Entrevista

Jay Winter: “A Grande Guerra foi uma guerra contra civis tanto quanto foi uma guerra entre exércitos”

Jay Winter, um dos mais importantes historiadores do século XX, não podia ser mais claro: todos os principais poderes podiam ter evitado o conflito. Nenhum o fez.

Nesta entrevista, Jay Winter, coordenador dos três volumes da Cambridge History of the First World War, oferece-nos um fresco estimulante sobre o que sabemos, o que escondemos ou minimizamos e o que precisamos de não esquecer sobre o que motivou a Primeira Guerra Mundial e sobre as suas nefastas consequências humanas.

A guerra, diz-nos Jay Winter, foi um “matadouro” mas também um “acto de desaparecimento”: cerca de "metade dos que faleceram não têm túmulo conhecido". Infelizmente, a sua ideia de “degeneração da guerra”, que também aborda nesta entrevista, não podia ser mais útil para compreendermos alguns dos recentes e actuais conflitos. A instrumental diluição das fronteiras entre as dimensões civis e militares dos conflitos continua a ser uma inaceitável realidade.

A Cambridge History of the First World War (2013), coordenada por si, é uma combinação de síntese e de inovação historiográficas. Será que pode, de forma resumida, identificar as principais linhas de orientação e os mais importantes resultados deste trabalho colectivo?

Ao adoptar uma abordagem estritamente comparativa, evitamos as limitações das histórias nacionais, resultantes das narrativas nacionais já existentes e predominantes. Julgo que oferecemos material para que a próxima geração de historiadores possa escrever a história nacional dos países intervenientes na guerra de 1914-1918 partindo de uma visão externa. Por exemplo, que a performance ou as consequências negativas de cada caso nacional possam ser determinadas por via da comparação com outros casos participantes. Ao adoptar uma abordagem estritamente transnacional, iluminamos ainda as razões pelas quais a guerra foi vencida e perdida. Em suma, providenciamos um método para escrever a história da guerra que extravasou as fronteiras nacionais de cada país interveniente.

Considerando a vasta e excelente literatura sobre este tópico já existente, quais são os temas da historiografia actual que prometem desenvolvimentos futuros de relevo?

A história cultural da guerra na frente de Leste e no império otomano só agora começou a ser escrita, por exemplo. A deslocação do enfoque da investigação da Europa Ocidental para a Europa de Leste e para a do Sul, e para o Médio-Oriente, é o desenvolvimento mais importante neste campo de pesquisas.

O legado das várias gerações de estudiosos, não só académicos, da Primeira Guerra Mundial tem uma importância inegável, difícil de ignorar. Na sua opinião, quais são as contribuições recentes mais importantes? Que novas perspectivas, problemas, temas e resultados merecem especial referência?

As pesquisas mais recentes têm demonstrado que a Grande Guerra foi uma guerra contra civis tanto quanto foi uma guerra entre exércitos adversários. O tratamento desumano de civis tanto pelo seu próprio exército como pelo exército inimigo tem sido um dos mais assustadores desenvolvimentos historiográficos, enformando muita da literatura relevante sobre crimes de guerra, genocídios e atrocidades várias que tem sido publicada. Estes aspectos foram uma parte integrante da Grande Guerra, central no seu desenrolar. Não foram nem aspectos acidentais, nem danos colaterais.

Neste sentido, quão revolucionária foi a Primeira Guerra Mundial?

O carácter revolucionário da guerra pode ser identificado a partir de dois níveis. O primeiro remete para a maneira como esta provocou as duas revoluções russas de 1917 e gerou uma espiral de violência revolucionária e contra-revolucionária como consequência. O segundo assenta na necessidade de nos debruçarmos sobre a revolução na violência na guerra, ou seja, no modo como esta criou uma linha de montagem de morte e destruição a que o mundo jamais assistira. Claro que existiram precedentes na Guerra Civil Americana e na guerra entre a Rússia e o Japão, mas o que aconteceu em 1914-1918 marcou uma diferença no grau – o nível absoluto de violência – que se tornou uma diferença no tipo – a revolução na condução da guerra que preparou o terreno para a Segunda Guerra Mundial.

A este propósito, uma das suas ideias centrais é a da “degeneração da guerra” ocorrida com a Primeira Guerra Mundial, visível, sobretudo, na diluição das fronteiras entre as dimensões civis e militares do conflito. Pode elaborar um pouco mais sobre esta ideia?

No essencial, essa diluição ocorreu de vários modos. Ocorreu tanto em casos de ocupação militar (por exemplo, o caso do Império Alemão em França e na Bélgica) como em casos de governação dos próprios súbditos ou cidadãos (por exemplo, na Galícia e na Anatólia): os civis foram violentados, enviados para campos de concentração ou foram sistematicamente aterrorizados e assassinados.

Mas qual é o caso mais significativo?

O pior caso foi o genocídio arménio que constituiu um acto de guerra perpetrado pelo governo turco-otomano contra dois milhões dos seus próprio cidadãos. Claro que a “degeneração da guerra” ocorreu em campos de concentração, existentes um pouco por toda a Europa, que encerravam civis ou inimigos estrangeiros. Mas é fundamental notar o papel do genocídio que se manifestou em 1915 na Arménia. O triunvirato que coordenava o esforço de guerra otomano decidiu no sentido de uma “solução final” do problema arménio em conjuntura de guerra, o que constituiu um claro precedente para a guerra movida pelos nazis contra os judeus na Segunda Guerra Mundial.

O genocídio foi, nestes casos, o resultado da degeneração de um conflito internacional num assassínio em massa de um grupo étnico particular, que tinha de ser aniquilado pelo que era, não pelo que fazia. Isto aconteceu primeiro na Turquia otomana, durante uma guerra na qual a elite governante considerou uma minoria étnica como uma ameaça directa à sobrevivência da nação turca. Eis o paralelo com o Holocausto. O genocídio aconteceu em ambas as guerras mundiais porque o assassínio de civis na defesa do teu país tornou-se normal e legítimo. Estes são os factos cruciais que sustentam o argumento de que houve uma degeneração da condução da guerra em 1914-1918, que criou condições para catástrofes posteriores.

Um trabalho prestes a ser publicado, também em português, Empires at War, 1911-1923 (editado por Robert Gerwarth e por Erez Manela), tem como propósito essencial advogar a necessidade imperiosa de duas transformações no modo como pensamos a Primeira Guerra Mundial. Defende que é necessário redefinir a cronologia do conflito: os acontecimentos “iniciais” devem ser a invasão italiana da Líbia (1911) e os conflitos nos Balcãs (1912), os pontos “terminais” devem ser os conflitos associados à desintegração da Rússia czarista e dos impérios Otomano e Austro-Húngaro. Argumenta também que a Primeira Guerra Mundial deve ser concebida como um conflito global protagonizado por Estados-império, não Estados-nação. Como pensa estas questões? Qual é a relevância da dimensão imperial?

A dimensão imperial foi fundamental para o desenrolar da guerra. A Cambridge History of the First World War oferece uma cobertura completa à história imperial do conflito, incluindo novas pesquisas relevantes tanto sobre impérios formais como informais, do Império Otomano à América Latina.

Mas acha que podemos afirmar que a dimensão imperial foi uma das causas principais da guerra?

A Alemanha foi para a guerra para conquistar um império, mas precisava de um império para ganhar uma guerra entre países industrializados. A Alemanha procurou colónias fora da Europa e, inicialmente, visou obter, no mínimo, paridade com a Grã-Bretanha nos assuntos europeus. Assim sendo, o que transformou a querela entre a Sérvia e a Áustria numa guerra mundial foi a ligação entre a Sérvia e a Rússia, que activou a aliança Franco-Russa, e a ligação entre a Áustria-Hungria e a Alemanha, que activou o Plano Schlieffen [nota: o plano estratégico desenhado pelo General Conde Alfred von Schlieffen em Dezembro de 1905, aplicado com modificações por Helmuth von Moltke no início da Primeira Guerra Mundial] e a invasão da Bélgica. A Grã-Bretanha não podia tolerar uma vitória alemã, que teria conferido à marinha alemã o controlo do Canal da Mancha, via estratégica na importação de bens alimentares. A protecção de interesses vitais foi a causa da entrada da Grã-Bretanha na guerra...

Por outro lado, acha que podemos considerar, como muitos fazem, que um dos impactos da guerra foi precisamente o início do fim dos impérios como forma legítima de organização política?

O imperialismo sobreviveu à guerra, a Grã-Bretanha e a França usaram o sistema dos Mandatos da Sociedade das Nações para continuar a defender os seus interesses imperiais. Mas nenhum deles pôde continuar a fazê-lo no rescaldo da crise económica mundial de 1929-1932. Neste sentido, a Primeira Grande Guerra foi simultaneamente o apogeu e o início do declínio da era do imperialismo. Foi preciso uma Segunda Guerra Mundial para tornar a descolonização tanto necessária como possível. Mas foi apenas nos anos 50 e 60 que a posse de colónias se tornou um assunto vergonhoso. Em meados dos anos 60, a era dos impérios formais terminou.        

Na sua opinião, quais foram as mais importantes transformações societais relacionadas com a Primeira Guerra Mundial?

A primeira grande transformação foi a expansão no poder do Estado e nas suas responsabilidades para com os seus cidadãos. Antes de 1914, o Estado era um protagonista menor na vida económica. O armistício de 1918 não acarretou o retorno para o status quo ante-bellum. Constituiu antes um efeito de limite, ou seja, a proporção do Produto Nacional Bruto de um Estado ocupada pelo próprio Estado nunca mais regressou aos níveis anteriores ao conflito. Isto sucedeu porque estes foram obrigados a pagar as dívidas geradas pelo conflito e a suportar as suas responsabilidades em relação às suas vítimas, nomeadamente aos veteranos inválidos.

O estabelecimento e a avaliação de “legados” históricos são exercícios evidentemente arriscados. Uma abordagem cautelosa a este tipo de narrativas históricas é obrigatória, especialmente na nossa disciplina. Actualmente, são muitos os jornalistas e os académicos que procuram estabelecer inúmeros paralelos entre o período histórico anterior ao deflagrar do conflito e vários acontecimentos presentes. Qual é a sua opinião sobre isto? Quais são os “legados” da Primeira Grande Guerra? Se eles existem de forma definida, quais são os mais notórios hoje em dia?

Os mais importantes legados do conflito são a morte de 10 milhões de pessoas e a mutilação de mais 25 milhões. A contribuição rica e variada da dita “geração perdida” para a vida cultural dos países envolvidos é um outro exemplo. A Grande Guerra foi ainda o momento em que a história das famílias se cruzou com a história mundial. É no interior das primeiras que as consequências do conflito se encontram mais profundamente inscritas, em documentos e narrativas familiares, em fotografias e cartas transmitidas de geração em geração.

E num plano político, o que destacaria?

Num plano completamente diferente, o mais poderoso efeito da guerra de 1914-1918 foi o falhanço rotundo em substituir o defunto Império Otomano com um sistema estável de estados independentes. Ainda hoje, a história sangrenta do Médio Oriente está directamente relacionada com o legado dos poderes imperiais, sobretudo a Grã-Bretanha e a França, que continuaram a exercer o poder imperial através do sistema dos mandatos da Sociedade das Nações, como referi anteriormente. A luta anti-imperial coincidiu com uma crise no Islão que também tem raízes no colapso do Califado decorrente do início do fim do Império Otomano. Em conjunto, estes legados da Grande Guerra prejudicaram as relações internacionais e afectaram a vida de milhões de pessoas ao longo de um século. Vejam-se ainda os casos do Egipto, da Síria e do ingovernável conflito entre Israel e a Palestina. São outros casos exemplares destes legados.

Regressando a um aspecto que referiu de passagem: quais são os exemplos mais marcantes da contribuição da dita “geração perdida” para a vida cultural dos países envolvidos na Primeira Grande Guerra?

Na Grã-Bretanha, os poetas da Grande Guerra são ensinados nas escolas e nas universidades, e entraram no vernacular da língua inglesa. Em França cada aldeia tem um monumento listando um conjunto chocante de homens que morreram na Grande Guerra. Mais tocante são os nomes repetidos de irmãos, pais e filhos que foram para a guerra e nunca voltaram. Num plano mais geral, a Primeira Grande Guerra não foi apenas um matadouro.

O que foi ainda?

Foi um acto de desaparecimento. Metade dos homens que morreram não têm túmulo conhecido. É isso que explica o culto dos nomes dos desaparecidos, que apareceu em 1918 e que tem sido repetido ao longo do século até hoje: no Holocausto, no memorial aos veteranos da Guerra do Vietname da autoria de Maya Lin, em Washington, na Argentina, na Nicarágua, nas Honduras e, finalmente, em Nova Iorque, no dia 11 de Setembro de 2001. Em cada um destes casos, apenas os nomes permanecem. A sua presença fantasmagórica tem atormentado o século XX desde que a Grande Guerra explodiu um pouco por todo o mundo.

O que pensa da história contrafactual que aborda o tema da Primeira Grande Guerra? Recentemente, no jornal Guardian de 13 de Março de 2014, o notável historiador Richard J. Evans desferiu várias críticas ao modo como Max Hastings e Niall Ferguson trataram o tema em documentários televisivos partindo de raciocínios e argumentos alimentados por uma história contrafactual. Hastings especulando que,  caso tivessem vencido a Guerra, os Alemães teriam “esmagado” a Europa sob a liderança de uma “ditadura proto-Nazi”, Ferguson declarando que os Alemães teriam criado um projecto semelhante ao que é hoje a União Europeia e que isso teria permitido a continuação do Império Britânico por mais um século. Que pensa deste tipo de operações intelectuais?

A história contrafactual não passa de uma operação que visa esconder posições ideológicas através do uso de uma análise pseudo-histórica. A maioria dos que a exercitam são ou de direita ou são nacionalistas, ou ainda ambos. A razão pela qual este tipo de raciocínio não funciona encontra-se no seguinte facto: a história contrafactual requer que sejamos precisos acerca de todos os factores que contribuíram para eventos posteriores. Todos sabemos que não possuímos conhecimento suficiente para especificar estas variáveis e, assim sendo, afirmações baseadas nesta pseudo-lógica não merecem o papel em que são escritas.

Historiador (ICS/UL)