Democrata, anti-republicana… liberal

A actriz de Ter ou Não Ter desde cedo assumiu a sua condição de liberal e a opção pelo Partido Democrata. Em 1947, deslocou-se com Humphrey Bogart a Washington a manifestar-se contra o macartismo e a Caça às Bruxas.

Foto
Lauren Bacall com o vice presidente Truman

“Sou totalmente democrata. Sou anti-republicana. E a única coisa que é preciso que saibam é que sou… liberal – a palavra ‘L’”. Esta é uma das afirmações mais citadas nas biografias da actriz de O Mundo é das Mulheres. Uma identidade que ela explicou melhor, um dia, em entrevista a Larry King na CNN: “Liberal é o melhor que se pode ser. Significa aceitar qualquer pessoa; significa que não tens uma mente tacanha”.

O episódio mais conhecido desta biografia, digamos “política”, de Lauren Bacall foi vivido ainda em conjunto com Humphrey Bogart: em 1947, aquele que era então o par mais mediático de Hollywood associou-se a meia centena de outras celebridades e deslocou-se a Washington para defender a Primeira Emenda da Constituição americana (a liberdade de expressão, de credo e de reunião) perante o famigerado processo da Lista Negra de Hollywood, ou da “Caça às Bruxas”, nome por que ficou conhecida a feroz perseguição que o senador McCarthy moveu a supostos militantes ou simpatizantes comunistas, no meio artístico e não só.

Mesmo se se afirmavam anticomunistas – e, mais tarde, Bogart chegou a admitir que ambos eram quase tão anti-comunistas como o director do FBI, J. Edgar Hoover; e a lamentar, por outro lado, que a sua manifestação tenha tido um efeito bastante limitado na salvaguarda da liberdade dos seus parceiros de Hollywood –, Bacall e Bogart acharam que o ataque que estava a ser desferido por McCarthy à comunidade artística feria não apenas a Constituição como o seu ideário democrata e liberal.

Após a morte de Bogart, em 1957, Lauren Bacall – que é prima direita do ex-Presidente de Israel, Shimon Peres – manteve bem vincada essa faceta democrata e mesmo anti-republicana. Um percurso que é possível seguir na fotogaleria publicada esta quarta-feira pelo site norte-americano Politico precisamente a recordar a cidadania política activa da actriz – e que começa bem mais atrás.

A primeira imagem remonta logo a 1945, pouco tempo após a estreia do seu filme de estreia, Ter ou não Ter, que assinalava também o início da parceria com Bogart. A 10 de Fevereiro, na cantina do Club Nacional de Imprensa em Washington, a jovem actriz de 20 anos é fotografia sentada, de pernas cruzadas, em cima de um piano que estava a ser tocado… pelo vice-presidente dos EUA, Harry S. Truman, do Partido Democrata – que em Abril seguinte haveria de assumir a presidência na sequência a morte de Franklin D. Roosevelt.

A fotografia fez manchetes em jornais do mundo inteiro. A jovem Lauren afirmava já aí a sua adesão ao Partido Democrata. Uma “militância” que viria a manifestar-se, depois, em ocasiões sucessivas, apoiando as candidaturas democratas ao Congresso e ao Senado de figuras como Adlai Stevenson (1953), William J. Van den Heuvel (1960) ou Ted Sorensen (1969), à Presidência, de Jimmy Carter e Walter Mondale (1976), e também a membros do clã Kennedy: Robert, na sua candidatura ao Senado (1965), e Edward, desde 1980 e em vários momentos da sua vida política até à homenagem que Barack Obama lhe prestou, em Março de 2009, num jantar na Casa Branca, logo no início do mandato do primeiro Presidente negro na história americana.

Uma conquista em que Lauren também participou, ao apoiar a candidatura de alguém que ela achava “brilhante” e que vinha marcar a diferença relativamente ao seu antecessor, Georges W. Bush, que a actriz considerava “um idiota”, que em oito anos na Casa Branca não chegara nunca a perceber o significado da arte.

Curiosamente, e até ao princípio da noite desta quarta-feira, não era conhecida nenhuma reacção oficial do Presidente Obama à morte da actriz. Algo que contrastava com o pronto comentário que, na véspera, a família Obama tinha feito a lamentar o desaparecimento de Robin Williams.

Este facto não deixou de causar estranheza na comunicação social americana, que, através de um artigo assinado por Tim Cavanaugh no site The National Reviey Online, realçava "o choque" que este silêncio presidencial estava a causar nos meios da indústria do cinema e do entretenimento.