Tudo se desmoronou em Negomano

Na manhã do dia 25 de Novembro de 1917 as tropas alemãs passaram o Rovuma, cruzaram o leito seco do Lugenda e apanharam desprevenidas as forças portuguesas que, placidamente, estavam estacionadas em Negomano. Para os alemães, a conquista permitiu-lhes acumular as armas, munições e víveres que lhes bastariam para alimentar um passeio de dez meses por Moçambique. Para os portugueses, Negomano foi o primeiro passo de um golpe que acabaria de vez com os devaneios dos militares na Primeira Grande Guerra em África.

Atravessa-se o centro de Negomano, com a sua esquadra da polícia e o seu posto administrativo a recordarem a persistência da arquitectura colonial portuguesa, caminha-se em direcção às areias do Rovuma e, à esquerda, um extenso campo aberto até onde o rio Lugenda acaba o seu curso desafia-nos a imaginar o que ali aconteceu entre as 10 da manhã e as três da tarde do dia 25 de Novembro de 1917. Na pequena aldeia de muitas palhotas e poucas casas de alvenaria, as memórias da guerra estão ainda presentes, mas não vão para lá de 1960, quando Negomano se tornou a sede de um destacamento no qual umas centenas de soldados do exército colonial resistiram a anos e anos de ataques da Frelimo. Só Santos Salimo Mundogwan, de 61 anos, sabe que ali, naquele triângulo plano formado pelo encontro de dois rios, teve lugar uma das batalhas mais terríveis da Primeira Guerra Mundial no Norte de Moçambique. Porque ele é o chefe de posto da aldeia e é o fiel depositário das memórias do seu avô, o régulo Malunda, que há cem anos sentiu na pele as agruras desses dias violentos que acabaram de vez com qualquer possibilidade de os portugueses saírem de África com um mínimo de dignidade.

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Negomano é uma pequena aldeia de muitas palhotas e poucas casas de alvenaria

Para a posteridade, Negomano seria para Portugal o que Alésia foi para os gauleses de Astérix. Um lugar maldito, que convinha a todo o custo esquecer. No campo aberto que Santos Salino Mundogwan nos mostra houve em tempos uma placa a indicar que ali tinham sido sepultados os oficiais e soldados portugueses que foram cercados e dizimados pelos alemães até que alguém (não se sabe bem quem) decidisse acabar com o martírio tocando o cornetim do cessar-fogo. Todos esses corpos seriam exumados em 1954 ou 1955 e transladados para o mausoléu de Mocímboa da Praia que hoje está em estado avançado de ruína. Em Negomano ficou uma placa, apenas, a deixar à posteridade o registo dessa batalha decisiva para a sorte das armas portuguesas em Moçambique. Mas, mais tarde, “essa placa foi arrancada e levada para Mueda”, diz Santos, a localidade emblemática do nacionalismo moçambicano.

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Santos Mundogwan ainda consegue apontar as linhas das trincheiras que o seu pai lhe revelou em criança

Após uma viagem de 180 km pela selva até Mueda, por uma estrada esburacada e poeirenta, onde são frequentes as descidas aos leitos dos rios secos para suprir a inexistência das pontes que desabaram no último Inverno, com a presença frequente de hienas, babuínos e macacos na orla, descobre-se esse monumento, que o chefe de posto de Negomano diz ter sido arrancado do seu lugar original por volta de 1963. A inscrição há muito que ficou ilegível pela combinação do tempo, das intempéries e da vandalização. Mas lá sê lê Negomano, percebe-se uma data, entende-se que é uma homenagem a combatentes valorosos que perderam a vida ao serviço da Pátria. Não deixa de ser estranho que esse desejo de perpetuação da memória dos soldados portugueses resista na orla de uma praça onde todos os anos o governo da Frelimo comemora “o massacre de Mueda”, o acontecimento de 1962 que serviria de rastilho à guerra colonial.

No campo de batalha de Negomano, com uma extensão de uns quatro ou cinco hectares, é possível perceber o que aconteceu naquele dia fatídico. A densa cortina de capim onde os askaris (soldados indígenas do exército comandado por Paul Emil von Lettow-Vorbeck) instalaram as suas espingardas e metralhadoras não seria muito diferente da que existia em 1917. A vala onde, à pressa, se instalou o comando dos portugueses e o hospital de campanha para se furtarem às rajadas que varriam o campo de batalha continua lá. O lugar é plano, aprazível, a dois passos da aldeia e das águas do Rovuma. Algumas árvores emprestam-lhes a sombra indispensável para amenizar o sol abrasador do Niassa. Um bom lugar para passar uma temporada. Nunca para se instalar um exército em posição defensiva.

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A memória dos soldados portugueses resiste na orla de uma praça onde todos os anos o governo da Frelimo comemora “o massacre de Mueda”, o acontecimento de 1962 que serviria de rastilho à guerra colonial

Para isso havia bem acima da aldeia um pequeno fortim. Apesar de ficar num terreno que mais tarde seria agricultado, Santos Mundogwan ainda consegue apontar as linhas das trincheiras que o seu pai lhe revelou em criança. Deste ponto, a curta distância da ponte que surge como uma miragem entre duas estradas de terra batida para ligar Moçambique e a Tanzânia (chama-se, simbolicamente Ponte da Unidade e foi construída pelos chineses), não era difícil observar os movimentos das tropas inimigas, na outra margem. Ali, não haveria qualquer possibilidade de os portugueses serem apanhados sob o intenso fogo cruzado que em escassas horas arrasou todas as tentativas de defesa da linha do Rovuma. O efeito de tenaz, que os ingleses em perseguição dos alemães acreditavam poder acontecer se essa linha defensiva resistisse, não passaria de desenhos vagos nos mapas de campanha. Sob todos os pontos de vista, Negomano foi apenas mais um exemplo de impreparação e incompetência. Mas foi um exemplo que, do ponto de vista militar, teve a mesma consequência que a saga-fuga de Nevala, em Novembro do ano anterior: arrasou todas as expectativas de sucesso da quarta expedição de tropas portuguesas para a Primeira Guerra no Norte de Moçambique.

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A Ponte da Unidade, construída pelos chineses, ao fundo

Um alerta que ninguém quis ouvir

Às primeiras horas do dia da batalha, as sentinelas repararam no pavor com que alguns habitantes de Negomano fugiam das margens do rio. Tinham levado o gado a beber e avistaram alemães do outro lado. No forte, riram-se com a notícia. Os ingleses tinham informado que os alemães fugiam em debandada de Masasi, a uns 80 quilómetros da fronteira, e estavam cercados em Nevala. Dias antes, o comando britânico admitira que poderiam entrar em Moçambique para atacar a praça de Negomano, mas logo a seguir desfizeram essa informação e anunciaram que agora o eixo da sua fuga acabaria para os levar até Chomba, onde estava o quartel-general. As tentativas para tirar a limpo essas informaões tinham-se gorado. A missão do sargento Cardoso Mirão ao Unde, um posto combinado para se encontrar com um mensageiro britânico, não foi além de uma viagem inútil de três dias e de um susto perante a proximidade de um leão que quase o surpreendeu. Mas nem a falta de garantias absolutas sobre a veracidade dos rumores britânicos levou o comando do major Feio Quaresma a tomar precauções. Pelo contrário. Negomano era um campo de lazer.

Entretanto, os alemães estavam em marcha. Desgastada pelos britânicos a Norte, a força comandada por von Lettow-Vorbeck tinha decidido a 19 de Outubro mudar de estratégia, transferindo o teatro operações para o território colonial português. A 20 Novembro descera de Masasi e está em Nevala, a uns 100 km de Negomano. A 21 de Novembro avança de Nevala para sul com as forças que restavam dos seus corpos originais após o desgaste de dois anos de guerra – restavam-lhes 300 europeus, 1700 soldados indígenas e 3000 carregadores. A Schutztruppe era, nesta fase do conflito, um exército acossado, com falta de mantimentos e munições, incapaz de retomar o protagonismo dos dois anos anteriores

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Paul von Lettow-Vorbeck DR

Pouco depois do primeiro aviso, um grupo de sargentos decide finalmente passar os olhos pelo Rovuma. E confirma o pavor dos habitantes da aldeia. Os alemães atravessavam o rio, a vau ou servindo-se de pedras para permitir a marcha dos cavalos. Com tanta calma e displicência que von Lettow-Vorbeck registaria nas suas memórias que alguns aproveitaram até para tomar banho. Tentando gerir o pânico, o comando manda formar as companhias, determina as suas posições à volta do acampamento, decide abrir à pressa abrigos individuais com os sabres das baionetas por falta de ferramentas mais apropriadas. “Só então se reparou que os muros do forte ficavam lá acima distantes, ao sol, e a água, os depósitos, os géneros, as munições, todo o acampamento enfim se achava ali entaipado, à sombra da floresta e entre o capim, escondido no mato sem um campo de tiro, sem uma trincheira, sem uma banal defesa qualquer. Só então repararam que estavam encurralados num vale”, notaria nas suas memórias o sargento Cardoso Mirão.

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O ponto onde os rios Lugenda e Rovuma se encontram em Negomano

Por volta das nove da manhã, o dispositivo alemão continuava a atravessar o Rovuma e o Lugenda e, calmamente, ultimava o cerco ao acampamento português. Lettow não sabia se ali estavam portugueses ou ingleses à sua espera, mas não era isso que mais o preocupava – o comando de von Taffel andava perdido e perdera a ligação à sua coluna havia dias. Cardoso Mirão, entretanto, estava prestes a chegar a Negomano, após a sua missão inútil ao Unde. A alguns quilómetros, a correria de nativos a que assiste alerta-o para o pior. Ao chegar ao Lugenda, ouve tiros ao longe e vê negros em fuga em direcção a sul. “Kimbia Vitá” (fugir à guerra), dizem, em pânico, “seminus, encostados ao grosso cajado de bambu, as mulheres mal cobertas com uma rude serapilheira, de casca de árvore à volta da cintura, ajoujadas sob o peso dos seus poucos haveres, os filhos enrolados às costas, a manquejar sobre as duras de areia do leito descoberto do Lugenda, todos em direcção a sul, pelo território do Niassa a dentro”. Logo depois, já nas imediações de Negomano, é parado por “oito, 10, 15 askaris altos como barrotes e negros como carvões”, que “surgiram das entranhas do mato, com os olhos a chamejarem ódio e os gestos a proclamarem guerra”. Foi desarmado. Estava preso.

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Após cinco horas de combate, o ameno campo que regista o cruzamento das águas do Lugenda com as do Rovuma, tornara-se um desolador cenário de sofrimento e morte

Os primeiros tiros tinham surgido da frente sul por volta das dez da manhã. Camuflados da cabeça aos pés com camadas de capim, os askaris eram uma força invisível. Os primeiros sinais de pânico são coincidentes com as primeiras balas. “Acachaparam-se os cozinheiros, abandonando as ‘mess’ e as cozinhas, e logo por todo o acampamento se espalhou o cheiro acre e desagradável a refogado queimado”, recordaria Cardoso Mirão. O major Teixeira Pinto tenta rumar contra a desorientação, chega-se à primeira linha de tiro, descobre o lugar mais pressionado e começa a ordenar fogo por descargas. Acabaria por ser atingido mortalmente. Nos minutos que se seguiram o mesmo acontece ao cabo Alberto. O tenente Ponces Leão cairia logo a seguir. O Alferes Leão tenta suicidar-se, encosta a pistola à cabeça e só com um salto o sargento Ernesto Moreira dos Santos consegue evitar a sua morte. “A bala perdera-se no espaço e o alferes, desvairado, de olhar esgazeado, mergulhava os dedos crispados nos seus cabelos negros e arrancava-os aos punhados, à procura dos seus soldados, da sua honra, da sua vida. Estava louco”, relataria Cardoso Mirão.

Os oficiais, instalados a monte na ravina que os poupava às balas alemãs, não sabem o que fazer. “Só uma Companhia se conservou calma e com sangue frio, enfrentando heroicamente o inimigo: a Companhia Mista de Landins, comandada pelo tenente Pais Gomes e já duramente experimentada nos duros combates de Maziúa, Mahuta e Nevala”, recordaria Cardoso Mirão. A derrota era iminente. Seria consumada quando soou o toque de cessar-fogo. Eram três da tarde. Após cinco horas de combate, o ameno campo que regista o cruzamento das águas do Lugenda com as do Rovuma, tornara-se um desolador cenário de sofrimento e morte. “Há de tudo! Uma perna esfacelada, um braço retalhado, olhares vítreos, esgares diabólicos”, registaria Cardoso Mirão. Os alemães entram no acampamento e num ápice os askaris iniciam o seu assalto final aos bens dos derrotados. À frente seguia o general Taft Otto von Lebel, logo depois era o próprio von Lettow-Vorbek a avaliar no terreno as consequências de uma vitória estratégica de incomensurável valor. Agora seria possível voltar as costas aos britânicos, ganhar fôlego e recompor as suas tropas em território português.

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Trincheiras junto ao Rovuma AHM

Lettow tenta travar o saque que se segue. Nas suas memórias da campanha na África oriental alemã notaria: “Vergastei pelo menos sete vezes um carregador que conhecia, mas de todas as vezes ele escapou e imediatamente se juntou ao saque noutro local”. A orgia de violência dá origem a uma orgia de roubos. Cardoso Mirão perdeu tudo. “Malas, roupas, relógios, lembranças, cartas, tudo, tudo”. No campo de batalha espalham-se “cartas enlameadas, fotografias ultrajadas, trapos sujos dispersos, cartas de família, desabafos de mães, segredos de noivas, castelos de amor derrubados pela brutalidade dos negros depois de nos terem despojado de todos os haveres”, escreveria o sargento.

Os despojos de Negomano

Estava na hora de fechar o capítulo Negomano. Os alemães e os seus askaris entretinham-se agora a partir uma a uma as armas dos portugueses que não lhes interessavam ou não podiam transportar. Von Lettow regozijava-se entretanto com o produto da conquista e com os bens que encontrara no depósito de Negomano. “Capturámos algumas centenas de askaris [soldados indígenas que seriam forçados à condição de carregadores], grande quantidade de medicamentos de valor que tão necessários eram, todos de excelente qualidade, o que era de esperar pela experiência de séculos dos portugueses em campanhas coloniais, e ainda alguns milhares de quilos de víveres europeus, grande número de espingardas, seis metralhadoras e cerca de trinta cavalos”, registou o comandante alemão. Com estes bens e com os que arrebanharia sete dias depois no depósito de Nanguar, von Lettow poderia encarar com algum optimismo mais alguns meses de resistência. Tinha valido a pena apostar no assalto à frente portuguesa.

Entre os sobreviventes do exército nacional, o estado de espírito era devastador. “Oficiais, sargentos, soldados, num abatimento incrível, desprovidos de tudo, sem malas, roupas nem haveres, aglomeravam-se numa multidão indisciplinada e miserável, sentados uns, deitados outros sobre a terra pelo capim disperso e que lhes servia de cama. Envolvia-os a todos o círculo de arame e guardavam-nos duas sentinelas negras”, recordaria Cardoso Mirão. Alguns tinham conseguido fugir e sobreviver depois de estabelecerem contacto com o quartel-general de Chomba ou com os postos de serra Mecula. Outros pereceriam na selva. O sargento Pratas nunca mais se soube dele. O sargento Carvalho acabaria por ser encontrado por indígenas tempos depois. Morrera “desvairado, louco, perdido, aos encontrões pela selva, a boca cheia de areia e o cérebro vazio de toda a razão”, contaria Cardoso Mirão.

Para os soldados e sargentos que permaneciam no perímetro da batalha, a sorte estava traçada. Seriam libertados. É assim que 63 afortunados recebem ordem de marcha com um salvo-conduto. Os alemães dispõem-se a conceder o mesmo tratamento aos oficiais, desde que jurem não mais combater os invasores. A ideia podia ser atractiva, mas alguém lembra o artigo 102 do Código de Justiça Militar que diz: “O oficial prisioneiro de guerra que aceitar a sua liberdade sob a promessa de não tomar armas contra o inimigo será condenado a presídio militar de seis anos e um dia a nove anos”. É então que, resignados, os oficiais ficam ali retidos, “em magote, embrulhados no próprio invólucro do seu infortúnio e atados pelo fio dilacerado do arame farpado, com sentinelas negras à vista”. Todos acabariam mais tarde por ser libertados. Para um exército que fez a sua glória através do ataque surpresa e da rapidez de movimentos, interessavam carregadores negros. Prisioneiros brancos eram um obstáculo.

Para fechar o capítulo, havia ainda que enterrar os mortos. Pelo menos 14 soldados e 8 oficiais europeus, na contabilidade duvidosa do exército. Fazem-se três filas de covas e os soldados abatidos ali ficam. Alguém se lembra de escrever os seus nomes nos troncos das árvores. O general von Label vai arrancar a um arbusto próximo um ramo de folhas verdes que deixa cair no túmulo de Teixeira Pinto. Em breve, a maioria dos que assistiam às cerimónias fúnebres estariam em marcha. Para trás ficariam, abandonados às hienas e aos abutres, os cadáveres dos negros. Fontes do exército falam na morte de 28 indígenas. Uma visão que os testemunhos, dos soldados portugueses ou do comando alemão, desmentem. Cardoso Mirão recordaria: “Só os negros – e eles são cerca de 500 - continuam dispersos pelo acampamento, em atitudes patéticas, corpos sangrentos colados ao chão, estendidos para sempre, sem dois palmos de terra a cobri-los, corpos sem dono, à espera que os corvos, os abutres e as hienas os venham disputar em grunhidos de ferocidade e prazer, festim macabro de podridão e gangrena”.

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Posição de metralhadora das tropas portuguesas junto ao rio Rovuma AHM

A selva, outra vez

Os sobreviventes libertados deixam Negomano com a morte na alma e os montículos das sepulturas dos que lá morreram na memória. Cardoso Mirão e Ernesto Moreira dos Santos faziam o balanço de oito meses em Moçambique, desde que desembarcaram na Beira para instruir soldados indígenas e foram obrigados a percorrer 900 km na odisseia vã e fútil da Coluna do Lago. “Fora para ali que se caminhara durante oito meses intermináveis, de posto em posto, de serra em serra, sofrendo sede e provações, desgostos e privações, desgostos e injustiças”, notava Mirão. Nada havia a fazer: “Nesta coisa da guerra, os alemães eram melhores do que nós”. Ou, seguramente, menos caóticos, imprevidentes e incompetentes.

De regresso às caminhadas, os sobreviventes tentam encontrar ajuda em algum posto português das imediações. Em vão. Em Nazombe encontram de novo alemães. Mostram-lhes os seus salvo-condutos e pedem água. Cardoso Mirão, que falava inglês, é levado a uma tenda, ao fundo do acampamento, onde encontra von Lettow, “sentado num caixote, diante de uma mesa portátil”. O general invencível era afinal a “figura modesta e simples de um homem, de estatura regular, olhar sereno e firme, uma barba loira, em bico, a apagar a suavidade de dois vincos desenhados aos cantos dos lábios”.

Com maior ou menor dificuldade, esta coluna errante de derrotados acabaria por contar na primeira pessoa o que acontecera em Negomano. O aviso de pouco serviu. A velocidade do ataque alemão, que no dia 2 de Dezembro, sete dias depois de Negomano, está em Nanguar e no dia 3 inicia o assalto às fortificações da Serra Mecula, não daria grande tempo ao comando-geral de Sousa Rosa para reflectir sobre o que acontecera. Entre os que tinham desfilado no famoso Destacamento de Nanguar, porém, a explicação parecia fácil: além da negligência que levara o comando a acreditar no fim próximo dos alemães, a divisão das forças por vários postos ao longo da fronteira tornara mais fácil a sua investida fulminante. A responsabilidade por essa decisão desastrosa coube ao comando do coronel Sousa Rosa, que, por este erro e pelos fracassos no combate à invasão alemã de 1918, seria alvo de um inquérito. Mas, quando as conclusões foram publicadas, em 1926, já ninguém queria vasculhar as dolorosas memórias da Primeira Guerra. “Nas condições em que o coronel Sousa Rosa assumiu o comando da expedição, já não seria fácil evitar que erros e deficiências anteriores viessem a ter uma perniciosa influência no prosseguimento das operações”, lia-se no apaziguador relatório da Comissão.

Mas, apesar do branqueamento póstumo, a decisão de dividir as forças por Nanguar, Negomano, serra Mecula, Montes Oizulo e Montes Mocolos persistiria na memória dos combatentes como um erro indesculpável. O capitão Francisco Curado, um dos poucos oficiais portugueses que regressou da Primeira Guerra em Moçambique com a aura de competente e corajoso, recordaria o “grande desânimo e a surpresa de todos ao termos conhecimento da ordem que mandou marchar para Negomano o major Quaresma, com parte das forças do seu comando, a reforçar o destacamento de Teixeira Pinto, e a distribuição das restantes em pequenos núcleos isolados ao longo da fronteira (Mecula, Oizulos e Macolos) e distanciados mais de 150 km uns dos outros” (a citação lê-se na obra Fantasmas do Rovuma, do jornalista Ricardo Marques). Curado terá chegado a dizer ao major Quaresma que, se fosse ele o comandante, “não cumpriria a ordem recebida”.

Dias mais tarde, Quaresma poderá ter recebido uma contra-ordem do comando, recomendando-lhe que se mantivesse em Puxa-Puxa, no sopé da serra Mecula, onde nos últimos meses os soldados portugueses se haviam dedicado a construir trincheiras e outras posições defensivas. Não se sabe se isto é verdade. Nenhum inquérito foi aberto para determinar o que aconteceu. O que é facto é que o major manteve o sentido da marcha para Negomano, onde chegou um ou dois dias antes do assalto alemão. Com as forças dispersas e incapazes de suster a eficiência germânica, o que aconteceu em Negomano não passou do primeiro episódio de uma clamorosa derrota cujos efeitos persistiriam até ao final da guerra. Novembro de 1917 seria, como Novembro de 1916, um momento fatídico para a campanha militar dos portugueses no Norte de Moçambique. Nos meses que se seguiram os alemães entretiveram-se a passear pelo território nacional. O comando do que restava das tropas portugueses foi cedido aos ingleses.

Negomano seria para a posteridade uma data negra para um exército com ambições coloniais. Santos Mundogwan aprendeu com o avô e com o pai a ler nos sulcos que restam das trincheiras do fortim ou no descampado bucólico na margem do Rovuma os sinais de uma batalha que inscreveu o nome da aldeia na história da Primeira Guerra Mundial em África. Os soldados portugueses que por lá passaram na guerra colonial, pelo menos os que o PÚBLICO contactou, não sabiam da existência do forte nem do campo de batalha. Nunca ninguém lhes dissera. Nessa nova frente de guerra no Rovuma era conveniente desconhecer uma derrota assim.

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