As portas que Locarno abriu ao cinema português

Joaquim Pinto, Gonçalo Tocha, João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata viram os seus filmes recompensados no festival suíço, garantindo-lhes uma invejável visibilidade internacional. A 67.ª edição, que começou esta quarta-feira, tem Pedro Costa na competição oficial.

Fotogaleria
"Cavalo Dinheiro", de Pedro Costa DR
Fotogaleria
Gonçalo Tocha Rui Pedro Soares
Fotogaleria
Joaquim Pinto e Nuno Leonel, "E Agora? Lembra-me" rui gaudêncio
Fotogaleria
João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata Miguel manso

Gonçalo Tocha: “Se não tivesse ido a Locarno, É na Terra, Não é na Lua não teria tido nem um quarto da visibilidade que obteve”. João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata: “Foi o interesse despertado em Locarno por um filme 'menos ortodoxo' como A Última Vez que Vi Macau que permitiu a sua estreia comercial em vários países”. Joaquim Pinto: “Locarno foi fundamental para E Agora? Lembra-me. Se não tivéssemos lá estado as coisas não teriam corrido tão bem”.

Em conversas separadas, os realizadores de três dos filmes portugueses mais aclamados internacionalmente nos últimos anos são unânimes em elogiar o papel do festival de cinema de Locarno na exposição global das suas obras. A 67.ª edição do festival suíço, que começou ontem e se prolonga até dia 16, promete fazer o mesmo pelo novo filme de Pedro Costa, Cavalo Dinheiro, um dos 17 filmes a concurso na selecção oficial.

É o quarto ano consecutivo em que Locarno acolhe um filme português numa das suas competições principais, e a presença de Costa está a ser recebida em êxtase pela comunidade cinéfila. Ninguém se esqueceu das t-shirts que pulularam por Cannes no ano em que Juventude em Marcha esteve na competição oficial do festival, “Vote for Pedro (Costa, that is)”, criando um autêntico culto à volta do realizador; e a informação que tem vindo a ser divulgada a conta-gotas sobre o filme, de imagens a um excerto enviado para Locarno e que acabou por circular na Internet para depois ser retirado, tem deixado as redes sociais em polvorosa. Há mesmo quem já lhe destine o Leopardo de Ouro, prémio máximo do festival, que só foi atribuído uma única vez a um filme português - O Bobo, de José Álvaro de Morais, na edição de 1987.

Joaquim Pinto, ao telefone do estúdio onde dá os últimos toques na cópia de Rabo de Peixe destinada à retrospectiva nova-iorquina da sua obra, aponta precisamente o caso de O Bobo, verdadeiro “filme maldito” pouco visto e raramente recordado, para recordar que o prémio máximo de um festival não é, nem nunca foi, garantia de carreira global. “É um filme importantíssimo na história do cinema português, mas acabou por ter menos divulgação do que merecia, ficou um bocado perdido.”

É, no entanto, verdade que ao longo dos últimos 20 anos Locarno, um dos mais antigos festivais de “categoria A” do mundo (a primeira edição teve lugar em 1946), tem vindo a ganhar um outro papel, definido por João Rui Guerra da Mata e João Pedro Rodrigues, num depoimento por e-mail, como “alheio ao glamour” dos “colegas” de Cannes, Veneza e Berlim: “É talvez aquele que obedece a menos compromissos”. Joaquim Pinto anui: “Tem um papel único entre estes festivais maiores, porque não se submete a grandes pressões de mercado. Dá exposição a um certo número de filmes que anos atrás teriam visibilidade noutros festivais mas que estão hoje muito mais alinhados por uma estratégia comercial.”

Rodrigues e Guerra da Mata chamam-lhe “o festival com a programação mais ousada, mais atento ao que de inovador se vai fazendo no cinema mundial. Promove um cinema 'não alinhado' com o cada vez mais formatado mercado cinematográfico actual. E existe um real interesse do público e da crítica internacional, bem como de programadores de outros festivais, pelo cinema aí apresentado”.

Para a dupla de realizadores, foi o interesse suscitado pela exibição de A Última Vez que Vi Macau a concurso em Locarno em 2012 (onde recebeu uma menção especial do júri do Concurso Internacional) que levou à passagem do filme numa série de festivais internacionais e até à estreia comercial numa série de países. E foi a exibição no evento das várias curtas realizadas quer a dois (Alvorada Vermelha e Mahjong) quer individualmente (O Que Arde Cura e O Corpo de Afonso) que inspirou até uma sessão regular com as curtas realizadas pela dupla durante a carreira comercial em Nova Iorque de A Última Vez que Vi Macau.

Gonçalo Tocha, cujo É na Terra, Não é na Lua recebeu em 2011 uma menção especial na competição Cineastas do Presente, sentiu igualmente na pele esse impulso: “Não é a exibição em si do filme que muda tudo, porque há sempre muita gente a entrar e sair, a ver o que está a acontecer. É o que acontece depois que é importante, sobretudo se se recebe um prémio. Tudo muda: toda a gente pede para ver o filme, há portas que se abrem”.

Joaquim Pinto é peremptório quanto ao “peso” de Locarno na exposição de E Agora? Lembra-me, que saiu do Concurso Internacional em 2013 com o Prémio Especial do Júri e com o Prémio Fipresci (da Federação Internacional dos Críticos de Cinema), foi posteriormente premiado em Valdivia e terá agora estreia americana (acompanhado por uma retrospectiva do cineasta).

Quando a direcção do festival manifestou interesse em seleccionar o filme, Pinto não hesitou em defender que se avançasse. “Sabia que se as coisas corressem bem em Locarno seria provavelmente melhor para o filme. E a política de Locarno não fazer distinção em termos de géneros, não discriminar entre ficção, documentário, experimental e abrir a competição a todo o tipo de filmes é importantíssima.”

Nem de propósito, os três filmes desafiam as gavetas tradicionais, cruzando de modo singular documentário, ficção, diário e ensaio em modo de produção quase artesanal. E Agora? Lembra-me, A Última Vez que Vi Macau e É na Terra, Não é na Lua são cartas “fora do baralho” que parecem feitas “à medida” de um festival que faz o elogio da diferença. E mesmo Pedro Costa trabalha há duas décadas fora do circuito de produção tradicional.

Haverá, contudo, uma “predisposição” de Locarno para o cinema de autor português, que tem sido presença mais regular no festival suíço do que nos outros festivais de primeira categoria? Afinal, é o quarto ano consecutivo com uma produção portuguesa a concurso, e noutros anos outras obras mais convencionalmente narrativas mereceram a atenção da crítica internacional – casos de Body Rice de Hugo Vieira da Silva, premiado com uma menção especial, ou Corte de Cabelo de Joaquim Sapinho.

Gonçalo Tocha recorda que os programadores não são sempre os mesmos - “quando o É na Terra foi seleccionado [em 2011] havia três programadores muito atentos ao cinema português, mas desses três só o [crítico canadiano] Mark Peranson continua no festival”. E Joaquim Pinto aponta que é possível que os problemas da produção ao longo dos últimos anos, com menos filmes a serem financiados e mais obras a serem feitas em regime de “auto-produção”, ajude a construir a ideia de um maior interesse. Tocha, cujo filme foi praticamente obra de duas pessoas ao longo de anos, anui. “Senti as pessoas muito curiosas no que se estava a passar cá, com as pessoas a pegarem numa câmara e irem filmar mesmo sem dinheiro.”

Mas nenhum deles sabe dizer se o carinho com que os seus filmes têm sido recebidos mundo fora vem apenas dos próprios filmes ou da sua origem neste cantinho europeu. A única certeza é que Locarno abriu as portas do mundo aos seus filmes.