Moradavaga transformou o capão em arte de rua

A dupla de arquitectos venceu o concurso Call For Artists do Festival Putrica. A obra Le Coq Festif conquistou os freamundenses e continua em exposição

Pedro Leitão e Manfred Eccli são os fundadores da "Moradavaga", um colectivo de arquitectos nascido em 2006. Foram seleccionados recentemente para participar no concurso Call For Artists do Festival Putrica, inserido nas festas Sebastianas. A obra vencedora foi o Le Coq Festif inspirado no Capão de Freamunde.

O Putrica é um festival de arte e tem como objectivo sensibilizar para a integração da arte no espaço urbano. A obra é uma instação interactiva que permite ao espectador girar a manivela de uma bicicleta que faz mexer os corações do Capão inseridos na peça. Os arquitectos receberam apoio logístico e financeiro para a realização do Le Coq Festif. 

A Moradavaga nasceu de um interesse partilhado por Pedro e Manfred. Conheceram-se em 2004 quando Manfred, que é Italiano, estava em Portugal a terminar a licenciatura em Arquitectura. "Começámos com um interesse especial pela arte de rua", recorda Pedro.

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Le Coq Festif

"Dar uma utilização a sítios mais esquecidos" foi o conceito que os uniu. "Moradavaga como o termo indica é resultante de uma contracção de duas palavras: morada e vaga. Morada no sentido de espaço e vaga no sentido de estar vazio", sugeriu Pedro Leitão. Aliada à recuperação de espaços menos "visitados" está a reutilização de materiais do quotidiano. 

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Le Coq Festif

"Arquitectura low-cost"

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Le Coq Festif

A maior parte das obras são de pequeno custo. Pedro utiliza uma lata de refrigerante para exmplificar as vantagens de dar novas roupagens a objectos habituais do dia-a-dia. "Nós estamos aqui a ver uma lata de Coca-Cola e é um objecto que normalmente tem um propósito que toda a gente conhece — que é ter Coca-Cola lá dentro — mas pode também ser um material construtivo".

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Periskop

"Tudo o que temos à nossa volta ganha novas leituras muito dependentes do que estamos à procura, ou da nossa disponibilidade para conferir uma nova função a algo que já está catalogado social ou comercialmente. Porquê mandar uma coisa para o lixo quando pode ser aproveitada para uma segunda ou terceira vida?"

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Periskop

Para Pedro existe uma obra que espelha bem o conceito da Moradavaga, em todos os sentidos. Chama-se Periskop. Foi criada para o festival de arte El Globo de Juan, que teve lugar na Velha-a-Branca Associação Cultural, em Braga.

"Foi uma obra que teve um desenvovimento longo. Eu fui angariando o material, ia a várias lojas pedir cartão (é uma obra feita com cartão reciclado). Foi feita mesmo com muito poucas condições económicas, mas o resultado foi fantástico", contou Pedro. Depois da angariação do material a obra foi construída em pouco tempo pelos dois arquitectos. 

"Era uma parede de cartão com 765 centímetros de altura por 120 centímetros de comprimento e com 30 centímetros de expessura. Estava instalada no centro de uma caixa de escadas, o que retirava a visão habitual que temos de quem está no andar abaixo ou acima. Tinha uma série de jogos de espelhos interiores que permitiam a quem estivesse no primeiro andar, ver quem estava no terceiro sem conseguir identificar onde é que essa pessoa estava", explicou Pedro.

A obra que era para ter ficado exposta durante um fim-de-semana acabou por permanecer três meses, isto porque as pessoas gostaram tanto que a organização pediu aos arquitectos para prolongarem a estadia da peça.

O Periskop, segundo Pedro, "permitiu a interacção de milhares de pessoas que não se conheciam". "Embora já tenhamos feito obras mais complexas de construir eu gosto desta pela simplicidade e pela economia de meios com que foi feita. Acho que conseguiu sintetizar muito bem o nosso conceito e o nosso objectivo", afirmou.

"O que fazemos é para servir as pessoas"

A dupla tem como fio condutor a interacção entre as obras e os espectadores. "O nosso objectivo é que todas as peças sejam interactivas, queremos que o espectador esteja envolvido directamente e activamente na obra. No fundo são quase como ferramentas de interacção que estão ali dormentes e que de repente são activadas e são despertadas", afirmou Pedro. "O questionamento que cada pessoa faz sobre as peças é o que nos dá um melhor 'feedback'" acrescentou.

"As pessoas estão desmotivadas, a sociedade está com imensas dificuldades económicas e o objectivo da Moradavaga é não deixar morrer o sonho, surpreendê-las, motivá-las. Nós queremos pontualmente, com as nossas criações efémeras, provocar e animar, manter viva qualquer esperança de beleza", referiu o arquitecto.