Israel mostra a força das suas bombas para vergar o Hamas

Num dos dias mais mortíferos em três semanas de conflito, bombardeamentos violentos arrasaram a Faixa de Gaza.

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90% de Gaza estava sem energia depois de Israel ter atacado a única central eléctrica do território Mohammed Salem/Reuters
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Uma imagem captada junto à fronteira com Gaza mostra a única central eléctrica de Gaza em chamas AFP/JACK GUEZ
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Soldado israelita reza junto à fronteira com a Faixa de Gaza AFP/JACK GUEZ
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Pai e filho olham para o que sobra da casa do líder do Hamas em Gaza, Ismail Haniya AFP/MAHMUD HAMS
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Um tanque israelita dispara junto à fronteira AFP/DAVID BUIMOVITCH
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Yulia, a namorada do sargento israelita Adi Briga, repousa a mão sobre o seu caixão AFP/DAVID BUIMOVITCH
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Crianças brincam no meio dos escombros da guerra REUTERS/Finbarr O'Reilly
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Um bombeiro palestiniano junto à central eléctrica destruída: Gaza ficou às escuras do dia dos mais violentos bombardeamentos REUTERS/Mohammed Salem

A escala da destruição era vista em imagens do antes e do depois na Faixa de Gaza: antes, uma rua com casas. Depois, uma rua com um monte de destroços, nem um único edifício em pé. Antes, uma mesquita com um parque em frente. Depois, um edifício calcinado, no meio de pedaços de cimento cinzento. Antes, um bairro de habitação, algumas árvores. Depois, nada. Antes, uma torre de electricidade. Depois, uma torre de electricidade por terra. Foi o dia mais devastador e um dos mais mortíferos da operação militar israelita em Gaza.

A casa do primeiro-ministro do Hamas em Gaza, Ismail Haniyeh, foi destruída num ataque israelita. Na montanha de destroços, alguém pôs a bandeira palestiniana. Ninguém morreu – já ninguém estava lá.

Jornalistas questionam o objectivo da ofensiva. Israel disse que a missão era acabar com os túneis do Hamas, mas vários ataques saíram deste âmbito: a única central eléctrica do território (estima-se que 90% da população de 1,8 milhões esteja sem energia), a casa vazia de Haniyeh, um edifício do ministério das Finanças, uma estação de televisão. Estes alvos parecem indicar outro objectivo antecipado por comentadores, que é forçar o movimento islamista palestiniano a uma posição de fraqueza antes de negociar. Ao atingir os seus chefes, e levando a população a dificuldades enormes, a pressão aumenta para que seja aceite um cessar-fogo cujos termos sejam mais favoráveis ao Estado hebraico.

Este foi não só o dia com mais fortes bombardeamentos, como parece ter sido mesmo o mais mortífero, com mais de 140 vítimas. “As áreas atingidas não são perto das fronteiras, não são dentro das zonas que o exército disse para serem evacuadas, não são zonas pouco povoadas”, sublinhava no Twitter o médico palestiniano Belal Dabour. O campo de refugiados de Jabaliya, por exemplo está entre as zonas mais densamente povoadas do mundo num território que é ele todo já dos que tem mais concentração de população. Houve bombardeamentos na Cidade de Gaza, no campo de Bureij, no Centro, em Rafah, no Sul, em Jabaliya, no Norte.

Por outro lado, o Hamas continuava a fazer uso dos túneis e a conseguir provocar danos e instabilidade em Israel – combatentes infiltrados em Israel através de um túnel mataram cinco soldados no Sul de Israel. Um dos combatentes foi morto, outros três conseguiram voltar para Gaza. Temendo que alguns homens armados tivessem continuado para alguma comunidade perto, soldados passaram a zona a pente fino.

Esta foi a quarta infiltração de homens armados de Gaza em Israel neste conflito. No primeiro, os infiltrados foram mortos, no segundo, os atacantes mataram dois militares, no terceiro, usando uniformes do exército israelita, mataram quatro soldados.

A UNRWA, a agência da ONU que dá apoio aos refugiados palestinianos, diz que tem agora a seu cargo 200 mil pessoas em 85 abrigos espalhados pelo pequeno território. De Gaza não se sai para lado nenhum. Não há para onde fugir.

Num desses refúgios, crianças com roupas novas do Eid – três dias em que se comemora o fim do Ramadão – brincavam com os seus presentes. Uma segurava uma arma de brincar. O seu pai, Hazem al Masri, reconhecia ao Wall Street Journal que dadas as circunstâncias, aquele não parecia o melhor brinquedo. Mas justificava: “Ele quer sentir-se seguro. Só se sente seguro quando tem aquela arma nas mãos.”

No conflito já foram atingidas escolas da UNRWA que serviam de refúgio a muitos deslocados. Um ataque em particular provocou particular condenação, porque vitimou mulheres e crianças que esperavam para ser levadas para outro local, mais seguro. Israel diz não ter a certeza de quem lançou os quatro morteiros sobre a escola, os palestinianos dizem que foi o Exército hebraico.

O porta-voz da UNRWA, Chris Gunness, disse que há informação de mais funcionários da agência mortos em Gaza. “Os trabalhadores humanitários estão a pagar um preço intolerável, assim como estão todos os civis”, comentou.

Um alto responsável israelita disse, citado sob anonimato pelo Canal 2 da televisão israelita, que já foram mortos 1000 combatentes armados.

Mais de 200 crianças mortas

A ONU estima que entre 1065 mortos contabilizados (menos do que os 1113 contados por responsáveis palestinianos), pelo menos 795 são civis, entre os quais 229 são crianças. A Unicef apontava pelo seu lado 239 crianças mortas. Crianças e adolescentes, num território em que metade da população tem menos de 18 anos, têm sido das vítimas mais visíveis do conflito. Pequenos corpos levados em braços por pais em luto em lençóis brancos ensanguentados, ou deitadas em camas de hospital, ligaduras na cabeça da mesma cor que as fraldas, ferimentos que parecem tão grandes.

Do lado de Israel, o exército reconheceu a morte de 53 soldados e disse que tinham sido lançados 2612 rockets sobre o seu território nas últimas três semanas. Há três civis mortos contabilizados do lado israelita.

Ao cair da noite, surgiam esperanças de um cessar-fogo, que chegou mesmo a ser anunciado pela TV israelita. Mas pouco depois foi desmentido. Foi anunciado um pedido do Hamas para um cessar-fogo, e logo depois o Hamas desmentia.

Continuaram ainda as afirmações e contra-afirmações acerca de quem disse o quê durante a tentativa de negociação de um acordo levada a cabo pelo secretário de Estado dos EUA, John Kerry e que provocaram celeuma e crispação entre os norte-americanos e os israelitas. Kerry disse que foi Netanyahu a pedir-lhe que negociasse uma trégua.

Enquanto isso, Gaza, praticamente mergulhada no escuro pela falta de electricidade, preparava-se para mais uma noite de bombardeamentos.