Opinião

Estado pode ficar com 70% do BES sem traumas ideológicos

O Banco de Portugal continua a atirar pedras para o buraco do BES a ver se há algum barulho.

O que assusta no caso do BES é que o Banco de Portugal deixou de antecipar os acontecimentos e passou a correr atrás do prejuízo. Literalmente a correr atrás do prejuízo. O BES veio anunciar prejuízos de 3,6 mil milhões de euros. É muito dinheiro, ou melhor, é muito pouco dinheiro. E Carlos Costa teve de dar o dito pelo não dito.

Há duas semanas o governador do Banco de Portugal jurava a pés juntos que o BES tinha uma almofada financeira que lhe permitiria absorver o impacto do buraco provocado pela exposição do banco às empresas do grupo Espírito Santo. Ficámos agora a saber que afinal o buraco era uma cratera. E o Banco de Portugal continua a atirar pedrinhas e auditores para dentro do buraco, a ver se ouve algum barulho, para tentar perceber se a cratera tem algum fundo.

Quando o Banco de Portugal ordenou uma auditoria às empresas do grupo, descobriu um buraco. Nessa altura, sabendo que tinham sido cometidas ilegalidades, o governador deveria ter substituído de imediato Ricardo Salgado e o resto da administração do banco. O problema é que Carlos Costa deixou que fosse Ricardo Salgado a dizer como seria o seu próprio enterro como banqueiro. E Salgado quis ser transportado num pedestal, numa espécie de pira que ia ardendo e sendo alimentada com dinheiro do próprio banco.

Chegámos ao cúmulo de ser não o Banco de Portugal, mas o próprio Ricardo Salgado a dizer numa entrevista ao Jornal de Negócios que se tinham detectado irregularidades graves no grupo. Carlos Costa estava nessa altura preocupado com a imagem do banqueiro e queria que Salgado se afastasse com alguma dignidade. E foi nessa entrevista que Salgado veio culpar o contabilista pelas ilegalidades. Aliás, os contabilistas estão para a banca como os mordomos estão para os policiais, são sempre os culpados.

Salgado não só escolheu a forma de dar a notícia, como ainda o nome do seu sucessor, que por sinal era o seu braço direito. E numa primeira fase o Banco de Portugal, mesmo sabendo das ilegalidades, foi pactuado com essas veleidades até que percebeu que a situação estava a ficar descontrolada. Os clientes e os accionistas já não confiavam na família para gerir o banco. No sector da banca, onde a confiança é o bem mais precioso, o "logo se vê" e o "deixa andar" é meio caminho para a desgraça. Na banca não se deve confiar por defeito. E por norma deve-se desconfiar. É a desconfiança dos reguladores que nos faz confiar em quem guarda o nosso dinheiro.

E foi já em desespero que o Banco de Portugal correu com Ricardo Salgado e nomeou Vítor Bento para tomar conta do banco. Bento tem nome de Papa, mas não faz milagres. O que a nova administração do BES precisa nesta altura é de tempo e dinheiro. E tempo é dinheiro. Tempo Vítor Bento não vai ter. As acções chegaram ontem a cair 50%. E Bento não se pode dar ao luxo de se enclausurar numa sala a ler relatórios e contas. Quando acabar de desenhar o seu plano estratégico de reestruturação, já não terá nada para reestruturar.

Dinheiro será muito difícil de desencantar. Os actuais accionistas que foram ao último aumento de capital em Junho compraram acções a 65 cêntimos. Ontem essas mesmas acções chegaram a ser vendidas a 17 cêntimos. Só mesmo por masoquismo é que voltam a meter dinheiro no banco.

Há outra opção para salvar o BES. O Banco de Portugal e Vítor Bento garantem que há investidores de fora interessados. Com as imparidades e provisões agora assumidas, os capitais próprios do banco ficaram reduzidos a 3 mil milhões de euros. Isto quer dizer que o BES precisa, no mínimo, de outros 3 mil milhões para repor os rácios a níveis confortáveis e acima do mínimo legal. E quem lá puser os 3 mil milhões, tendo em conta a actual capitalização, ficará com mais de 70% do BES, o que até parece ser um bom negócio.

O problema é que, enquanto não se perceber a real dimensão das perdas, nenhum investidor privado arrisca investir no BES. E para apurar as perdas totais vai ser preciso tempo. E tempo é coisa que o banco não tem. Como tal, resta o Estado, que ainda tem 6,4 mil milhões de dinheiro da troika precisamente para tapar buracos na banca. E aqui não se trata de salvar a família ou de nacionalizar prejuízos. Trata-se de salvar o património dos clientes e o sistema financeiro. E não precisamos de ter grandes pruridos ideológicos. Os bancos têm de ser nacionalizados quando têm de ser nacionalizados e ponto final.