As estafetas cinematográficas de Alex Ross Perry e Martín Rejtman

Dois bons filmes literários no concurso de Locarno passam de personagem em personagem com humor e atenção

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Listen Up Philip é a surpresa do concurso
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Dos disparos

O dispositivo é suficientemente invulgar para não ficarmos de sobreaviso quando aparece duas vezes no espaço de 24 horas. Aconteceu no concurso internacional de Locarno, em dois filmes que merecem mais do que a menção de passagem e que usam de modo inteligente a técnica da “estafeta”: isto é, começar a história numa personagem mas ir passando, “de mão em mão”, para outras que podem (ou não) ter a ver com a primeira, fazendo uma ronda (muito Ophulsiana) até voltar à personagem inicial.

Melhor Listen Up Philip, do americano Alex Ross Perry, do que Dos Disparos, do argentino Martín Rejtman, mas em ambos os casos com uma inteligência literata mas também cinematográfica, que sabe virar a seu favor os lugares-comuns do filme mosaico.

Para já, Listen Up Philip é a surpresa do concurso; Alex Ross Perry deixara-nos má impressão com a petulância hipster do contudo muito aclamado The Color Wheel, mas esta terceira longa vê o cineasta dar um salto de gigante, mesmo que ainda muito derivativo e com as arestas indie dos filmes anteriores bastante limadas. O realizador e argumentista convoca actores profissionais para um filme maneirista mas inteligente, saído dos seventies americanos filtrados pelo desconforto de Noah Baumbach (Listen Up Philip é uma versão masculina de Frances Ha se o seu herói fosse antes um Greenberg à potência mil).

O filme está igualmente cheio de referências àquele cinema Woody Alleniano e nova-iorquino onde tudo gira à volta da literatura, da academia, sendo a história de um jovem escritor (o Philip do título, Jason Schwartzman) a quem o estatuto subiu à cabeça e que tem de bater no fundo antes de voltar à superfície. A “estafeta”, aqui, é muito simples: embora o filme comece e acabe em Philip, Ross Perry desvia a história para mostrar as consequências da sua arrogância e do seu comportamento anti-social na namorada (Elisabeth Moss, da série Mad Men), nos colegas de profissão, no escritor que se torna no seu mentor (o galês Jonathan Pryce, no seu melhor papel em muitos anos).

Dos Disparos não se passa no meio literário, mas Martín Rejtman também é escritor e não é dispiciendo perceber que o seu filme podia ser o equivalente fílmico de uma colecção de contos ligados entre si. O ponto de partida da sua estafeta é um velho lugar-comum do cinema segundo o qual uma arma introduzida a certa altura na narrativa irá forçosamente ser usada antes do fim do filme: Rejtman resolve a questão nos primeiros dez minutos, pondo um adolescente de Buenos Aires a descobrir uma pistola na arrecadação e a dar dois tiros em si próprio.

O que se segue é o modo como o impulso curioso de Mariano (que, esclareça-se, sobrevive aos tiros em plena saúde) reverbera na família, nos amigos e nos desconhecidos com quem a família e os amigos se vão cruzando. Dos Disparos descreve esse efeito borboleta com um humor seco cujo “ferrão” apenas dá sinal com a acumulação de episódios e tiques, à beira de um absurdo suave e envolvente; mantém-se, talvez em demasia, um filme em lume brando, faltam-lhe as “arestas” que Ross Perry limou para Listen Up Philip, mas é também essa descontracção de quem está a desfrutar da viagem que o torna interessante.