não esteja solidário com os problemas financeiros do sector e que nós sentimos aqui”, disse o director do MNAA. Sobre a posição do museu quanto aos domingos gratuitos, acrescentou que “ao museu não compete opinar porque é uma estrutura do Estado”, explicou António José Pimentel.

Questionado pelo PÚBLICO sobre como pensa levar estas reivindicações a órgãos como o Parlamento ou Secretaria de Estado da Cultura, Rui Mourão diz não estar a produzir, para já, nenhum documento ou abaixo-assinado ou ter-se dirigido a esses órgãos. “O nosso veículo é a comunicação social”, diz, esclarecendo que o grupo de pessoas que se juntou no MNAA não se trata de uma organização política, não tendo sequer um nome – “são pessoas que se juntaram a mim”.

Com esta “acção de artivismo” quer que “os artistas percebam que têm estado muito passivos: tanto são vítimas como responsáveis” e que se demonstre que “a arte pode fazer alguém ganhar uma voz”. Quanto às metas do 1% para a cultura e dos domingos gratuitos, o que Rui Mourão quer é que “estas questões não morram” e que “as pessoas vão ouvindo isto e tomando consciência”. “É mais uma voz, mais uma iniciativa”, explica.

Rui Mourão é autor do livro Manual de Artivismo. Vídeo e Performance, ensaio sobre a arte como forma de manifestação política integrado no projecto Os nossos sonhos não cabem nas vossas urnas, patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado até 24 de Setembro. Foi na inauguração desta instalação multimédia, a 4 de Julho, que ocupou com cerca de 20 pessoas o Museu do Chiado durante a noite. Aí, os participantes que ocuparam o museu produziram um documento – um comunicado de imprensa – em requeriam uma reunião com o ministro da Cultura, “um pedido irónico que e pretendia voltar a lançar a discussão sobre o facto de não haver um ministério”, explica agora ao PÚBLICO Rui Mourão.