Entrevista

A salvação num par de canções

Nascidos para que Leo Dobson e Ben Romans-Hopcraft não desmaiassem de tédio durante os tempos de universidade, os Childhood estreiam-se com um glorioso conjunto de canções sob o signo da nostalgia.

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A sempre expectante imprensa britânica aclamou os Childhood como a banda de guitarras capaz de finalmente salvar o pop/rock nacional DR

Naquela cena final de O Amor é um Lugar Estranho em que as personagens de Bill Murray e Scarlett Johansson se afastam, e a surdez das palavras é comida pelas guitarras saturadas e a voz de Jim Reid num sopro nostálgico cantando Just like honey, poderemos a partir de agora facilmente imaginar os Childhood no lugar dos Jesus and Mary Chain. “O filme tem uma série de sentimentos de perda e de vazio que se vão empilhando e aumentando a ideia geral de estar perdido” – assim se justifica tal enunciado teórico pela voz de Leo Dobson, metade do par fundador do grupo londrino. Para o guitarrista, qualquer um dos temas de Lacuna, disco de estreia agora lançado, poderia tomar de assalto essa posição, esse instante encenado de uma rebentação emocional sob a forma da nostalgia por algo que poderia ter sido mas não foi – “é um sentimento muito presente nas nossas letras”, admite Dobson.

Blue velvet, tema de abertura de Lacuna, uma das mais arrebatadoras canções nascidas em Inglaterra nos últimos 20 anos – ou não andasse esta gente com a cabeça trancada nos anos 80 e 90 do seu país musical –, será certamente objecto para chocalhar o coração de Sofia Coppola. Pense-se nos Jesus and Mary Chain, naturalmente, mas mais ainda nos Stone Roses ou noutra qualquer outra banda em que sejam as guitarras a alombar com canções em que a melodia é colocada a pairar sobre tudo o resto.

A nostalgia, a mesma nostalgia sentida precisamente “enquanto estava a acontecer”, tal como a recordava há um mês Mário Lopes neste mesmo Ípsilon pela boca do Manic Street Preacher Nicky Wire – a propósito da compilação C86 –, está inscrita na identidade dos Childhood desde o início, desde a escolha do nome da banda pelo vocalista Ben Romans-Hopcraft. Quando numa noite de copos avistou a guitarra cheia de pó de Dobson encostada à parede do seu quarto numa residência da Universidade de Nottingham, foi isso que Ben lhe disse: “Queres ter uma banda comigo chamada Childhood?”. O nome, essa nébula de recordações mais ou menos felizes, mais ou menos fantasiadas de um tempo romantizado como pouco permeável a preocupações para lá das atribulações dos recreios e das sopas à mesa, dava então pistas para uma encenação musical dessa nostalgia que, na altura, seria pouco mais do que uma miragem. “Eu nunca tinha sequer tentado compor uma canção na minha vida”, confessa Dobson. “Acho que tivemos alguma sorte no início pelo facto de estarmos sintonizados em termos melódicos e naquilo que fazíamos nas guitarras." E o nome, sim, recorda à distância, talvez o tenha ajudado a deixar-se convencer e a partir para uma banda nessa ignorância total do que significava inventar canções. Mas é possível que a resposta pronta de que Romans-Hopcraft podia contar com ele e o enamoramento imediato pela palavra Childhood fossem ajudados pelo álcool que lhe guiava, nessa noite, as palavras. Isso e, claro, a descoberta em Ben de outro entusiasta da sonoridade dos Deerhunter.

Amparados pelos conhecimentos básicos de Ben em produção e na montagem de uma canção, foram percebendo “as fraquezas e as forças um do outro, fortalecendo as fraquezas” e criando os primeiros antídotos para o tédio que transbordava para as suas vidas a partir do percurso académico. Para Leo Dobson, a música havia de salvá-lo de entrar em estado comatoso de tanto se aborrecer com o curso de História de Arte. “Foi muito bom ter algo com que pudéssemos ocupar as nossas cabeças que era genuinamente excitante e criativo. Acho que teria ficado embrulhado num impasse, sem saber o que fazer à minha vida se não fossem os Childhood.”

A mão providencial da Internet, como acontece com quase todos os casos de sucesso nos tempos que correm, havia fatalmente de dar o empurrão definitivo na formação da banda. Armazenadas num servidor algures, as primeiras canções a dois acabariam por atrair alguma atenção de imediato e surgiriam as primeiras propostas para concertos. A partir daí, a máquina estava em movimento e seria pouco esperto para dois seres aborrecidos perante a iminência de serem sugados pela vida adulta colocarem um pauzinho na engrenagem. Daí até ao anúncio solene por parte do New Musical Express de que estava encontrada mais uma venerável candidata à desatinada busca inglesa pela nova banda de guitarras que vai salvar o pop/rock nacional não passou sequer um ano. E em Outubro de 2012, perante o single de Blue velvet, também o Guardian se juntava à euforia aclamando os Childhood como a provável “banda indie britânica que soa como se fosse realmente capaz de cumprir aquilo que o mundo espera”. O mundo, na verdade, não esperava assim tanto. A imprensa britânica, a salivar por essa coroa aos caídos desde que Blur e Oasis deixaram de se esmurrar verbalmente e a desesperar com aquilo que sobra de uma pop incapaz de inspirar multidões (de qualidade duvidosa e pouco além de canções gastas e sem pingo de imaginação), esfregou as mãos de contentamento.

“É ridículo pensar que o país precisava de algum salvador para a sua música feita de guitarras”, desabafa Dobson, pouco confortável com essas expectativas desproporcionadas pelo simples facto de não terem teclados nas pontas dos dedos. Mal acabados de nascer, parecia que aos Childhood era já exigido, sem que pouco tivessem feito para isso, que não ousassem ofender a memória de Beatles, Kinks ou Small Faces. “Só podemos reagir às gargalhadas e continuarmos a fazer o que fazemos. Até porque é acidental que toquemos guitarras.” Pode até ser acaso que o entusiasmo pelas bandas anos 60 de Dobson e a obsessão de Romans-Hopcraft pela Motown, num improvável encontro patrocinado pelos Deerhunter, possa não passar de um mero acidente. Ambos recusam um interesse especial em hip-hop ou em música electrónica, e só nos últimos meses, garante Leo, é que começaram a achar alguma piada a trip-hop. Mas o facto é que as guitarras estão lá, são britânicas até ao osso e citam, mesmo que de forma involuntária, o melhor património imaginável. “Somos muito comparados aos Stone Roses, mas acho que quando nos conhecemos não os tínhamos ouvido sequer”, confessa o guitarrista. “Claro que os respeitamos como banda, mas não me parece que se infiltrem em qualquer ponto do nosso processo criativo.” Para forçar o argumento, recorrem, por vezes, ao absurdo, respondendo Bon Jovi ou Whitesnake como influências quando lhes falam pela enésima vez de Stone Roses. A conclusão é apenas essa: para Leo e Ben, uns estão tão fora da equação quanto os outros. Mas oiça-se Blue velvet e ninguém os confundirá com os autores de Here I go again ou Lay your hands on me.

Para lá do segundo single

A expectativa crescente sobre a edição de Lacuna foi assim crescendo à medida que os Childhood iam deixando escapar pequenas delícias como Blue velvet ou Solemn skies, canções grandiosas, de refrães a rasgar o céu e a pingar a tal nostalgia de que se falava no início, com melodias daquelas que se ouvem uma vez e ficam a ressoar dentro da cabeça horas a fio – só dando descanso com audições sucessivas que apenas comprovam a chegada de um novo vício. Depois, já a funcionar num quarteto estabelecido, haviam de aguçar ainda mais a curiosidade sobre o disco de estreia ao partilharem Pinballs, canção avulsa de uma pop que, pela primeira vez, se mascarava de transe e baralhava as certezas acerca daquilo que poderia ser o álbum do grupo. Sem surpresa, o produtor era Dan Carey, homem que dirigira as sessões de estúdio dos Toy, essa gente que glorifica shoegaze e kraut-rock de uma só penada. Carey é também o produtor de Lacuna, escolhido não só pela associação aos Toy, mas igualmente por ter produzido Kylie Minogue, garante Leo Dobson. Pinballs, por seu lado, acabou por ficar de fora, substituída por When you rise, que decalca o mesmíssimo espírito.

Lacuna vale-se dessa inteligência de não tentar replicar uma e outra vez a grandeza impositiva de Blue velvet e Solemn skies, que a maior parte das banda passa toda uma vida a tentar fabricar e esta gente de 20 e poucos anos conseguiu dobrar no seu disco de estreia. Em vez disso, em vez de ficarem a farejar a própria cauda em círculos intermináveis, os Childhood aventuram-se pelo psicadelismo de forma notável em Right beneath me e juntam a essa abordagem restos de soul e uma caixa de ritmos na soberba dança em câmara lenta de Tides. Juntamente com as esquinas mais narcóticas de Falls away, são esses caminhos que Leo Dobson antecipa poderem estar a desenhar-se no futuro dos Childhood. Mas, na verdade, esta banda ainda vai na sua primeira infância e é difícil perceber o que quererá ser quando for grande. Nem sabemos, aliás, se está preparada para sobreviver. Mas Lacuna, para já, é um dos mais estimulantes discos pop de guitarras que Inglaterra pariu nos últimos anos. Dos poucos a não bater com os queixos no chão ao segundo single