Lisboa à pinha com enchente de turistas

Hotéis quase lotados, transportes públicos a abarrotar e esplanadas cheias: a capital parece estar na moda e os turistas estrangeiros sabem disso. Ainda é cedo para balanços mas até agora o Verão está a correr bem para o turismo.

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Nuno Ferreira Santos
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Os eléctricos apinhados são um dos sítios preferidos dos carteiristas Nuno Ferreira Santos

Quem ficou em Lisboa em Agosto e contava com uma cidade mais calma no período de férias não teve muita sorte. “Parecemos sardinhas em lata e nem ligam o ar condicionado”, queixa-se uma mulher que segue a bordo do eléctrico 15E, entre Algés e a Praça da Figueira. Conseguir entrar já é uma sorte: pouco antes, às duas da tarde de terça-feira na paragem de Alcântara-Mar, o 18E, que vai do Cemitério da Ajuda ao Cais do Sodré, passou a toda a velocidade sem parar. Ia cheio.

No corredor do 15E não há espaços livres e o calor é tanto que os leques improvisados com os mapas de Lisboa pouco ajudam a aguentar a viagem. Paragem após paragem poucos entram, ninguém sai. Só no Cais do Sodré se aliviam as carruagens e no desembarque ouve-se falar inglês, francês, espanhol. Em terra, a fila tem mais de duas dezenas de pessoas, que seguem viagem até à Baixa.

Tem sido assim nas últimas semanas, nos autocarros e eléctricos da Carris, de manhã à tarde, sobretudo nos que têm como destino zonas históricas. Em Julho, por exemplo, as vendas do cartão “Lisboa Card”, especificamente dirigido a turistas, foram superiores em 40% às registadas no mês homólogo de 2013, segundo a transportadora. A empresa ainda não tem dados sobre as duas primeiras semanas de Agosto, mas revela que “durante este ano tem vindo a verificar-se um incremento da utilização dos transportes públicos por turistas”.

No Terreiro do Paço, a “sala de visitas” de Lisboa, há um corropio de autocarros, eléctricos, táxis e tuk tuk. Estacionado em frente ao Arco da Rua Augusta, o eléctrico vermelho da carreira turística da Carris, que percorre os bairros de Alfama, Bairro Alto e até a Lapa, já não tem lugares vagos. “Disseram-me que vou ter de esperar 40 minutos, é mais do que estava a contar”, comenta Helen Lifonde, francesa a viver em Barcelona. O eléctrico parte da Praça do Comércio de 20 em 20 minutos, leva 24 pessoas sentadas e na fila para o próximo já estão umas 30. “Mas vale a pena esperar, Lisboa é linda”, diz a turista, de visita à capital portuguesa pela terceira vez.

Quem pode refugia-se ao fresco, nas esplanadas da praça ou à sombra dos prédios. Nas ruas da Baixa é difícil romper entre a multidão. As esplanadas dos restaurantes da Rua Augusta, da Rua dos Correeiros e das transversais quase não têm mesas vagas ao início da tarde, e é grande a afluência de estrangeiros às lojas e cafés da zona.

“O comércio de proximidade tem beneficiado desta avalanche de turistas”, reconhece Carla Salsinha, presidente da União de Associações de Comércio e Serviços (UACS) de Lisboa. O impacto é mais visível nas zonas históricas, já que “noutras zonas dependentes do consumidor interno, residente, os lojistas continuam a atravessar um período difícil”, ressalva.

Contudo, ainda é cedo para dizer com certeza se o Verão está a correr bem para o comércio. “Por exemplo, os cruzeiros são importantíssimos mas muitas vezes os turistas já chegam com programas definidos e não vão ao comércio de rua”, observa Carla Salsinha.

Lisboa atrai cada vez mais passageiros de navios de cruzeiro: em Julho, passaram pela capital 42 mil, mais 15% do que no mesmo mês de 2013. Até ao final de Agosto serão mais de 14 mil - 7000 só na próxima quarta-feira -, segundo os dados disponíveis na página de Internet do Porto de Lisboa.

A atribuição a Lisboa do “Óscar” de melhor destino de cruzeiros da Europa, entre outros títulos, nos World Travel Awards Europa 2014, terá captado ainda mais as atenções internacionais. Há algum tempo que os holofotes mediáticos estão virados para a capital, cujos encantos têm sido amplamente divulgados em revistas e jornais de renome mundial.

Hotéis quase cheios
“Lisboa está na moda, tem vindo a crescer de forma consolidada na posição que ocupa em termos nacionais e como cidade de destino internacional”, resume Cristina Siza Vieira, presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP). “Agora vamos ver se o crescimento veio para ficar.”

Ainda não há números sobre as taxas de ocupação hoteleira em Julho e no início de Agosto, apenas algumas previsões. Um inquérito feito pela AHP a 40 hotéis da capital revela que a “semana hot” em termos de ocupação terá sido a de 6 a 12 de Agosto, mas ainda haverá novo pico neste sábado e na terça-feira. Nestes dias, pelo menos 75% dos hotéis registam taxas de ocupação superiores a 50%, apenas com base em reservas. São esultados mais animadores do que os de Agosto de 2013.

Os hotéis contactados pelo PÚBLICO estão muito acima dos 50%. No Marriott, por exemplo, que tem quase 600 quartos, a taxa média de ocupação até 15 de Agosto foi de 95%, e deverá manter-se até ao fim do mês. No Pestana Palace, a ocupação está cinco pontos percentuais acima do registado em Agosto de 2013.

Em resposta a um pedido do PÚBLICO, o motor de busca online Trivago calculou - com base em dados dos sites de reserva de alojamento, como o Booking - o número de hotéis em Lisboa com camas ainda disponíveis para as últimas duas semanas de Agosto. Apenas 13,3% das unidades tem quartos livres.

Noutro segmento, o das casas de férias particulares, a procura está a bater recordes: nas 2352 casas do género existentes em Lisboa, a taxa de ocupação ronda os 85%, segundo a HomeAway. “Até à data, a procura de alojamentos particulares para arrendar em Lisboa aumentou 55%” em relação a 2013, diz Sofia Dias, responsável de comunicação desta plataforma de arrendamento. Os principais clientes são portugueses que optam por passar férias “cá dentro”, franceses, espanhóis e italianos.

Com cerca de 80 hostels, Lisboa parece ser também apetecível para quem quer gastar menos em alojamento. A Associação de Hostels de Portugal não tem dados sobre a taxa de ocupação, mas algumas unidades contactadas pelo PÚBLICO estão praticamente cheias até ao fim do mês.