A voz pousada sobre a guitarra

Arriscando pela primeira trazer a voz para o centro da sua música, o guitarrista André Fernandes gravou em Wonder Wheel um álbum que se enleia nas canções. Jeff Buckley, sem o saber, indicou o caminho.

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André Fernandes gravou o disco com uma formação que inclui Inês Sousa, Mário Laginha, Alexandre Frazão e Demian Cabaud DREAD MONKEY

Dos oito temas que compõem Wonder Wheel, houve um que balançou repetidamente entre a inclusão e a exclusão do alinhamento final. Poderia, na verdade, ter-se ficado por uma presença fantasma em torno da qual se organizaram por trás da cortina algumas das composições de André Fernandes para um ensemble com voz destacada. Mas o guitarrista acabou por não resistir e colocou Lilac wine a fechar o álbum. As hesitações não espantam ninguém. A magnífica canção imaginada por James Shelton em 1950, que faz das feridas rasgadas pelo amor coisa para ser curada despejando-lhes álcool para cima (ou, pelo menos, goela abaixo), foi popularizada primeiro por Nina Simone e Elkie Brooks. “E foi este tipo de canção que esteve presente no meu imaginário, fazendo com que escrevesse alguns dos temas para o disco, e que me parecem existir dentro de um mesmo espírito."

É suficientemente revelador que tenha sido a versão de Jeff Buckley a fazer soar as campainhas que o alertaram para “o medo de fazer algo demasiado próximo – e, logo, inferior”, se tivesse sido tomado por “uma ambição estúpida de tentar fazer uma versão praticamente igual” à do cantor norte-americano que morreu em 1997, num mergulho nocturno nas águas de um afluente do Mississípi. E é revelador porque da mesma forma que Jeff Buckley não escondia a sua admiração por Led Zeppelin, Joni Mitchell ou Leonard Cohen mas não tinha, por isso, de fazer ouvidos moucos a gente como Nina Simone, Duke Ellington ou Benjamin Britten, também André Fernandes foi formado pela escola jazzística mas não renega o impacto de Buckley, dos Nirvana ou de Bela Bartók no seu perfil musical. Lilac wine, na imensa delicadeza em que a ouvimos agora, cantada com imaculada candura por Inês Sousa (sPill, Julie and the Carjackers), é igualmente símbolo de um músico apostado em não se deixar soterrar pelos padronizados caminhos do jazz. “Vivi muito intensamente a fase do grunge, mesmo enquanto já estudava e tocava jazz”, confessa o músico. “Era essa a música que me inspirava e que gostava de ouvir. E nunca senti necessidade de a recusar.” Ao enveredar convictamente pelo estudo do jazz, André Fernandes nunca cedeu, portanto, à armadilha quase pré-requisito académico de cortar amarras com o universo rock, embora admita que foi graças à experiência que conseguiu libertar-se de um formalismo que, muitas vezes, funciona como rede de segurança para quem se especializa numa tradição musical. “À medida que fui tocando com mais músicos e ganhando mais autoconfiança”, descreve, “acabei por baixar um bocadinho essas fronteiras que tive de criar enquanto me formava e fui deixando entrar todas essas sonoridades que tinha e tenho na cabeça desde sempre.”

“O Bartók, por sua vez, vem do período formativo, quando comecei a encharcar-me em música clássica e música orquestral, pela necessidade de saber o que havia nessa área, o que podia ir buscar a um universo que conhecia menos bem.” Na obra do compositor húngaro, profícua na vampirização da música popular da Europa Central, André Fernandes acabou por descobrir um “dramatismo harmónico” que lhe interessou e que lhe possibilitou uma das situações de revelação e transformação na vida de um músico: ouvir algo que não sabia o que era. Mais tarde, acabou por reconhecer um espelho dessas opções harmónicas pouco comuns no mundo do guitarrista Ben Monder.

As primeiras demos

Depois de em Motor (2012) já se ter intrigado com a forma como poderia convocar a voz para os seus ensembles de jazz – a ideia de ter a cantora Maria João acabou por cair, com as suas partes a serem asseguradas pelo saxofonista Zé Pedro Coelho –, André Fernandes levou agora a ideia um pouco mais adiante, enfrentando directamente a ideia de canção. Ou seja, não quis a voz enfiada nos temas fazendo as vezes de um instrumento de sopro, mas não quis também emular de uma forma que só poderia resultar trapalhona um universo de standards – que depois de fixado por Billie Holiday, Ella Fitzgerald ou Sarah Vaughn se tornou objecto de abordagem quase herética. A sua principal certeza era, aliás, o nulo potencial de atracção que encontrava na “voz jazzística que faz solos, tem uma grande exposição virtuosística e é muito estilizada”. “Na prática, quis evitar uma voz imediatamente associada ao universo do jazz.”

Por isso, voltou-se para Inês Sousa, que conhecia já de contextos pop, rock e música brasileira, e com quem colabora no projecto sPill. (Pequeno desvio: os sPill são o grupo onde o guitarrista arruma toda a sua energia rock e funk, e por onde passaram igualmente, nos primeiros tempos de uma encarnação mais electrónica, o teclista dos Orelha Negra João Gomes e o vocalista/inflamador de multidões dos Buraka Som Sistema Kalaf). Claro que em Wonder Wheel, numa formação que integra ainda o piano de Mário Laginha, a bateria de Alexandre Frazão e o contrabaixo de Demian Cabaud, e que ouviremos a 10 de Setembro na Culturgest de Lisboa, a voz não segue os passos dos sPill. É, por isso, um trajecto pelo qual Fernandes vai avançando às apalpadelas, consciente de que se aventura em terreno quase virgem no seu percurso. “Foi a primeira vez que trabalhei assumidamente com voz na totalidade de um reportório. Começámos por fazer alguns ensaios com o grupo e fizemos algumas demos – uma primeira vez também nos meus discos.”

Aquilo que se ouve em Wonder Wheel é então um trabalho de reescrita. Depois das gravações e da formulação de possibilidades, o guitarrista gravava tudo e voltava a cada tema seleccionando e apagando partes, até avistar no meio de um mar de hipóteses uma ideia de disco que se impusesse. E que é mais feliz sempre que, a tactear, André Fernandes assina temas como Wonder wheel, Canção Nº3 ou Down the road, ou oferece espaço para o enlevo melódico de Laginha. “Aquilo que foi menos familiar para mim foi não ter uma ideia a priori do que o resultado final iria ser”, explica. “Nos contextos em que trabalho habitualmente consigo ouvir à frente – enquanto estou a escrever antecipo o resultado final se souber quais os músicos que vão tocar. Aqui não consegui fazer isso com tanta clareza.” O que significa que André Fernandes se colocou voluntariamente em solo pouco firme. E não caiu.