Do Goldman Sachs até Bruxelas, passando pelos elogios à troika

Três anos a servir de elo de ligação entre o Governo de que fazia parte e a troika fizeram de Carlos Moedas o grande defensor dentro do Executivo das reformas para liberalizar a economia.

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Carlos Moedas coordenava ligação do Governo com a troika Rui Gaudêncio

Nascido em Beja em 1970, filho de um jornalista do Diário do Alentejo e de uma educadora de infância, o até agora secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro cedo se distinguiu nos estudos. Tirou o curso de Engenharia Civil no Técnico em Lisboa. Através do programa Erasmus, fez o último ano na École Nationale des Ponts et Chaussées em França, iniciando uma experiência no estrangeiro que acabou por durar 11 anos.

Esteve em Paris, onde conheceu a sua futura mulher, entre 1993 e 1998, a trabalhar na empresa de fornecimento de água Lyonnaise des Eaux, do grupo Suez.

Foi depois para os Estado Unidos, onde completou um MBA na Harvard Business School. Com esse diploma, as portas ficaram abertas para a realização de um estágio num dos grandes bancos de investimento norte-americanos, o Goldman Sachs.

Essa passagem pelo banco conhecido por contratar ex ou futuros líderes políticos norte-americanos e europeus acabou por marcar decisivamente o percurso de Carlos Moedas. Foi aí que conheceu António Borges, alguém que o próprio Moedas disse ter sido uma “inspiração” e “a pessoa mais inteligente e mais bem preparada que o país tem”.

Depois de dois anos no Goldman Sachs, passou por empresas especializadas no mercado imobiliário, uma das quais – a Aguirre & Newman – o trouxe de volta a Portugal, em 2004, onde acabou por fundar  uma nova firma de investimentos, com sócios como Pais do Amaral, Filipe de Botton e Alexandre Relvas.

Foi por essa altura que começou a entrar no mundo da política, com o apoio decisivo de António Borges. Participou no gabinete de estudos do PSD, onde conheceu Pedro Passos Coelho, ainda antes de este ser líder do PSD. À revista Visão, Carlos Moedas contou mais tarde o que resultou desse primeiro encontro: “Estava no gabinete de estudos, mas não me conheciam bem. A primeira pessoa que me deu valor foi o primeiro-ministro que me disse: 'Sei que é trabalhador e gostava de contar consigo. Se ganhar as eleições internas, telefono-lhe no dia seguinte, de manhã.”

Passado pouco tempo, já estava ao lado de Eduardo Catroga a negociar com o PS e com a troika o programa de ajustamento português e a candidatar-se a deputado como cabeça de lista do PSD em Beja. Começou logo a destacar-se pela forma como defendeu o plano de redução da TSU das empresas, que seria compensada por uma subida do IVA. É a “única maneira” de baixar os custos de produção das empresas sem diminuir salários, dizia.

A escolha para secretário de Estado adjunto do Primeiro-ministro não surpreendeu. Ficou com a tarefa de coordenar a relação do Governo com a troika. Raramente poupou nos elogios ao programa de reformas estruturais delineado pelo Governo e pela troika, não se ouvindo da sua parte críticas ou reservas em relação aos resultados da estratégia seguida. Mesmo quando o FMI apresentou no início de 2013 as suas sugestões para a reforma do Estado, onde se defendiam cortes na despesa com pensões e salários mais drásticos dos que os realizados pelo Governo, Carlos Moedas foi um dos poucos membros do Executivo a arriscar deixar elogios, dizendo que o relatório era “muito bem feito, muito bem trabalhado”.

Agora que o programa da troika acabou e que as avaliações feitas pela Comissão Europeia passarão a ser o teste mais difícil que Portugal irá ter de regularmente passar, Carlos Moedas transfere-se para Bruxelas. O cargo que irá ocupar ainda é desconhecido.