Crítica

Álbuns de fotografias

Memórias dos filhos da Guerra Colonial.

Foto
As fotos que os soldados portugueses trouxeram de África constituem, para as famílias que tiveram depois, a principal prova material das suas vidas passadas

Como é que a Guerra Colonial afectou as filhas e os filhos dos ex-combatentes? De que forma é que as suas experiências, os seus traumas e as suas memórias de infância foram marcados por pais que voltaram de África depois de terem participado na guerra? Como é que estas mulheres e estes homens que agora têm entre 30 e 50 anos e que, nalguns casos, são também mães e pais, convivem com um acontecimento que para eles não é apenas um tema histórico mas sim uma história de família?

Muitos desses filhos referem não ter estudado na escola a Guerra Colonial. A sua guerra foi aprendida lá em casa. Como algo distante e oculto, um tabu que só por vezes surgia no quotidiano familiar. Outras vezes, deixando marcas violentas, como quando as “perturbações pós-stress traumático de guerra” se manifestavam cruamente em agressões físicas contra as mães ou contra os filhos. Outras vezes, ainda, a memória da guerra foi transformada em iniciativas construtivas, como o caso do médico que foi fazer voluntariado para a Guiné, 40 anos depois de o seu pai lá ter estado.

Através das histórias de 12 filhos da guerra em 12 capítulos, a jornalista Catarina Gomes parte do particular para o geral, da história e das memórias de cada um para temas transversais. A autora procurou a diversidade. Além dos filhos, brancos, de soldados portugueses, apresenta o caso do filho de um soldado negro guineense a combater do lado português, que sofreu toda a vida o estigma da sua identidade ambígua, quer na Guiné, quer em Portugal; o de uma mulher nascida da relação entre uma jovem guineense e um soldado português (o tema foi desenvolvido no PÚBLICO por Catarina Gomes, Ricardo Rezende e Manuel Roberto, numa reportagem recentemente premiada, Os Filhos do Vento: Em busca do Pai Tuga); e o de um filho de uma enfermeira-paraquedista, representativa das primeiras mulheres nas forças armadas portuguesas.

O outro lado, ou seja, o lado dos filhos dos que combateram contra os portugueses, no lado da resistência armada ao colonialismo e em prol da independência dos seus países, não é tão explorado num livro que claramente se centra nos filhos da guerra que hoje vivem em Portugal. Apenas um caso, comovente, remete para esse outro lado da barricada: Pedro Luqueia de Santarém, o menino negro encontrado sozinho no mato em Angola por um grupo de soldados portugueses, proveniente da cidade que lhe deu o apelido. Hoje, Pedro é um engenheiro de 50 anos, pai de dois filhos, a viver em Portugal desde — quase — sempre. É neste “quase”, na sua primeira infância em Angola, que se centram as suas inquietações e a sua dor, feita de interrogações mais do que de respostas. Perdido da família, provavelmente num momento de fuga face ao ataque das tropas portuguesas, os militares tomaram conta dele e, mais tarde, enviaram-no para o Norte do país, onde a mãe de um deles o recebeu até ao seu ingresso, com nove anos, nos Pupilos do Exército. 

Catarina Gomes consegue expor a ambiguidade de sentimentos de um homem cuja vida foi definida pela Guerra Colonial: por um lado, o reconhecimento àqueles soldados que tiveram a sua vida nas mãos e escolheram adoptá-lo, à sua maneira, e darem-lhe uma oportunidade de estudos, longe do cenário de guerra, naquela que era ainda a metrópole colonial; por outro, a dor da perda, e sobretudo a dor de não saber bem o que perdeu e porque se perdeu. A possibilidade de os pais terem estado envolvidos nos movimentos de resistência angolana, a memória turva do momento em que os pais teriam ido à sua procura no acampamento, as recordações toscas de uma infância onde sentira a violência da guerra mas também o afecto familiar, e relativamente à qual uma das poucas certezas é a de saber que não foi abandonado nem órfão. A outra certeza é a de ter sido fotografado, com quatro anos, vestido de soldado português, a fazer a continência. A sua história e a sua identidade, e sobretudo as suas lacunas, estão marcadas directamente pela Guerra Colonial. Nos outros casos narrados em Pai, tiveste medo?, os protagonistas viveram a guerra indirectamente, através dos comportamentos, memórias e experiências dos seus pais, e num dos casos, da mãe.

Um elo comum a todas as histórias é a fotografia. As fotografias que os pais trouxeram de África e que se constituem na principal prova material daquele momento da vida em que milhares de homens portugueses tiveram de transformar-se em soldados. Para os filhos, muitos nascidos depois da guerra, as fotografias dos pais em Angola, Moçambique ou na Guiné serviram de intermediários com esse seu passado. A atitude em relação à fotografia é que é distinta de caso para caso: nalgumas famílias, as imagens estavam escondidas, em caixas ocultas, como se assim também fosse possível conter as memórias que não se queriam reviver. As crianças não tinham autorização para abrir estas caixas de Pandora, onde os males do mundo se queriam encerrados.

Noutras famílias, porém, os pais partilhavam com os filhos os álbuns fotográficos. E o confronto com as fotografias despoletava a narrativa oral contada de pais para filhos ou as perguntas de filhos para pais. Os arquivos pessoais da Guerra Colonial ainda não estão em arquivos e bibliotecas públicas, mas sim nas casas particulares de quem a viveu. São, no entanto, cada vez mais, considerados objectos históricos relevantes para se fazer a História deste período. A literatura já o faz desde há muito — veja-se o mais recente romance de Lídia Jorge, Os Memoráveis, em que a fotografia surge como fio condutor de uma história sobre o 25 de abril.

O acesso a estes documentos materiais — fotografias, recortes, correspondência, diários, memórias — está dependente da vontade dos seus autores e protagonistas. E esta vontade tem, naturalmente, de ser respeitada. Tal como acontece com a história oral. Catarina Gomes assume a inspiração suscitada pelo projecto de investigação dirigido por Margarida Calafate Ribeiro sobre Os filhos da guerra colonial: pós-memória e representações, centrado nas entrevistas a filhos de ex-soldados. Mas para que as casas (as fotografias, os diários, a correspondência) e as memórias (as histórias de vida contadas a partir de experiências pessoais) abram a sua intimidade à História, cabe à própria historiografia valorizar estas abordagens e estes documentos. Pois o que é pessoal ou privado também é político. Neste aspecto, a História contemporânea tem a aprender quer com as abordagens da antropologia, quer com aquelas do jornalismo de investigação, como acontece neste livro.

Esta obra interessa a todos aqueles que, como a própria autora, tiveram pais a combater na guerra colonial e cujas infâncias foram mais ou menos marcadas por esse facto. Tal como poderá interessar aos pais que têm dificuldade em lidar com as suas memórias e em transmiti-las aos filhos, bem como àqueles “pais que tiveram medo”, mas que também suscitaram medo naqueles que, com a guerra, de “portugueses negros” passaram a ser inimigos. Para lá do carácter empático, nostálgico ou catártico das múltiplas publicações — em livros, jornais ou blogues — que nos últimos anos têm trazido a público narrativas e fotografias da Guerra Colonial, destinados àqueles que também partilharam da mesma experiência, importa pensar nestes testemunhos enquanto documentos. Para que as histórias de vida, nas suas dimensões mais íntimas e pessoais, também se cruzem com uma abordagem crítica da História.