Divulgado email do CEO da Hachette para escritores e leitores apelarem ao fim do conflito com a Amazon

Neste domingo vai ser publicada uma carta aberta assinada por quase mil autores no New York Times. Amazon divulgou contacto do representante máximo da Hachette nos Estados Unidos.

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Amazon quer margens de lucros maiores Reuters

É mais uma carta, mais uma acção pública na já longa batalha entre a Amazon e a editora Hachette, que tem vindo a prejudicar os escritores. É por isso que neste fim-de-semana foi lançado um novo apelo, assinado por mais de 900 autores, entre os quais John Grisham, Stephen King, Michael Chabon, Nora Roberts e Donna Tartt, a pedir o fim da disputa sobre os preços dos livros. E a Amazon divulgou o email do responsável editorial da Hachette nos EUA para que os leitores escrevam, pressionando pelo fim do conflito.

Se de um lado, os escritores pedem o fim desta guerra comercial, do outro nem a Amazon nem a Hachette estão dispostas a ceder nas negociações, que têm prejudicado a venda dos livros online. Como forma de protesto, os peticionários da acção vão publicar na edição de domingo do New York Times uma carta, que também foi enviada para o fundador da Amazon, Jeff Bezos, a pedir o fim desta guerra, que se arrasta há já quatro meses.

Em resposta, a Amazon divulgou neste sábado um comunicado a afirmar que "não abandonará o combate pelos preços razoáveis dos livros electrónicos". "Estamos convencidos de que tornar os livros acessíveis é bom para a cultura. Por isso, precisamos de vocês. Por favor, escrevam para a Hachette", lê-se na nota que divulga o email de Michael Pietsch, CEO da Hachette. Com isto, a Amazon espera que Pietsch, que deverá ficar com a caixa do correio repleta de mensagens, se sinta pressionado a chegar a um acordo.

Em Maio, começaram os sinais. A Amazon dificultava a compra de livros da editora no seu site americano, eliminava descontos e mesmo certos títulos da Hachette. Dilatava para semanas prazos de entrega que normalmente são de um dia e bloqueava a possibilidade de fazer a pré-compra de publicações muito esperadas como o novo policial de J.K. Rowling, The Silkworm, escrito sob o pseudónimo Robert Galbraith. De acordo com a Hachette, em causa estão mais de 5000 títulos do seu portefólio, que inclui também Malcolm Gladwell, Colbert ou Joshua Ferris.

A querela terá a ver com os termos de um novo acordo de vendas de ebooks e estima-se que a Amazon estará a tentar aumentar as suas margens de lucro – o que diminuirá a receita da editora.

O problema parece não se resolver em breve. Os responsáveis da Hachette, que é um dos maiores grupos editoriais do mundo, já disseram que aceitar as propostas da Amazon, cujos termos contratuais não são exactamente conhecidos, seria suicídio. Enquanto a Amazon acusa a Hachette de usar os “os seus escritores como escudos humanos”.

Os autores, intitulados Authors United [Autores Unidos], dizem nesta carta, também disponível online, já ter sido suficientemente prejudicados numa batalha que não lhes diz respeito. “Pedimos à Amazon que resolva esta disputa com a Hachette sem causar mais danos" e "sem bloquear ou demorar a venda dos livros aos consumidores”, lê-se no documento, que começou a circular no meio literário em Julho, iniciativa do escritor Douglas Preston, que tem incentivado também os leitores a fazerem pressão sobre Bezos.

Numa entrevista à Saloon, Preston explicou ter escrito a carta e passado a meia dúzia de amigos, nunca esperando que em dias esta se tornasse viral, reunindo centenas de assinaturas. O norte-americano diz que os escritores estão cansados daquilo que diz ser uma acção de “bullying” por parte da Amazon. “Sempre que têm dificuldades em negociar com uma editora, usam os livros dos autores para uma retaliação selectiva”, explica o escritor, para quem é importante lembrar que foram os escritores que tornaram a Amazon numa das maiores empresas do mundo. “Nunca vi os autores unirem-se desta maneira – jornalistas, escritores de ficção. Isto vai parar. A Amazaon vai ter de negociar com as editoras para sempre. Vão atingir os autores sempre que aparecer um problema com uma editora?”, continua.

“Preferiria estar a escrever os meus livros, ir de férias com o meu filho”, acrescenta ainda Douglas Preston na mesma entrevista. “Não sou um incendiário, caí aqui acidentalmente.”

Para já, este braço-de-ferro afecta apenas os Estados Unidos, onde a Amazon controla 65% do mercado de livros electrónicos, mas vários especialistas temem que a raiz do problema se venha a reflectir e ramificar noutros mercados pelo mundo.