Opinião

Não se mencione o excremento

Esta campanha vai dar cabo do PS, mas também está a dar cabo de Costa.

Tomás de Alencar é uma das mais coloridas personagens de Os Maias, poeta de grandes assomos românticos e cultor de um absoluto desprezo pela literatura realista. Infelizmente, em finais do século XIX, os ares dos tempos não estavam com ele.

E à medida que a moda do realismo ia torpedeando o velho romantismo, Alencar achou por bem cunhar uma frase definitiva, que ele utilizava para colocar um ponto final em qualquer conversa sobre o tema: “Rapazes, não se mencione o excremento!”

António Costa está a transformar-se no Tomás de Alencar de 2014: a dívida é o seu excremento. Afinal, se podemos estar entretidos com o romantismo de uma “agenda para a década”, para quê perdermos demasiado tempo com o realismo das contas públicas? E por isso, na sua miniconvenção do passado sábado, em Aveiro, Costa definiu um programa político onde não havia uma única palavra sobre a dívida, argumentando que “não podemos viver limitados ao dia de amanhã”. No seu entender, a consolidação orçamental é apenas “uma questão instrumental”, que implica medidas de “curto prazo”, e que, por isso, não cabe num debate sobre uma “visão estratégica” para o país.

É uma argumentação extraordinária, esta, e o meu único consolo é acreditar que António Costa não acredita no que está a dizer. Costa até pode ser discípulo daquele ramo socrático das finanças públicas que defende que a dívida não é para pagar, mas apenas para gerir. Só que a questão – a verdadeira questão da década – é que a dívida se tornou ingerível, e portanto é impensável uma qualquer estratégia de longo prazo que não tenha como base as limitações económicas do país. Não é uma mera questão de “curto prazo”. É de curto, é de médio e é de longo prazo. Mesmo sendo verdade que nos últimos anos o controlo da dívida foi o único ponto da estratégia do actual Governo, e que nessa obsessão se perdeu capacidade para ver além da ponta do nariz, convém que António Costa reconheça que o nariz está lá.

Perante a enxurrada de críticas que caiu sobre a “agenda para a década” e sobre a sua evidente alienação política, Costa lá foi obrigado a referir o tema na sua intervenção final. Mas, mais uma vez, fê-lo através da nobre arte de abrir a boca para não dizer coisa alguma, área em que se tem vindo a revelar destacado especialista, assumindo apenas a necessidade de equilibrar “o serviço da dívida” com o investimento na economia. De que forma? Não interessa. Melhor: não se deve sequer responder a tal pergunta, na medida em que é indispensável mudar de quadro mental. Responder-lhe seria pensar como a direita, e quando se pensa como a direita, governa-se como a direita.

O facto de António Costa achar que este género de retórica chega como programa político significa que não tem os portugueses em grande conta – e está a notar-se muito. Nesse aspecto, Seguro, ao impor um calendário eleitoral extensíssimo, entalou o seu adversário. Esta campanha vai dar cabo do PS, mas também está a dar cabo de Costa, vítima de um desgaste público que não esperava. É muito difícil estar três meses seguidos a falar de tudo menos daquilo que mais importa. É uma exposição terrível para quem procura desesperadamente não mencionar o excremento, sobretudo quando o excremento está à vista de todos e cheira tão mal. “Quando o vejo”, dizia Tomás de Alencar, “enfrasco-me logo em água-de-colónia”. Esperemos que António Costa já tenha encomendado um vasto

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de Old Spice.