“Dizia que se fôssemos embora vinha atrás de nós e matava-nos”

Mais de dois anos depois de terem conseguido fugir de Alfândega da Fé, onde dizem ter estado subjugados a uma família que os escravizou por “mais de 20 anos”, Fátima e Manuel ainda não andam na rua sozinhos completamente à vontade.

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Miguel Nogueira

Tínhamos uma morada em Santa Comba, Vila Nova de Foz Côa. E o número de um telemóvel que estava sempre desligado. Ao quinto dia de tentativa de ligação, num sábado de manhã, uma voz feminina finalmente atendeu. Mas o vento do outro lado interferia e impedia de ouvir bem Fátima Résio. Perguntámos se lhe podíamos bater à porta na segunda-feira seguinte. E nesse dia de manhã, quando finalmente conseguimos que voltasse a atender, ficámos a saber que Fátima Résio vivia afinal em Seixas do Douro e não em Santa Comba. Seguimos caminho, sem ter a certeza de que tínhamos anotado a morada certa ou de que, à hora marcada, iríamos encontrar alguém na morada que nos deu.

Seixas fica para trás das curvas e contracurvas de montanhas do Douro, com as vinhas a espalharem-se pela paisagem. Tem pouco mais de 350 habitantes, mas às 15h não se vê vivalma nas ruas desta localidade, nem perto da capela de Santo António ou da Igreja Matriz. Seguimos em frente até à rua indicada, lá encontramos o número que anotámos. Alívio: na caixa de correio, lê-se o nome do marido de Fátima, escrito a caneta — Manuel Résio. Batemos, chamamos, ninguém do outro lado da porta, silêncio total. A vizinhança não sabe muito bem quem são Manuel e Fátima. Mandam-nos ir perguntar por eles num dos três cafés. Aqui neste café onde só estão homens a beber cerveja, o irmão de Manuel — José António — confirma: estão em Seixas, mas noutro café. Da esplanada, José António chama-os com um assobio forte e ordena-lhes, literalmente, que se aproximem. Aparecem. Vamos, enfim, para casa deles. 

Fátima está primeiro acossada. Acaba por falar com mais à-vontade, embora a memória não seja muito nítida. Manuel, tímido, só se junta depois à conversa. A casa é minúscula. Sobem-se umas escadas e há uma cozinha onde cabe o fogão, lava-loiças e uma mesa com lugar apenas para dois; a divisão a seguir é quarto e casa de banho tudo junto, com uma cama de casal, uma poltrona, lavatório e sanita. Não há uma sala de estar, mas há uma televisão virada para a cama.

Mais de dois anos depois de terem conseguido fugir de Alfândega da Fé, onde dizem ter estado subjugados a uma família que os explorou por “mais de 20 anos”, Maria de Fátima Cruz Costa Résio e Manuel dos Santos Almeida Résio ainda não andam na rua sozinhos completamente à vontade. Os 50 quilómetros de curvas que separam as duas localidades, Seixas e Alfândega, não fazem uma distância suficientemente grande para os deixar tranquilos. 

Fátima: Quando viemos de Alfândega para Santa Comba [onde estiveram antes de se mudarem para Seixas], estava com medo. Andava sempre a olhar para um lado e para outro, com medo de que ele [o que acusam de os ter escravizado] viesse ou que mandasse outros.
Manuel: Mesmo agora não ando muito afoito.
Fátima: Se andar sozinha, não ando nada descansada. Mandavam cá alguém para me fazer mal, e depois quem eram os culpados? 

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Fátima e Manuel Résio em Seixas do Douro

Fátima, 46 anos, tem uns olhos verdes muito vivos. Manuel, 59 anos, também tem olhos claros. Nem sempre se percebe o que dizem. Ele tem um braço imobilizado, consequência de uma queda que deu enquanto estava em Alfândega da Fé, na casa de José Manuel — assim, sem apelido. Em que data foi a queda é algo que ele não sabe precisar. Aliás, tudo o que é espaço temporal torna-se vago para Manuel e Fátima. Não sabem em que datas aconteceram as coisas e nem mesmo momentos mais decisivos como a sua “fuga” de Alfândega da Fé.   

Conheceram o homem que acusam de os ter escravizado, José Manuel, no “Zimbro, ao pé da Junqueira, para lá do Pocinho”, ali na zona.
— Foi lá a casa perguntar a este — aponta para o marido — se queria trabalhar para ele. Este chamou-me e disse: ‘Queres ir trabalhar?’ Eu nem disse que sim, nem que disse que não. Só disse: ‘Para d’onde tu fores, vou eu.’ Foi o que ele quis ouvir.

E assim seguiram viagem para Alfândega da Fé, ao que tudo indica por volta de 1992, com a promessa de ao fim do mês receberem pelo trabalho agrícola, incluindo vindimas em Espanha.
— A nós deu-nos tanto como temos aqui, diz Fátima, com tom de voz mais alto e irritado, mostrando uma mão vazia. E aos outros pagava-lhes. Nós andávamos lá como escravos.
Fátima chama o marido de apenas “meu”.
Porquê como escravos?
— Porque eu não podia ir para a vila. Não me deixava. Quando era para ir para as festas, ia eu e o meu [marido] ficava. Nunca íamos os dois ao mesmo tempo. Eu ia para a Espanha [trabalhar] e o meu ficava. Porque este braço — aponta para o braço paralisado do marido — não pode trabalhar. Com o tombo que deu dumas escadas para baixo.

Pelas suas contas, a queda deu-se há uns dez anos. Depois disso, Manuel receberia uma pensão de quase 300 euros. Ele acusa José Manuel de lhe extorquir esse dinheiro: chegava aos Correios, recebia o cheque, “assinava com o dedo”, que não sabe escrever, chegava cá fora e o outro dizia-lhe: “Bota cá o dinheiro.” A Fátima, Zé Manel também sacava o que ela ganhava:
— Eu ia à jeira e ele é que recebia. Ia à amêndoa, ia à azeitona e ele é que recebia. Desde que fomos para casa dele, nem um euro. Nem cem escudos, quando era em escudos, nos dava para tomar café.  

Ameaçava-os com paus. Dizia-lhes que se fossem embora ia atrás deles e os matava. Era violento, acusam. Dizia-lhes também:
— Que se fôssemos embora, nem que fosse para a América, vinha atrás de nós e matava-nos. Eu e o meu na cama à noite nem podíamos falar. Se estivéssemos a falar, punham-se à escuta e ouviam porque a porta estava aberta.

E Manuel, também se sentia como um escravo?
Manuel: Era igual. Se ele nem cinco tostões me dava para beber um copo de vinho ou para comprar umas casacas.
Fátima: Ele [José Manuel] às vezes até às quatro da manhã queria que ele [Manuel] se pusesse a botar o gado fora. Vinha às 11h, 12h, comia qualquer coisa, e depois tinha de atirar pedra até às 18h — nem dormia a sesta nem nada.
Manuel: Às vezes, nem me deixava ir comer.
Fátima: E ele também soube dizer que a comida era mal empregue, a comida que ele [Manuel] comia.
Manuel: Que eu havia de comer como comiam os cães.
Fátima: E disse também que um (eu) era a sangrá-lo e a outro (o meu marido) era matá-lo. Muitas vezes agarrava na vara do meu [marido] e batia-lhe. Eu só disse cá para mim e para o meu: ‘Não te preocupes, um dia que calhe vamos daqui embora.’
Mas Manuel respondia-lhe: E quem? Quem é que vem aí buscar a gente? Eu já não vejo [bem], vou aos tombos por aí abaixo?

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A casa é minúscula. O quarto do casal há a cama mas também lavatório e sanita

 "Não podíamos sair dali"

A Organização Mundial do Trabalho estima que há 21 milhões de pessoas vítimas de trabalho forçado, actividade que gera um lucro anual de 111 mil milhões de euros — a agricultura e trabalho doméstico são as áreas de maior preocupação, notam. No ano passado, o primeiro Índice Global de Escravatura revelava que havia 29 milhões de escravos no mundo. Portugal tinha entre 1300 e 1400 escravos.  

O relato de Fátima e Manuel sobre o que antecedeu e sucedeu é confuso. Não temos o processo para verificar factos que foram relatados na altura por ambas as partes. É normal a confusão espacial e temporal em vítimas. O caso ainda está sob segredo de justiça externo, apesar de a investigação estar na fase final, de acordo com o Ministério Público. Diz um comunicado de imprensa da Polícia Judiciária (PJ) de Setembro de 2012 que a fuga das vítimas foi em Agosto desse ano. A directoria Norte da PJ identificou e deteve três suspeitos — um homem, José Manuel, e duas mulheres, Maria Alice Gonçalves e Maria Helena Seixas — do crime de “tráfico de pessoas para fins de exploração laboral, sequestro e escravidão, perpetrados em território nacional e no estrangeiro, pelo menos ao longo dos últimos 20 anos”.

Maria Alice é ex-mulher de José Manuel, e Maria Helena é a sua actual companheira. Vivem todos em Alfândega da Fé e circulam pelo município livremente, dizem-nos no tribunal quando vamos pedir para consultar o processo. No gabinete, apontam-nos para o lado de fora da janela, dizendo: “Ele [José Manuel] costuma andar por aí pelos cafés.” Ficamos a saber depois que os três suspeitos — José Manuel, 60 anos, Maria Alice Gonçalves, 55 anos, e Maria Helena Seixas, 58 anos — são arguidos noutro processo, acusados de crimes de escravidão, sequestro e coacção contra outras quatro vítimas.

Nesse megaprocesso que tem mais de 30 mil páginas, o Ministério Público acusa 53 arguidos do crime de escravidão, algo histórico em termos internacionais, diz-nos Gulnara Shahinian, relatora especial das Nações Unidas sobre Formas Contemporâneas de Escravidão, porque raramente os casos chegam a tribunal e são julgados, ainda para mais com esta dimensão. 

Foram julgados 48 arguidos no processo principal, no Tribunal de São João Novo, no Porto — um dos processos seria separado, com quatro arguidos julgados e um por notificar, pois encontra-se em parte incerta. Sessenta e cinco testemunhas foram ouvidas, a maioria vítimas e familiares. O julgamento começou em Setembro do ano passado e a decisão da juíza está marcada para dia 28 (foi adiada para 5 de Setembro). O inquérito é de há dez anos, 2004, os factos são anteriores — por exemplo, há casos descritos na acusação a José Manuel que começaram em 2002.

Os três arguidos, com outros dois, foram identificados como fazendo parte do que a acusação chama Clã de Mirandela — tinham residência também nesta cidade. A decisão instrutória é de Julho de 2010, ou seja, antes de serem detidos por suspeita de escravizarem Fátima e Manuel Résio. O que se passou, então, entre Julho de 2010 e Agosto de 2012, data da fuga de Manuel e Fátima? Será que Fátima e Manuel perceberam que os “patrões” tinham sido acusados anos antes de tais crimes? Porque é que não pediram ajuda?
Fátima, levantando o tom de voz: A quem?
Manuel: Não podíamos sair dali, não podíamos sair dali.

Fátima tinha um telefone, mas tiraram-no. Telefone fixo em casa não havia. Não sabia os números de telefone de ninguém. E, pela descrição que os próprios fazem, não estavam propriamente isolados do mundo em Alfândega da Fé. A casa de José Manuel fica à entrada desta vila. Havia mais gente a trabalhar, mas eles tinham medo porque não os conheciam, sabiam lá se iriam ser denunciados — a retaliação seria pior. E há outro pormenor. 

Quando começaram a trabalhar para José Manuel, o casal tinha dois filhos pequenos. Tiveram outro durante o tempo em que lá viveram, a acrescentar a três filhos de uma anterior relação de Fátima. Os patrões levaram-na à maternidade para ter a criança, mas fazer queixa no hospital estava fora de questão porque Manuel não tinha tido autorização para a visitar, justifica. Roupa? Era a que lhes era dada, “às vezes até nem me servia”, desabafa Manuel. Nunca a escolheram. Dormiam numa casa “que nem vidros tinha, tinham-nos partido”. E na sala ao lado ficavam uns “dez ou onze” homens. “Para tapar a porta, tinha de pôr um cobertor.” A cama era de casal, mas sem lençóis, só cobertores em baixo e em cima.

As crianças cresceram com eles. Iam à escola e Maria Alice é que era “a encarregada de educação”. Na escola, nunca ninguém desconfiou de nada? “Não.” Os miúdos chamavam-lhes, a José Manuel e Maria Alice, pai e mãe.

Fátima: Viam os filhos [deles] chamarem mãe, habituaram-se a chamar-lhe mãe. O (filho) que está na Suíça chama-lhe mãe. E ela é madrinha. O mais novo, que até tenho aí a fotografia, chama-lhe mãe. Ela dizia: ‘Nós não somos os teus pais, os teus pais verdadeiros são estes dois. O Manuel e a Fátima é que são os vossos pais.’

E os filhos, que diziam?
— Ah, o que é que hão-de dizer?
Fátima é evasiva sobre o contacto que hoje tem com os filhos. Não conseguimos perceber quantos é que ainda vivem em Alfândega da Fé com Maria Alice, que entretanto se separou de José Manuel, mas vive numa casa que fica paredes meias com a dele. Os dois tinham cinco filhos, segundo Fátima. Com Maria Helena, José Manuel adoptou mais uma menina.
— Às vezes, eu telefono para eles, o garoto mais novo está na cama a dormir. Quem atendeu até foi a filha do Zé Manel, e eu disse: ‘Então o (…)?’ E ela: ‘Está na cama. Agora está a dormir, não vou acordar o garoto para falar convosco.’
Alguma vez pediram ajuda aos filhos de José Manuel e Maria Alice?
— Não — responde Fátima, olhando para baixo e a mexer numa faca que não larga durante a conversa. — Eles até não queriam que nós saíssemos de lá. Porque muitas das vezes as coisas que o pai pedia aos filhos para fazer os filhos depois pediam-me a mim e eu fazia [por eles].

Manuel tinha tentado fugir duas vezes. Por duas vezes também José Manuel lhe abriu a cabeça com um pau. No hospital, mesmo que quisesse dar queixa deles, não conseguiam porque “eles estavam sempre ao pé”. Fugiu, mas voltou.

Manuel: Voltei porque me aldrabaram.
Fátima: ‘Vem aqui a Foz Coa porque a tua [mulher] está aqui’ (disseram-lhe). Mas eu não estava lá. Apanharam-no lá e levaram-no para Alfândega. Ainda lhe bateram.
Fátima diz que nunca teve a tentação de ir com ele. Porque mal saía de casa iam atrás.
— Se fosse à casa de banho, eles punham-se à esquina a ouvir.
E os filhos?
— Dormiam em casa deles.
Durante quantos anos?
— Nem sei. Anos.

Foi, porém, o filho mais velho de Fátima, emigrado na Suíça, que os foi buscar, numa noite de Agosto. Fátima tinha conseguido falar com ele, que lhe respondeu, segundo conta:
— Tu ligas à tua mãe, se ela te aceitar em casa, então eu vou-te lá buscar. Para te ir buscar e andares aos pontapés de uns e de outros, então não vale a pena. Disse Fátima à mãe: ‘Oh mãe, aceita-me aí em casa?’ ‘Aceito.’  
No dia 8 ou 9 de Agosto de 2012, Fátima virou-se para Manuel:
— Psst, ó menino, vamos embora.
— Atão e eles?
— Eles estão numa festa.
Estiveram escondidos até por volta das 23h30.
— Eu estava escondida, agachada. Passavam carros.
Veio o filho.
— Esta sai, põe-se à frente da estrada: ‘Vamos embora ou não vamos?’, conta Manuel.
— Ele abre a mala do carro, eu ponho a roupa na mala, entro no carro mas sempre a olhar para trás com medo que nos vissem e lhes fossem dizer.
Que é que queriam que acontecesse a José Manuel?
Fátima: Dar-me o dinheiro que me roubou e estar preso.
Manuel: Que o tivesse levado o diabo e nunca mais saísse de lá.

"Não trato mal ninguém"

Não é de facto nada difícil de descobrir a casa de José Manuel e de Maria Helena e a de Maria Alice. Difícil é pô-los a falar e chegar a ver os filhos de Fátima e de Manuel. É uma casa pintada de cor forte com um pátio grande. Largado está um brinquedo de criança. Vem à porta uma das filhas do casal, que não se identifica e responde desconfiada. A mãe está num curso, vem à hora de almoço. Com o pai não tem contacto, diz — e nada de tirar fotos que ela não quer aparecer no jornal.

Passado cerca de um hora, José Manuel chega finalmente à porta de casa da ex-mulher. Reage zangado às nossas perguntas. Diz que os filhos de Fátima e de Manuel estão “todos revoltados” com os pais. 
— Estão revoltados por fazer aquilo que fizeram, dizem que o pai e a mãe não têm razão nenhuma para fazer aquilo que fizeram. Eles andam bem vestidos, bem comidos.
A versão de José Manuel, um homem de estatura baixa, cabelo grisalhado, todo vestido de negro, é que Manuel e Fátima nunca trabalharam para ele. 
— Como é que havia de lhes pagar se não trabalhavam para mim? Iam à jeira, recebiam o dinheiro [de outros patrões] e gastavam-no hoje. 

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Manuel, 59 anos, um braço imobilizado, fruto de uma queda dada enquanto estava em Alfândega da Fé, na casa de José Manuel

Acusa-os de gostarem de beber, de irem ao café ali ao lado. Mas a dona do café na altura em que viviam lá diz-nos que não se lembra de Fátima ou de Manuel — de José Manuel lembra-se, sim.  
Nunca trabalharam para si?
— Nunca. Alguma coisa que faziam aí na horta também comiam. Se meto aí batatas, tenho feijão, tenho tudo — eles iam lá e arrancavam, comiam cebolas, comiam tudo. Tinham por obrigação fazer alguma coisa.
Porque o acusam de um crime tão grave?
— Não respondo a mais perguntas.
Não tem a sua própria explicação? Se lhes deu de comer, casa, roupa lavada, porque o acusam? José Manuel irrita-se. Vai-se embora, pega no carro e arranca. Depois volta de novo e sem sair do carro recusa ter exercido qualquer tipo de violência sobre eles.
— Já disse que não trato mal ninguém, sou educado para todo o mundo e respeito todo o mundo. Sempre viveram nesta casa. Se ajudavam a apanhar a azeitona, também gastavam o azeite. Tenho umas 80 oliveiritas, ajudavam a apanhar e comiam o azeite. A coisa melhor que lhes fiz é que quando chegaram quase não sabiam falar, agora sabem. Vinham cheios de merda, todos cagados, e aqui não andavam sujos. Vi-os mal tratados [por isso decidiu ajudá-los e trazê-los para sua casa]. Por fazer bem ainda sou prejudicado.

No carro, onde segue a filha adoptiva que deve ter uns dez anos, vai também o genro, Joaquim. Que agora está separado da mulher, uma das filhas de José Manuel. Fala:
— Aos anos que estou nesta casa e nunca vi nada de especial. Sempre me dei bem com eles, é uma família para mim. Essas pessoas de que estão a falar, conheci-as bem. E é precisamente o que ele disse. Também trabalho [para ele]. Faço o que calha. Soldo, faço portas, janelas. E também não quero nem um cêntimo: sento-me à mesa e como e bebo com eles, não pago nada.
José Manuel acaba por arrancar de carro irado quando lhe pedimos para esclarecer as datas de um episódio que está a contar. Minutos depois chega Maria Alice. 
— Tenho muito respeito, muito carinho, sou muito amiga deles, mas não tenho nada a falar, nem nada a dizer.
O portão fecha-se. Dos filhos de Manuel e Fátima, nem sinal.

 
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