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A sexta de bicicleta de Gonçalo Peres

O gestor do espaço Cineteka começou a usar bicicleta em 2008, quando o primeiro filho nasceu. Hoje não dispensa este meio de transporte e não tem duvida de que tem outra qualidade de vida

O Gonçalo Peres garante que o mais surpreende no uso regular da bicicleta é a qualidade de vida que se ganha e uma nova visão dos espaços em que circula. Com 40 anos, tem 2 filhos (6 e 2 anos) e usa a bicicleta à sexta-feira para fazer tudo o que tem que fazer. O gestor do espaço Cineteka começa por levar os filhos a duas escolas diferentes. O mais velho já vai na sua própria bicicleta e o mais pequeno na cadeirinha. Se estiver a chover, leva os dois num atrelado, que comprou quando nasceu o segundo. No final do dia, repete a mesma volta de 8 km, mas, pelo meio, surgem outros compromissos, reuniões de trabalho, almoço com amigos, etc., sempre de bicicleta.

O que te levou a começar a usar a bicicleta para te deslocares?

O nascimento do meu primeiro filho, em 2008. Estava habituado a deslocar-me de scooter e não me imaginava a suportar os constrangimentos de depender dum carro para o levar ao berçário. Antes disso, não usava bicicleta, nem para lazer. E também estava numa fase da vida em que não me sobrava tempo para cuidar do físico. Tinha uma vida bastante sedentária e os quilos à volta da cintura, típicos desta idade, começavam a aparecer. Em 2006 passei uns dias em Copenhaga, e ver aquelas mães todas a desfilar de bicicleta com crianças no percurso casa-escola ficou gravado na memória. Não é permitido transportar crianças com menos de 7 anos numa mota, mas de bicicleta sim. Fui a uma loja e comprei uma "pasteleira", já com cadeirinha para transportar crianças. Foi assim que comecei a andar de bicicleta, no percurso casa-berçário, que ficava a 2/3 kms de casa.

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Quando te inscreveste no Sexta de Bicicleta?

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Logo no arranque. Achei uma excelente ideia pois permite a quem queira fazer a transição para a mobilidade em bicicleta começar de forma progressiva, apenas uma vez por semana. É um objectivo mais fácil e atingível.

Que tipo de bicicleta ou equipamento?

Depois de 5 anos a pedalar com uma pasteleira fraquinha de apenas 5 mudanças, que já acusava desgaste e começava a dar problemas, decidi que precisava duma bicicleta mais eficiente e fiável. Apostei numa bicicleta de trekking, que são das mais vendidas nos países europeus mais a norte. Queria uma bicicleta que, além de ter todo o equipamento para uso citadino (grelha para alforges) durante todo o ano (guarda-lamas e travões de disco hidráulicos), dia e noite (iluminação com dínamo de cubo), também me permitisse fazer umas viagens. Um ano depois, estou muito satisfeito com a escolha. A relação qualidade-preço é excelente, pois é um segmento de mercado muito competitivo na Alemanha, um grande fabricante deste género de bicicletas. Ainda procurei por marcas nacionais, mas não encontrei nada no género. Espero que os nossos fabricantes venham a colmatar esta lacuna, o que não me parece muito difícil, já que os componentes são sempre os mesmos e alguns até são feitos em Portugal.

Existem alguns mitos (sobre a utilização da bicicleta) que tenhas vencido?

Sim, muitos. Para começar a nossa educação em relação à bicicleta como meio de transporte é preconceituosa. À qual se junta os mitos das colinas, do frio, do calor, da chuva, das distâncias e das vozes dos dinossauros do costume, que com os seus tempos de antena, infelizmente contribuem para manter as pessoas na ignorância. Comecei a pedalar sozinho, sem nenhuma referência e, se a princípio o meu raio de alcance era apenas o meu bairro, depois de me aventurar para o centro da cidade, senti que andaram literalmente a enganar-me durante décadas. Fazendo uma analogia irónica, imaginemos o Carlos Barbosa (Presidente do ACP), na figura de "velho do Restelo", a avisar aos exploradores do século XV para não se fazerem ao mar, que depois da linha do horizonte havia um grande precipício...!

O que poderia melhorar nos percursos que realizas?

Não permitir os excessos de velocidade praticados pela generalidade dos condutores e os veículos estacionados nas esquinas, a tapar a visibilidade nos cruzamentos. São duas ilegalidades graves, mas infelizmente comuns, que condicionam a liberdade e o direito de nos deslocarmos em segurança, ainda mais grave no caso das crianças. Só mesmo uma sociedade atrasada e políticos sem visão permitem que em pleno século XXI as nossas cidades continuem reféns da ditadura do automóvel. Outra grande ajuda será a criação de mais faixas cicláveis unidireccionais, retirando uma das faixas de rodagem, no caso de vias onde a velocidade máxima é superior a 30 km/h. Perto de áreas residenciais, comerciais, estabelecimentos de ensino, hospitais, estações de transporte público, etc., a criação de "Zonas 30" é também uma realidade incontornável. E claro, não esquecer o básico: mais estacionamentos para bicicletas, muitos mais, em todos os quarteirões e edifícios. Mas nada de "entorta rodas" ou invenções artísticas. “U”s invertidos, simples e funcional. Não adianta reinventar a roda.

Um momento em que te sentes mesmo bem a andar de bicicleta.

Levar e buscar os meus filhos à escola de bicicleta é a melhor maneira de começar e terminar bem o dia. Lembro-me que logo no início, quando o meu primeiro filho ainda era demasiado pequeno para andar na cadeirinha (e ainda não tinha o atrelado), ter de ir de carro era um suplício e tentava dividir essa tarefa o mais possível com a minha mulher. Hoje em dia, faço questão de os ir levar e buscar todos os dias. Se ainda tivesse carro e mota, provavelmente não o poderia fazer, pois estaria a trabalhar até mais tarde para sustentar o parque motorizado. Felizmente, saí da matrix. Adoro pedalar nas ruas, quando não existe o barulho infernal dos carros para abafar os sons da vida, das pessoas, do vento, dos pássaros e do suave rolar da bicicleta. Sermos o motor da nossa deslocação, sem grande esforço, é vivermos o presente, um dos factores que mais contribui para a felicidade do ser humano.

Uma pessoa da praça pública que gostarias de ver a andar de bicicleta e porquê?

Os autarcas e directores dos departamentos de mobilidade. Pelas transformações que temos vindo a assistir em inúmeras cidades por esse mundo fora, creio que essa mudança parte de autarcas e chefias com visão, que muito beneficiam do ponto de vista privilegiado dum utilizador de bicicleta. Não se pode construir uma cidade para pessoas fechado num gabinete ou num carro. Também gostava de ver aqueles que utilizam a bicicleta exclusivamente para lazer, ao final do dia e aos fins-de-semana, que olhassem para este veículo como um excelente meio de transporte diário.

O que tens a dizer a quem diz que andar de bicicleta na sua cidade é impossível?

Eu também achava que era impossível, fruto da deseducação e da incultura geral. Comprem uma boa bicicleta para uso citadino e comecem com as Sextas de Bicicleta. Peçam ajuda a amigos, a um bike buddy, combinem com os transportes públicos, experimentem primeiro fazer os percursos diários a um Sábado, para ver como é. Vão evoluindo progressivamente. Transformem a rotina diária da mobilidade numa aventura saudável. Quem não quer, inventa desculpas, quem quer, encontra soluções. Deixem o carro para quem verdadeiramente precisa dele e façam como as mães dinamarquesas ou como o meu filho de 6 anos.