Na aldeia do Bons Sons e na praia Fusing da Figueira da Foz, guiados pela música portuguesa

O Bons Sons é obra comunitária da aldeia de Cem Soldos. O Fusing Cultural Experience é a concretização da vontade de quem desejava um festival de relevo na região centro. Une-os o cartaz dedicado à música portuguesa, mas são de natureza diferente. Temos até domingo para o perceber ao vivo.

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Capicua em todos: no Fusing, no Bons Sons e no Sol da Caparica Nuno Ferreira Santos

É Verão e os festivais abundam. De norte a sul, encontramo-los para massas e para minorias. Encontramos festivais de pop rock, de electrónica, de jazz ou de world-music (ou festivais que misturam tudo isso). Festivais montados para serem uma cidade durante três dias ou integrando-se nas localidades que os acolhem. Festivais há muitos, mas há festivais e festivais.

Até dia 17, no final desta semana, acontecem dois que têm a uni-los a peculiaridade de apresentarem um cartaz dedicado quase em exclusivo à música portuguesa. Se isso une o Bons Sons (até domingo), realizado na e pela aldeia de Cem Soldos e o Fusing (de quinta a sábado), na Figueira da Foz, as suas identidades distinguem-nos. E aos dois junta-se o novo festival Sol da Caparica, também dedicado à música nacional [ver caixa].

Em Cem Soldos, aldeia da freguesia da Madalena, Tomar, organiza-se bienalmente desde 2006 um festival único chamado Bons Sons: é uma obra comunitária que envolve a maioria dos habitantes, que transforma a pequena localidade e através do qual a organização, o Sport Clube Operário de Cem Soldos, pretende transformar a aldeia. Os voluntários não se voluntariam para poupar gastos de produção: os lucros do festival que acolhe 55 bandas (Sérgio Godinho, Ricardo Ribeiro e Gisela João, os Gaiteiros de Lisboa, JP Simões, Noiserv, Capicua), divididas por sete palcos (numa eira, na Igreja, no largo principal, num auditório), são investidos na construção de um edifício para residências artísticas e na criação do Lar Aldeia para apoio da população mais envelhecida.

A música do festival, diversa e transgeracional, pretende reflectir o “presente neste contexto político, social e cultural”, como disse o director artístico Luís Ferreira em Maio, enquanto conduzia a imprensa por uma visita guiada a Cem Soldos. A forma como é organizado, utilizando tractores para transporte dos espectadores entre a aldeia e o parque de campismo ou transformando antigos armazéns em galerias de arte, demonstra, por sua vez, o desejo de que o Bons Sons tenha uma escala humana, de proximidade, e uma “cultura participativa”. Quem for viver a aldeia, como diz o slogan do festival, já se terá começado a aperceber da sua singularidade: quarta-feira foi dia de recepção ao campista, quinta o festival arranca em pleno (passe para os quatro dias, com campismo incluído, 35€; bilhete diário a 15€). Entretanto, mais a norte…

Há cerca de dois anos, um conjunto de amigos à volta de uma mesa de café reflectia na ausência de festivais de relevo na sua região. O café era na região centro, na Figueira da Foz, e os amigos, observando o vasto areal (imaginamo-los na Figueira, não em Buarcos), não tiveram dúvidas. Seria ali que nasceria o festival imaginado. Teria mais que música: instalado na zona ribeirinha, teria também espaço para o surf, promoveria intervenções de arte urbana e teria uma componente gastronómica vincada. Em 2013, o ano da estreia, passaram pela Figueira da Foz cerca de 20 mil pessoas. Este ano, juntam-se aos dois palcos musicais a Surf Village e o Cooking Lounge Pingo Doce onde, entre outras actividades, se assistirá a “batalhas” entre chefs portugueses reconhecidos e figuras da culinária figueirense (acontece dia 15, às 15h30). “A música é o principal atractivo [ do Fusing], mas queremos que todas as áreas tenham impacto e que cada uma delas seja responsável por atrair diferentes públicos”, explica Carlos Martins, um dos organizadores. Adianta também que, por exemplo, através das intervenções de arte urbana o Fusing já teve o seu impacto na cidade, com várias paredes pintadas por “writers” em 2013 integradas na paisagem e apreciadas pela população. “O ano passado as pessoas reagiam com desconfiança à ideia de 'andar a pintar paredes’. Este ano, perguntam-nos com curiosidade o que será intervencionado”.

Quinta-feira, no primeiro dia do Fusing (o bilhete geral com direito a campismo custa 50€, o bilhete geral 39€, e o diário 17€), veremos em palco Capicua, a rapper portuense autora do celebrado Sereia Louca (toca às 22h15, antes dos You Can’t Win Charlie Brown e dos Primitive Reason; depois de Noiserv ou First Breath After Coma). Sexta, iremos vê-la no Bons Sons, no Palco Eira, às 0h15, no mesmo dia em que passam pela aldeia os Gaiteiros de Lisboa, Samuel Úria, Reportório Osório. Gisela João ou Moullinex. E sábado, dia 16, Capicua estará também no Sol da Caparica. A viagem supersónica da rapper nascida Ana Matos Fernandes, acompanhada pelos nomes com quem partilhará cartaz, permite-nos concluir o mesmo que o enunciado por Carlos Martins. Justifica o cartaz quase exclusivamente português do Fusing, onde se destaca, por exemplo, a sequência B Fachada, Dead Combo, Legendary Tigerman e PAUS no sábado, no palco principal (as excepções aos nomes nacionais são a electrónica do americano Slow Magic, que actua quinta, e o brasileiro Cícero, sábado), com “o bom momento que a música portuguesa está a viver". Acrescenta: "também é da responsabilidade das promotoras trazer para a esfera pública essa qualidade”. Em Cem Soldos, tal consciência surgiu vincada desde o início.

As edições de 2010 e de 2012 do Bons Sons fixaram o nome do festival no roteiro musical português e divulgaram a especificidade cultural, política no limite, dos seus objectivos e método de organização. Há dois anos, passaram por Cem Soldos cerca de 35 mil espectadores ao longo de quatro dias. Este ano, a organização espera que o cenário se repita e que aos mil habitantes da aldeia se juntem várias dezenas de milhar para assistir aos concertos de Sérgio Godinho ou Amélia Muge (domingo), dos Galandum Galundaina ou dos Gaiteiros de Lisboa (quinta e sexta, respectivamente), de Noiserv, Osso Vaidoso ou Ricardo Ribeiro (sábado). Para assistir aos concertos e, claro, para testemunhar o que é uma aldeia em movimento.