Lauren Bacall e a sua imagem, receita para um ícone de estilo

Uma mulher alfa que atordoou studio system, uma ex-modelo rara que recusou a imagem do “espectáculo”.

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A imagem de Bacall oscila entre os ditames dos estúdios e o seu estilo pessoal Splash News/Splash News/Corbis
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Bacall na praia Splash News/Splash News/Corbis
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Imagem promocional de Bacall DR
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A imagem da actriz foi inicialmente comercializada como a de uma sedutora Sunset Boulevard/Corbis
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Bacall Sunset Boulevard/Corbis
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Bacall em Nova Iorque em Dezembro de 1981 Walter McBride/Corbis

Ainda assim, as críticas desse filme, Ter ou Não Ter, “declaravam que eu era uma combinação de Garbo, Dietrich, Hepburn com uma pitada de Mae West. Aquilo tudo. Convenhamos, isso simplesmente não é possível. E, claro, não durou”, disse ao Guardian em 2005. É que se a podemos associar a estrelas igualmente potentes como Greta, Marlene ou até à explosiva Marilyn Monroe com quem contracenou em Como Se Conquista Um Milionário (1952), “onde se encaixa” Bacall, pergunta Paulo Morais-Alexandre? “Não é a bomba, embora seja quase pin-up, mas também se veste de gamine…”, enumera o professor de Dramaturgia do Figurino e de História do Vestuário e da Moda na Escola Superior de Teatro e Cinema. Não sendo Greta Garbo, usa-lhe a bóina “e parece uma citação” a um dos seus ídolos, mas não é Garbo.

Os seus papéis iniciais moldam a sua imagem, a insolência incontornável, a sedução da afirmação. Alfa. Ou “aço com curvas”, nas palavras de Bogart, que conheceu então em Ter ou Não Ter (1944). Há uma década, Bacall comparava-se com a amiga Katharine Hepburn: “Ela era muito mais forte, muito mais opinativa do que eu sou ou alguma vez fui, e isso era considerado atraente nela. Mas não em mim”. O crítico de cinema do Guardian, Peter Bradshaw, discorda da estrela. “Bacall hoje parece tão única que é estranho pensar que foi inicialmente comercializada como um tipo Veronica Lake, uma persona reconhecível” pelo público, escreveu esta quarta-feira, “alguém que as mulheres fossem encorajadas a admirar, imitar e simpatizar”. Mas se “Bacall tinha a qualidade de estrela que era em parte ensinada pelos estúdios”, “também tinha um orgulho natural, uma sensualidade principesca natural”.

Para Paulo Morais-Alexandre, “olhamos sempre para ela, e não para a roupa. E isso não vem do star system, como com Dietrich, é da moda”, postula o professor. Lauren Bacall, aliás Betty Joan Perske, foi descoberta por Diana Vreeland, a mítica editora de moda da Harper’s Bazaar que revolucionou as revistas do sector. Apesar de a futura actriz achar que não era grande coisa como modelo - “era uma coisinha desengonçada de peito liso e pés grandes”, “nada parecida com as outras criaturas de aspecto fabuloso”, como disse ao Guardian – a sua beleza estatuesca e cabelo loiro ficaram na retina de Vreeland, que a fotografou para três edições consecutivas da revista americana, coroando-a com a capa da edição de Março de 1943.

Com a II Guerra em curso, Bacall era vista nessa capa pela mulher de Howard Hawks e o resto é história. E tal como ficou na retina de Vreeland, o criador de moda Manuel Alves enumera o que faz de Bacall uma das imagens mais inspiradoras do cinema – “uma imagem esguia, uma beleza extraordinária, a atracção do obscuro, do mistério, um olhar dramático, quase implacável, o andar, os cabelos, o movimento” - para depois estacar. “Às vezes parece que conseguimos pará-la, retê-la.”

Lisa Immordino Vreeland, casada com o neto de Diana e que co-realizou The Eye Has To Travel (2011), convidou Bacall para ser a voz de Diana Vreeland nesse documentário sobre a editora de moda – a actriz recusou. A realizadora conta ao PÚBLICO que nos arquivos de Vreeland há inúmeras cartas entre as duas, que ficaram amigas, e recorda que a editora dizia de Bacall: “Não era possível fotografá-la de forma errada”. “Para Diana Vreeland, ela corporizava uma beleza exótica e jovem, mas também sabia que seria uma grande estrela. Sempre adorou pessoas sofisticadas e que olham para a vida de forma diferente.”

Viveram “grandes aventuras” em sessões fotográficas mundo fora enquanto, devido à guerra, “a moda de Paris estava silenciosa”. “Lauren Bacall foi uma modelo tão importante quanto foi a actriz. Estava viva” em cada imagem, diz a realizadora. Bacall é um ícone, mas isso pouco tem a ver com vestuário. Ou melhor, podemos falar de moda e de Lauren Bacall, podemos associá-la a uma ou várias eras, mas ela é intemporalidade – que, já se sabe, é a verdadeira matéria-prima do estilo. Quando a revista Hollywood Reporter titula o seu obituário de Bacall descrevendo-a como “o ícone do cool de Hollywood”, é essa a imagem. Um cool sem esforço, mas cheio de personalidade.

Podemos lembrar que Bacall usou o famoso e disruptivo Le Smoking de Yves Saint Laurent (1966) numa altura em que isso desafiava mentalidades. Ou que era vestida por Normal Norell e calçada pela parisiense Mancici, que foi capa da Vogue Paris e que era amiga de Pierre Cardin ou de Jean Paul Gaultier - com quem foi à estreia de Pronto-a-Vestir (1944), a visão de Robert Altman do mundo da moda em que participou. Sabemos que foi uma designer de moda em A Mulher Modelo (1957) e que idolatrava Bette Davis, todo um outro ícone, e que adorava calças. Foi das primeiras a vestir imagens incomuns em estrelas do seu calibre como jardineiras ou macacões, mas também gostava de mostrar a barriga. A sua regra é “não ter de fazer muito à roupa”, como a cita a Vogue em 1959, num “descuido estudado”.

É um ícone, mas pelo conjunto, concordam Paulo Morais Alexandre e Manuel Alves. É a sua “corporalidade e fisicalidade que é absolutamente extraordinária”, diz o professor, e enquanto símbolo para o público do cinema e, mais tarde, da televisão e do teatro, “a imagem que temos dela não é de uma elegante” no sentido do adorno inatingível e do puro sonho de Hollywood. “Tem algo quase masculino, como um verdadeiro dandy – sabe as regras mas não as explicita, a regra básica para vestir no masculino. É uma elegância que nada tem a ver com o espectáculo”, remata, arriscando ainda que depois dos anos dourados, Bacall “não faz careira como actriz, mais como ícone”. “Uma mulher inteira, de quem a fotografia gostava - a fotografia queria-a. Era um todo, raríssimo”, completa Manuel Alves.

Robert Altman disse em 1997 que “ela nunca ficou presa em qualquer túnel do tempo. Pensem em quantas mudanças sociais e de atitudes ocorreram, e ainda assim Bacall permaneceu sempre única”.