Morreu Emídio Rangel, o homem que inovou a rádio e a televisão

Tinha 66 anos. Fundador da TSF e antigo director-geral da SIC e da RTP ajudou a revolucionar a rádio e a televisão em Portugal.

Fotogaleria
Em Fevereiro deste ano Joana Bourgard
Fotogaleria
Em 2003 Miguel Silva
Fotogaleria
Emídio Rangel, em 2002 Daniel Rocha
Fotogaleria
Emídio Rangel, em 2002 Daniel Rocha
Fotogaleria
Em 2001, com Pinto Balsemão Carlos Lopes

O jornalista Emídio Rangel, fundador da TSF e antigo director-geral da SIC e da RTP, morreu nesta quarta-feira. Estava internado há várias semanas, devido a complicações provocadas por um cancro.

Rangel começou a sua vida profissional na rádio, em Angola na década de 60. Veio para Portugal já depois do 25 de Abril, formou-se em História. Esteve 12 anos na Radiodifusão e em 1988 fez parte da equipa fundadora da TSF.

Com o lançamento da televisão privada, Francisco Pinto Balsemão convida-o para director de Informação da SIC. Ali, acumulou depois também as funções de director de programas e assumiu o cargo de director-geral. Levou o canal à liderança das audiências num caminho fulgurante, chegando mesmo a mais de 50%.

Mas acabou por sair numa altura em que a estação começou num caminho descendente de perda de audiências para a TVI, quando esta começou a emitir sucessivas edições do reality show Big Brother - cuja compra Rangel recusara - e novelas de produção nacional.

Em 2001, passou para a RTP, para exercer funções também como director-geral. Acabou por sair no ano seguinte, regressando à rádio, como consultor da TSF, para desenhar o relançamento da estação noticiosa.

Desde então integrou diversos projectos, boa parte deles para Angola, e em Portugal esteve na preparação de uma das propostas para o quinto canal em sinal aberto que deveria ter sido lançado com a TDT – Televisão Digital Terrestre.

Recentemente, na apresentação do livro Vicente Jorge Silva – Conversas com Isabel Lucas, sobre o fundador do PÚBLICO, o historiador José Pacheco Pereira disse que “quando se fizer a história do jornalismo em Portugal”, além de Vicente Jorge Silva, nela teriam lugar de destaque Francisco Pinto Balsemão e Emídio Rangel.

Depois de ter lutado contra um cancro na bexiga diagnosticado há dez anos, o antigo director-geral da SIC e da RTP voltou a adoecer este ano. Depois de ter estado internado no Hospital de Santa Maria várias semanas, encontrava-se há 15 dias no Hospital Egas Moniz. O tratamento que estava a fazer ao fígado levou a que outros órgãos entrassem em falência.

O velório está marcado para as 17h de quinta-feira, na Basílica da Estrela, e a cremação do corpo será na sexta-feira, no cemitério dos Olivais, depois de uma missa na basílica às 12h.

Em Abril deste ano, Emídio Rangel falou ao PÚBLICO para contar a sua experiência como retornado, num trabalho sobre os últimos filhos do império.

Numa declaração enviada ao PÚBLICO, Francisco Pinto Balsemão diz lamentar a perda de Emídio Rangel. "Apesar das divergências que a partir de determinado momento tivemos e que foram públicas, quero sublinhar o papel fundamental que teve na história da rádio e da televisão privadas em Portugal, nomeadamente na construção da SIC", acrescenta o fundador da Impresa.

David Borges, antigo director da TSF, disse aos microfones da rádio que Rangel não foi apenas o fundador, mas sim o “criador”. Porque foi ele quem a “desenhou na sua cabeça e depois concretizou. Ao criar a TSF desenhou um novo paradigma da comunicação portuguesa.”

O jornalista, amigo pessoal de Emídio Rangel, recorda-o como uma pessoa “muito à frente do seu tempo”. Lembra o programa Nocturno que Rangel lançou na Rádio Comercial de Angola, “muito avançado para o modelo da rádio”. E diz que o fundador da TSF funcionava com base “em duas coordenadas”: como abordar um assunto que ainda não tenha sido falado ou como fazê-lo de forma diferente.

“Há um momento antes e um momento depois de Emídio Rangel” na comunicação social em Portugal, afirmou José Fragoso, antigo director da TSF àquela rádio, que está hoje a fazer uma emissão especial sobre o seu criador. O jornalista, que já passou também pela SIC, RTP e TVI com cargos de direcção de informação e de programas, considera Rangel um “visionário”, o “acelerador de partículas contra o cinzentismo da comunicação que se fazia em Portugal e contra o monopólio das rádios”.

Destaca o “carácter inovador” que Rangel imprimiu à TSF e depois também na informação da SIC, poucos anos depois. E lembra a iniciativa de enviar jornalistas para cenários de conflito e para grandes acontecimentos internacionais quando o resto da comunicação social estava ainda mergulhada num “atavismo”. Uma “vontade férrea de estar onde a coisa acontecia” que a TSF sintetizava na sua assinatura sonora “Vamos ao fim da rua, vamos ao fim do mundo”.

Numa nota no site da Presidência da República, Cavaco Silva lembra o “largo percurso profissional” de Rangel, cujo nome fica “ligado aos novos rumos do audiovisual em Portugal, tendo marcado com o seu exemplo várias gerações de jornalistas”.

O actual director-geral de Conteúdos da RTP, António Marinho, destacou na RTP Informação a capacidade de liderança de Rangel, um homem “muito sanguíneo” que “revolucionou completamente a comunicação social, quer na rádio, quer na TV”. A TSF “foi uma revolução na altura” e Rangel convidou para a sua estação os três editores das maiores rádios –Renascença, Antena 1 e Comercial.

A administração da estação pública, liderada por Alberto da Ponte prestou homenagem a Emídio Rangel, de quem diz ser “uma das maiores figuras do panorama audiovisual português”, um “nome incontornável nos media” e uma “referência da informação à direcção de programas”.

“Liderou e desenvolveu os projectos mais revolucionários das últimas duas décadas em Portugal. Soube inovar e contribuir, em muito, para a mudança na arte de fazer rádio e televisão. O seu saber e conhecimento constituem e constituirão um legado de enorme valor para o sector”, acrescenta a administração da RTP.