Rita Salomé Esteves
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Rita Salomé Esteves

Internet: os “trolls” só se querem divertir?

Não perdem uma oportunidade de fazer um comentário irónico, destruindo discussões online com poucas palavras. Um estudo canadiano sugere que os “trolls” da Internet têm características de sadismo. Afinal, são sociais ou anti-sociais? Opiniões dividem-se

Não têm uma massa ou um martelo na mão, como os “trolls” da cultura popular, mas o efeito que espoletam é semelhante. Tal como as criaturas escuras e de cara feia que aterrorizavam histórias infantis, o que os “trolls” da Internet melhor sabem fazer é destruir. Conversas, momentos, grupos, comunidades online ou caixas de comentários: tudo serve para um comentário irónico, agressivo e aparentemente sem qualquer sentido. “O ‘troll’ é aquele ser (...) que parece ser movido por nada mais do que a destruição total de tudo o que está à sua volta. E essa é a transposição para a Internet”, explica Gustavo Cardoso, do ISCTE.

Um “troll” é, explica o investigador, “alguém caracterizado por estar num qualquer tipo de espaço de interacção, no quadro da Internet, e sistematicamente parar para destruir tudo o tipo de comunicação”. Vive de criar confusão, “sendo que pode chegar ao limite de destruir aquela própria rede ou comunidade online”. Não quer defender uma posição nem ser convencido pelas opiniões de outras pessoas; só está interessado em destrui-las. Como lidar com um "troll"? A resposta unânime é: ignorando-o. Daí a expressão, em jeito de "meme": "Please don't feed the trolls" ("Por favor, não alimentem os 'trolls'").

“Trolls just want to have fun” (algo como “Os ‘trolls’ só se querem divertir”) é o título de um estudo — publicado em Fevereiro de 2014 por um grupo de investigadores canadianos da Universidade de Manitoba liderado por Erin Buckels — que se debruça sobre este tipo de comportamento. Buckels e os colegas recorreram a um site da Amazon, o Mechanical Turk, para a realização de um inquérito que pretendeu avaliar as variáveis negras da personalidade: narcisismo, maquiavelismo, psicopatia e sadismo. Obtiveram 418 inquéritos válidos, provenientes de cidadãos dos Estados Unidos da América que responderam a questões sobre hábitos de comportamento online. A maioria eram homens, com um média etária a rondar os 29 anos. Desses 418, 5,6% admitiram gostar de “trollar” outros utilizadores.

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Internet, o recreio dos "trolls" 

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As conclusões apontaram uma correlação “forte” entre “trolls” e características típicas de narcisismo, maquiavelismo, psicopatia e sadismo [vê gráfico ao lado]. Segundo Buckels, “personalidades obscuras deixam pegadas digitais maiores”. O prazer em “trollar” foi, assim, particularmente relacionado com uma personalidade sádica, sugerindo que muitos dos “trolls” o serão, também, na vida real. “Afinal, a cultura de ‘trolling’ abrange um conceito virtualmente sinónimo de prazer sádico: em linguagem ‘troll’, ‘lulz’”, continua. “Os sádicos só se querem divertir... e a Internet é o seu recreio!”, conclui, em jeito de brincadeira, a investigadora.

O humor é, também, um aspecto relevante do comportamento destes sujeitos. Adriana Amaral, investigadora da Universidade Vale do Rio dos Sinos, no Brasil, que se dedica ao estudo de comportamentos online, aponta para o facto de, no seu país, os “trolls” terem “virado uma coisa muito mais de diversão e brincadeira”. “Muito mais do que algo relacionado com ‘bullying’, como na literatura anglo-saxónica”, diz. A agressividade inerente ao comportamento dos “trolls” nas antigas listas de discussão e fóruns, sugere, transformou-se em humor. “No comportamento dos brasileiros, definiria ‘troll’ como uma pessoa que pega num acontecimento do quotidiano e o transforma em algo cómico. Cria um ‘meme’ ou um Tumblr, trazendo críticas, acidez e sarcasmo — mas com humor.”

“Na vida real, estas pessoas já têm este tipo de humor, mas na Internet fica mais fácil”, remata. Os “trolls” podem ser de “todas as idades e classes sociais”, mas nos estudos de Adriana Amaral evidenciam-se indivíduos mais jovens, no máximo até aos 40 anos. Assuntos polémicos são os favoritos: o casamento homossexual, o aborto e a legalização das drogas leves são alguns dos temas que a investigadora refere.

A ideia de destruição está sempre presente quando o assunto são “trolls”. Diz Erin Buckels que eles “partilham muitas características do clássico vilão Joker”: tal como esta personagem, “os trolls” operam como agentes do caos na Internet, explorando assuntos 'hot-botton' para fazer com que os utilizadores pareçam, de alguma forma, demasiado emocionais ou tolos”.

É importante, contudo, distinguir este tipo de comportamento online de outros, como o de indivíduos que praticam “ciberbullying”. “Os aspectos perturbadores falsos e inúteis podem distinguir o ‘trolling’ de outras formas de comportamento anti-sociais, como o “ciberbullying”, no qual a identidade do perpetrador é, normalmente, clara e cuja intenção é mais directa”, escreve Buckels. Também Adriana Amaral realça a necessidade de distinguir “trolls” de “haters” e de “anti-fãs”: todos actuam online, mas com objectivos distintos.

Seres sociais ou anti-sociais?

Segundo o “The New York Times”, no texto “The Trolls Among Us” de 2008, a palavra “troll” foi usada pela primeira vez no contexto da Internet no fim da década de 80 do século XX. O conceito foi adoptado para “indicar alguém que perturba intencionalmente comunidades online”. No início, continua o autor Mattathias Schwartz, o “trolling era relativamente inócuo”. Os “trolls” empregavam, defende a professora do MIT Judith Donath, “uma táctica ‘pseudo-ingénua’, fazendo perguntas estúpidas à espera de ver quem “mordia o isco”. Hoje em dia, “a Internet é muito mais do que fóruns de discussão esotéricos” — e a evolução da Internet implicou, também, a evolução dos trolls.

Se, no início, o anonimato era uma característica relevante, actualmente um “troll” não quer esconder-se atrás de um perfil falso, defende Adriana Amaral. Gustavo Cardoso concorda e explica porquê. “Estas pessoas procuram espaços comunicativos por excelência e, portanto, procuram estar no meio dos outros, dar nas vistas. E parte da satisfação que obtêm é, precisamente, a destruição do que os outros estão a fazer — mas desde que haja reconhecimento. Se forem expulsos desses espaços, o próprio prazer da actividade de ‘troll’ (...) também desaparece.”

Daí que o docente universitário discorde, à partida, de algumas das conclusões do estudo canadiano. Ao remeter o “troll” para uma “situação anti-social”, a investigadora canadiana afasta-se daquilo que Gustavo Cardoso considera ser uma das características fundamentais destes indivíduos — pelo menos no panorama português. “O ‘troll’ é alguém iminentemente social, não é anti-social. Ele ou ela vivem da capacidade de colocar as outras pessoas em cheque e de tentar destruir as conversas dos outros”, sublinha, pelo que “colocar em causa as relações” não faz parte dos seus interesses.