Crítica

Big Bang

A Orquestra trabalha inéditos de alguns do compositores mais originais do nosso tempo.

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Pontuada pelo contínuo refinamento, a Orquestra Jazz de Matosinhos (OJM) vem desde 1999 desenvolvendo um percurso musical que passa não só com colaborações com grandes nomes internacionais, como também pela ligação a algumas figuras da cena musical portuguesa.

Após o belíssimo Bela Senão Sem, editado no ano passado em parceria com o pianista João Paulo Esteves da Silva, a orquestra encetou uma colaboração com oito notáveis compositores/músicos da cena contemporânea. A OJM programou um ciclo de oito concertos, convidando oito compositores, interpretando a sua música e encomendando a cada um temas novos e exclusivos, que foram interpretados em estreia mundial pela primeira vez em Matosinhos. Agora a Orquestra reuniu esses temas inéditos num único disco, que se apresenta pomposamente com a designação “composição contemporânea europeia-americana para big band” (“today’s european-american big band writing” é mesmo o subtítulo oficial do disco).

A orquestra, sob a liderança bicéfala de Pedro Guedes e Carlos Azevedo, convocou para este projecto um leque diversificado de compositores: Ohad Talmor (Israel/EUA, 1970), Pierre Bertrand (França, 1972), Darcy James Argue (Canadá, 1975), Steven Bernstein (EUA, 1961), Guillermo Klein (Argentina, 1969), Florian Ross (Alemanha, 1972), Julian Argüelles (Inglaterra, 1966) e Frank Vaganée (Bélgica, 1966). Se é difícil encontrar no grupo alguma coerência geográfica, é desde logo visível uma bem definida coerência geracional – são todos músicos que vivem neste momento o seu esplendor criativo. Os compositores trouxeram todos temas elevando grau de complexidade, que evitam clichés e formatos típicos habitualmente associados ao conceito big band, preferindo concepções fora da caixa, surpreendentes e eficazes. As estratégias são diferenciadas, sem uma clara linha comum: há temas onde a toada é colectiva e não há qualquer espaço para pormenores individuais, há um tema onde cabem cinco solos (a composição OJM de Bernstein).

A interpretação, comme d’habitude, está irrepreensível e nunca é demais realçar qualidade dos instrumentistas. Há que referir, mais uma vez, a excelência dos músicos: dos saxofonistas João Guimarães ou José Pedro Coelho, dos trompetistas Gileno Santana ou Susana Santos Silva (solo em Tiempo & Lugar) e de músicos como André Fernandes (guitarra) e Demian Cabaud (contrabaixo), entre outros. Se os temas foram escritos com agilidade inventiva, a sua execução foi trabalhada com rigor, mas revela também dinâmica e desenvoltura. Aqui fica mais um formidável volume para a discografia, cada vez mais consistente, da mais internacional big band portuguesa.