Um organizador de fóruns de debate, pai dos spin doctor portugueses ou vendedor de presidentes?

Foi o “rosto” da entrada em cena das televisões privadas que mudaram, e muito, a forma de fazer política em Portugal. Escancarou as janelas da casa da democracia aos portugueses. O vendaval que provocou fez entrar novos actores e também fez balançar a cadeira do poder.

Na origem deste processo estão declarações de Emídio Rangel no parlamento
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Na origem deste processo estão declarações de Emídio Rangel no parlamento Miguel Silva

Foi no auge da sua carreira que Emídio Rangel proferiu uma das suas frases mais polémicas e que haveria de o perseguir durante longos anos. Devido a ela, foi acusado de arrogância e poder desmesurado. Assumir a pretensão de transformar a sua SIC num canal capaz de tudo influenciar ou vender, desde um sabonete a um Presidente da República, gerou polémica. A frase nem era sua, tendo sido originalmente cunhada nos EUA em meados do século passado.

O potencial para se transformar num fazedor de reis era real, graças aos 50% de audiências que a SIC tinha no final do século. As opiniões dividem-se sobre o real impacto do projecto de Rangel na política. Uns destacam a “diversidade” e o “combate a um sistema que estava estabilizado num statu quo” a “preto e branco”. Outros reconhecem que, no seu auge, “ele conseguiu isso” de tanto vender um presidente como um sabonete.

O ex-primeiro-ministro José Sócrates avisa, desde logo, que Rangel era um “querido amigo” sobre quem, na hora da morte, não deixa de salientar o “seu espírito insubmisso e de inclinação iconoclasta”, portador de uma “força reformista que era criativa”.

Em vez da ideia do fazedor de reis, José Sócrates prefere destacar Rangel como o “rosto” da “transformação”. Não só do jornalismo mas também, reconhece, da política: “Com ele passou-se, de um momento para o outro, de uma política a preto e branco para um política mais viva. E que, marcou, aliás, o fim do cavaquismo.”

“As televisões privadas mudaram muito a política, na maior parte das vezes para melhor”, afirma. “Mais oportunidade, maior diversidade, mais pontos de vista”, concretiza o ex-primeiro-ministro. Uma mudança que resultou também do “gosto pelo debate político” que Rangel tinha. Lembra a criação do Fórum TSF como “exemplo” disso mesmo.

"Uma opinião mais livre"
O sociólogo Paquete de Oliveira, que conheceu e trabalhou com Rangel nesses primeiros anos da SIC, assume a mesma visão. “Ele direccionou a informação da SIC para o combate de um sistema que estava estabilizado num status quo”.

O que Rangel pretendia era uma televisão que “despertasse, na consciência pública, a emergência de uma opinião cada vez mais livre”. Quanto à aspiração de vender presidentes, Paquete arrumou-a como “um princípio orientador”.

Arons de Carvalho, que foi deputado pelo PS e actualmente faz parte da Entidade Reguladora da Comunicação, também não faz juízos maquiavélicos sobre a polémica frase. “Ele utilizou-a para valorizar o poder da televisão”, explica ao PÚBLICO. Reconhecendo que Rangel marcou a forma de fazer jornalismo e, por consequência, a forma de fazer política. “Na TSF introduziu a informação no momento, e depois transmitiu essa agressividade informativa à SIC”.

Essa assertividade produziu ondas de choque na política. Arons identifica a sua influência nos pequenos pormenores: “Passou a haver timings para as conferências de imprensa dos políticos.” Paquete de Oliveira reconhece que uma “estação com um poder desses [50% de audiências] é influenciadora da opinião pública e pode ser influenciadora na escolha de um candidato político x ou y.”

Vasco Ribeiro, ex-assessor de imprensa, agora professor e investigador de comunicação política na Universidade do Porto, é peremptório. “Concordo plenamente com essa frase. Naquele período ele conseguia fazer isso”, assegura. “A SIC tinha um poder incrível. Há um antes e um depois da SIC de Rangel. Antes dela tínhamos uma televisão controlada pela tutela política. Chega a televisão privada, sem esse filtro, com um alinhamento mais agressivo, e consegue comunicar com o eleitor de outra forma”, resume.

E a melhor forma de o perceber, destaca Vasco Ribeiro, foi o resultado desse novo jornalismo nos gabinetes ministeriais: “É nessa altura que surge o spin doctor em Portugal. Aumenta a partir desse período a contratação de assessores de imprensa.” Os políticos pressentiram a necessidade e os benefícios de ter alguém com “facilidade de contactos e capazes de filtrar a informação”.

O legado que fica, desses novos anos 90, para Arons de Carvalho, é o da “informação independente”. Paquete de Oliveira destaca o “espírito de independência”.

E, no entanto, há outro legado que José Sócrates não quer imputar a Rangel. Opta por falar nas televisões em geral quando fala na “arrogância da ideia de que a televisão comanda a política”. “As estações transformaram-se em instrumentos importantes no debate político, é um facto. Mas têm agora a pretensão da imposição dos pontos de vista maioritários. Definem os especialistas que devem ser ouvidos, mas quem deve legitimar esses especialistas? É a televisão ou, por exemplo, a academia?”

A frase maldita
"Se a SIC adoptasse aquilo que eu venho defendendo desde 92 - que é: há maneiras de ganhar dinheiro para além daquela que resulta da simples inserção de spots publicitários na grelha -, a SIC já estava hoje muito mais lançada e com uma receita bem mais interessante. (...) No fundo, eu volto à minha velha e permanente tese: uma estação que tem 50% de share vende tudo, até o Presidente da República! Vende aos bocados: um bocado de Presidente da República para aqui, outro bocado para acoli, outro bocado para acolá, vende tudo! Vende sabonetes! Esta ideia não está ainda contida na vida da SIC, a SIC tem de ser, do meu ponto de vista o pivot para lançar outros projectos que não sejam só a incorporação de publicidade!"

Excerto retirado do documentário realizado pelo canal Arte sobre a SIC em 1997