Entrevista

Daniel Bausch sobre o ébola: “O surto não está sob controlo neste momento”

Este surto é o maior de sempre, mas o risco de alastrar para os países ocidentais é muito reduzido, afirma este especialista de medicina tropical.

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Hospital na Libéria, país onde foram detectados casos de infecção com o ébola Reuters

Daniel Bausch, da Universidade de Tulane (EUA), passou quase todo o mês de Abril em Gueckedou, na Guiné-Conacri – o epicentro do corrente surto de vírus de ébola –, na qualidade de enviado da Organização Mundial da Saúde para a zona afectada pela doença. Também tratou doentes infectados pelo vírus num hospital da capital e esteve na Serra Leoa. Falou com o PÚBLICO desde o Peru, onde dirige actualmente um laboratório de virologia e de infecções emergentes da Marinha norte-americana.

Este surto do vírus de ébola é diferente dos anteriores?
É. Apresenta desafios específicos, como o facto de abranger vários países diferentes, que falam línguas diferentes – com a barreira linguística que isso implica. Portanto, para além do elevado número de casos, a distribuição dos casos é diferente. Estamos numa batalha com muitas frentes – na Guiné-Conacri, na Serra Leoa, na Libéria. E precisamos de distribuir os nossos recursos por uma zona muito mais extensa do que no passado, o que dificulta a tarefa.

Este surto começou no ano passado. Por que é que os media demoraram a falar dele?
Tanto quanto sei, começou de facto em Dezembro 2013 em Gueckedou, numa região remota do sudeste da Guiné-Conacri. Trata-se de uma região de floresta hoje muito desflorestada, perto da fronteira com a Serra Leoa e a Libéria. O primeiro caso terá sido uma menina de dois anos de idade, mas não podemos ter a certeza.

Lembro-me que em 1995 [aquando de um grande surto de ébola no ex-Zaire], a cobertura mediática foi enorme. Acho que o interesse nestes surtos diminuiu ao longo do tempo – até certo ponto, perderam o seu carácter de novidade.

De onde veio o vírus desta vez? Dos morcegos?
Não é possível saber exactamente, mas é um facto que, quando os contactos entre os seres humanos e os animais selvagens aumentam, os riscos de haver um surto aumentam. O vírus poderá ter sido transmitido directa ou indirectamente por morcegos [que o vírus infecta, mas que não desenvolvem a doença], por exemplo através de fruta contaminada por animais infectados.

Tem havido esforços para se desenvolver uma vacina contra o vírus de ébola. Estão a avançar?
Houve alguns ensaios muito promissores de vacina nos macacos – e até um ensaio em seres humanos, que concluiu que a vacina é segura. Mas esta não é uma doença com a qual os laboratórios farmacêuticos possam ganhar muito dinheiro: é esporádica, atinge poucas pessoas e atinge as populações mais pobres do mundo. Para mais, os surtos acabam por ser controlados. Ou seja, não há realmente mercado para uma vacina.

Vários profissionais de saúde têm morrido recentemente. Nas fotos que vemos, o equipamento que usam não parece muito protector…
Não se trata apenas de uma questão de máscaras e batas. O problema é sobretudo a falta de recursos humanos. Quanto menos pessoal há nos serviços hospitalares, maior o risco de infecção para os que lá estão.

Esteve recentemente em Gueckedou. O surto está sob controlo?
Estive na região durante grande parte dos últimos três meses. Estive em Gueckedou em Abril e acabei de regressar na passada semana da Serra Leoa. E posso dizer que o surto não está sob controlo neste momento. Para o controlar, precisamos de aumentar a escala da nossa resposta, tanto em termos de recursos humanos como financeiros, porque estes países são dos mais pobres do mundo. Essa realidade tem vindo a ser reconhecida nas últimas semanas e espero que vejamos um aumento da resposta internacional contra o surto nas próximas semanas. Mas mesmo assim, vai demorar quatro a cinco meses até o surto acabar.

Qual é o risco de a doença alastrar para os países ocidentais?
É muito pouco provável que venha a haver grandes surtos nos países ocidentais. Poderá haver um ou dois casos importados de África, mas é muito pouco provável que isso dê origem a uma transmissão secundária [dessas pessoas para outras que não estiveram em África]. Claro que temos de ser vigilantes – mas nunca haverá centenas de doentes em Portugal, no resto da Europa ou nos EUA.

Os países de grande risco são o Nigéria e outros países africanos, mas nos países ocidentais, para as pessoas em geral, tirando os profissionais de saúde, o risco de contrair ébola situa-se incrivelmente perto de zero. Se chegasse amanhã a Lisboa uma pessoa infectada, você não conseguiria apanhar a doença mesmo que tentasse.

Não é possível apanhar-se ébola, por exemplo, viajando no mesmo avião que uma pessoa infectada?
O vírus apenas se transmite por contacto directo – e o doente só passa a estar contagioso quando já está muito doente, com vómitos e diarreia, porque é nessa fase que dissemina o vírus através dos seus fluidos corporais. As pessoas infectadas não são contagiosas nem durante o período de incubação, nem no início dos sintomas, quando desenvolvem febre.

Portanto, podemos viajar sem riscos ao lado de uma pessoa infectada desde que ela não tenha ar de estar doente. Quando uma pessoa se torna contagiosa, é impossível não dar por isso.

Quanto esteve agora na zona do surto, teve medo?
Tive medo suficiente para ser incrivelmente cuidadoso e seguir à risca as regras e directivas que se impõem. Mas se entrasse em pânico, seria melhor mudar de profissão. Estou habituado a este tipo de situações. Daqui a três ou quatro meses, vou provavelmente lá voltar.