Arriscará a Rússia invadir a Ucrânia?

Se a Rússia ousar intervir militarmente na Ucrânia, estaremos perante o início de outra guerra.

O que até há alguns dias era uma hipótese meramente académica, a invasão da Ucrânia pela Rússia, começa a tomar contornos de possibilidade. O exército russo tem vindo a tomar posições ao longo da fronteira ucraniana, ao longo de meia centena de quilómetros, e esses movimentos são interpretados pela Polónia e pela NATO como a preparação de uma invasão. Se no caso da Crimeia foi brandido o pretexto da insegurança da população russófila face ao novo poder de Kiev, consumando-se, por via de um referendo local, uma anexação que foi festejada em Sebastopol (há um curioso paralelo, ressalvando-se as distâncias, com o caso dos Sudetas na II Guerra Mundial, quando o III Reich de Hitler ocupou e anexou aquele território da Checoslováquia, a pretexto de defender a população germânica aí residente), já no caso do Leste da Ucrânia essa intervenção não é de modo algum pacífica. Desenrola-se ali uma batalha, sobretudo nas cidades de Donetsk e Lugansk, entre o exército ucraniano e combatentes separatistas pró-russos. É uma guerra civil que, a eternizar-se, porá em risco a sobrevivência da Ucrânia como país. Daí que o poder de Kiev, já legitimado por eleições, esteja a fazer tudo para vencer os rebeldes e reassumir o controlo das cidades ocupadas. Se neste conflito, interno, a Rússia ousar intervir militarmente, estaremos perante o início de uma guerra perigosa e indesejável. Primeiro entre a Rússia e a Ucrânia, depois entre os países que tomarem partido por cada um dos lados. Tal cenário, num momento em que se comemoram os 100 anos da I Guerra Mundial, devia pôr o mundo em alerta. Em 1914, ano em que rebentou a guerra, Teófilo Braga escreveu estas palavras idílicas: “O século XX não será devastado por outros mais aperfeiçoados Hunos e Tártaros; os nacionalismos egoístas serão subjugados pela consciência da solidariedade humana.” Enganou-se tragicamente, como se viu.