Há pais que não desesperam quando os filhos não vão para o ensino superior

Falta de recursos financeiros e descrença na mais-valia de um curso superior no mercado de trabalho levam famílias a aceitar sem reservas que os estudantes optem por não se inscreverem numa universidade ou instituto politécnico no final do ensino secundário.

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Manuela Costa Dias: “Universidades são apenas ferramentas sociais” Daniel Rocha

“Julgo que os meus filhos foram para o ensino profissional uma vez que têm noção que não lhes posso financiar um curso superior”. Rosa (nome fictício), é professora do 1º ciclo do ensino básico. O filho mais novo tem 21 anos, idade para estar numa licenciatura. O mais novo, com 16, está perto disso. Escolheram ambos um curso profissional para concluir o ensino secundário.

Depois de 11 anos de trabalho no ensino público com contratos sucessivos, a mãe ficou sem colocação. Está divorciada e é pouco o rendimento mensal que entra em casa. E estas dificuldades financeiras parecem ter moldado as decisões escolares dos dois rapazes.

O filho mais novo de Rosa vai fazer um curso de informática e telecomunicações, uma decisão tomada a pensar no futuro profissional. A mãe cita-o: “Se eu não entrar na faculdade, ou se não puder ir, ao menos posso trabalhar numa área que está a ser muito  recrutada”. O irmão pensou da mesma forma quando fez o curso profissional de mecatrónica de automóveis. “O meu filho acabou o secundário mas não vai para a universidade. Porquê?”. “Porque precisamos de sobreviver”, responde Rosa.

A mesma pergunta foi lançada pelo PÚBLICO, ao longo da última semana, aos seus leitores, através das redes sociais. De entre as dezenas de respostas recebidas, emergiram duas grandes tendências. Por um lado, casos como o de Rosa: famílias sem condições económicas para terem os filhos numa universidade, acabando por encaminhá-los, desde cedo, para o ensino profissional, antecipando uma entrada antecipada no mercado de trabalho. Por outro, os relatos de descrença no ensino superior e na mais-valia que uma formação pode significar para o futuro dos jovens. Comum a todos era a ideia de que não prosseguir os estudos não é uma fatalidade.

“As universidades são muitas das vezes apenas ferramentas sociais. O conhecimento pode adquirir-se mesmo não estando numa universidade”, defende Manuela Costa Dias, 62 anos. “Tudo depende da força de vontade, e da sede de conhecimento”, acrescenta. Esta reformada da Administração Pública viu o filho Rúben partir, há seis anos, para trabalhar numa multinacional de informática sediada na República Checa. Uma porta que acredita ter sido aberta pelo curso de Programação e Desenvolvimento feito na Escola Profissional Gustave Eiffel, na Amadora. Para a família essa opção de formação “traria mais vantagens, caso não quisesse prosseguir para um curso superior”. Findo o 12º ano, não quis fazê-lo. “Na altura, pensou talvez, mais na sua independência, mas até hoje não se tem mostrado interessado”, conta Manuela.

O discurso de descrença pode ser resumido por uma afirmação de Venilia Santos: “Não há garantia na maior parte dos cursos que se consiga emprego. São demasiados os casos que nos rodeiam”. É engenheira civil, tal como o marido. E um caso como este contraria os estudos científicos e os relatórios oficiais dos últimos anos, que apontam no sentido de ser “minoritária a franja de filhos de diplomados que não são também diplomados”, lembra a socióloga da Educação da Universidade do Minho (UM), Fátima Antunes.

A especialista admite, porém, que estes possam ser reflexos das alterações que os últimos anos de crise vieram provocar na sociedade. “Vivemos uma situação absolutamente nova que é a de termos uma grande franja da classe média numa situação de grande incerteza”, ilustra, dando como o exemplo os cortes salariais na função públicas “inéditos nesta geração” e que apanharam todas as famílias de surpresa. O choque com esta realidade poderá ter levado a “tomadas de decisão inesperadas”.

Apesar da inversão de tendência no concurso nacional de acesso ao ensino superior deste ano, nos cinco anos anteriores o número de candidatos às universidades vinha diminuindo (ver texto na página seguinte). Este ano, no momento da inscrição nos exames nacionais do ensino secundário deste ano, mais de metade (56%) dos alunos declararam que pretendiam ingressar numa universidade ou politécnico no ano lectivo seguinte. O número representa uma quebra de um ponto percentual face ao ano anterior, correspondendo a menos 3100 estudantes interessados em prosseguir estudos para além do 12.º ano, seguindo-se a uma quebra de 4 pontos no ano anterior.

“A disponibilidade dos jovens que terminam o ensino secundário (mas também das respectivas famílias) para se candidatarem ao ensino superior é fortemente condicionada pelo ambiente geral criado em torno da valia futura que a formação superior pode proporcionar”, reconhece o presidente Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior (CNAES), João Guerreiro. Essa percepção tem sido, nos últimos anos, “volátil”, considera, atribuindo a essa percepção a responsabilidade pela variação negativa do número de candidaturas nos últimos anos.

Desde 2008 que os estudantes demonstram também cada vez menos interesse em prosseguir estudos para o ensino superior, como revelam os inquérito aos estudantes à saída do secundário publicado pela Direcção-Geral das Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC). A maioria dos alunos aponta motivos económicos para não o fazer. O peso dos factores económicos nesta escolha é também sublinhado num inquérito patrocinado pela Comissão Europeia, que foi divulgado no início do ano e que coloca Portugal como um dos países com umas das mais altas percentagens de jovens que queriam prosseguir os estudos, mas não têm possibilidade de os pagar – 38%.

Os pais de muitos dos estudantes que estão agora em idade de se candidatarem ao ensino superior “vinham de uma trajectória de mobilidade social ascendente”, lembra Paulo Peixoto, do Observatório de Políticas de Educação e Formação da Universidade de Coimbra. A conclusão de uma licenciatura foi, para essa geração, “a chance de entrada num percurso profissional melhor”. O sociólogo encara, por isso, como “natural” que haja um desencanto em relação ao ensino superior ao verem que “aquilo que lhes garantiu o seu sucesso não pode garantir mais aos filhos”.

Apesar de tudo, para o especialista, o ensino superior “ainda tem um valor simbólico muito grande”. É isso que leva as famílias a continuarem a fazer esforços para terem os seus filhos numa licenciatura, seja por via de empréstimos bancários ou de mecanismos de ajuda familiar, explica. É o caso de Fernanda Rodrigues, desempregada, do Barreiro. Por via das dificuldades familiares da família, espera que o filho Filipe, candidato a um curso superior da área de Biologia, tenha bolsa de acção social na universidade: “Para já tem o necessário para as primeiras propinas e arranque. Em último caso pedimos um empréstimo”.

Se conseguir entrar no ensino superior, será o primeiro dos quatro filhos de Fernanda a Fazê-lo. No tempo em que o mais velho – Hugo, 36 anos – podia tê-lo feito, “tinha mais peso ter um curso superior”, acredita. Os outros dois – José, com 26, e Carlos, 18 – também nunca foram além do Secundário. Estão os três a trabalhar e podem ser uma ajuda, caso seja necessário para financiar a frequência do mais novo da família. “Os irmãos apoiam-no incondicionalmente. Ele é o pequeno génio da família”.